O Pai Eterno é Misericordioso

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A misericórdia não nos pede qualidades, nem méritos. Em si, ela é pura gratuidade. Já por si é a maior de todas as virtudes. O coração da misericórdia pulsa por redenção. Nele, não cabem recompensas. Isso porque a ação do Pai Eterno nasce de uma grandeza constante, sem restrições, pronta a nos humanizar. Nisso consiste a Sua onipotência. Fiel à bondade que O move, Ele acolhe a todos na incondicional soberania de Seu amor. A ternura de Deus não vê as diferenças que excluem, mas enxerga prontamente o sofrimento que solicita a inclusão de cada um, em especial, dos mais pobres e abandonados. São eles os primeiros endereçados da misericórdia.

Durante a Festa do Divino Pai Eterno, a nossa missão é proclamar, com ações e depois com palavras, que o rosto de Deus é misericórdia. Ele faz a nossa mensagem passar da bela retórica aos gestos concretos. Onde a dor impera, não somos juízes da moral nem reguladores da doutrina, mas servos da ação misericordiosa do Pai, que cura os feridos da vida com o bálsamo da compaixão e o remédio salutar da esperança.

Todas as vezes que agimos com unidade no trabalho missionário, com respeito à dignidade do outro, com consideração àqueles que estão à nossa volta, com a disposição de servi-los: a Misericórdia se faz carne novamente! Longe de um agrado açucarado, a sua correta aplicação não diminui a importância dos sacramentos nem enfraquece a vivência da fé.

Neste tempo em que nos aproximamos de mais uma Romaria, muitos romeiros vêm a Trindade expressar sua fé e amor, através da oração, do louvor, da súplica e também do agradecimento ao Divino Pai Eterno. É momento de se reunir com muita emoção a milhares de irmãos que, durante os dez dias de Festa, chegam a todo momento à Casa do Pai. Essa é uma forma de proclamar e reavivar a fé vivenciada pelo povo e fundamentada no amor de Deus. É vivenciar a experiência de encontro com o Pai, tendo a certeza de que Ele nos ama e nos recebe de braços abertos, por misericórdia.

Tenhamos esta certeza: O Pai Eterno é misericordioso. Para que assim possamos seguir em frente com nossas vidas, contemplando o amor que Ele tem por cada um de nós. E muito mais que isso, façamos com que esse amor ultrapasse as barreiras e se prolifere por meio da ação do Espírito Santo em cada um de nós. E é esse mesmo Espírito é o que nos une como irmãos e nos permite enxergar no irmão a face de Jesus Cristo.

Quando olhamos para os nossos irmãos e vemos o rosto de Cristo, temos a capacidade de seguir os exemplos Dele, amando o próximo sem nenhuma distinção, ou divisão de classe, cor, gênero etc. É por meio desse olhar de santidade que podemos também enxergar que todos somos fracos, e mesmo assim, o Pai Eterno nos acolhe, nos ama e nos perdoa, porque é grande a Sua misericórdia para conosco. A partir do momento em que seguimos os Seus exemplos, somos capazes de ter compaixão pelo outro, amando-o, perdoando-o, sendo misericordioso, como o Pai é misericordioso (cf. Lc 6,36).

A nossa fé e devoção é simples, porém forte. E é neste período de Romaria que ela se fortalece ainda mais com a reunião do povo de Deus, do romeiro, do peregrino, daquele que crê, confia e se entrega ao Pai Eterno. A fé é um dom, uma certeza que não estamos sozinhos neste mundo, pois é nela que nos reconhecemos como filhos amados do Pai Eterno. Pela fé nos convertemos e realizamos muitas obras de amor. É ela que promove todo o bem e nos faz alcançar a misericórdia divina. Pela fé, Deus age em nossas vidas, nos faz sentir o Seu amor e a Sua misericórdia, nos converte e nos traz muitas bênçãos.

Durante esse período festivo, que nos proporciona momentos de oração, reflexão e aproximação com Deus, a nossa fé é fortalecida para que nossa caminhada seja contínua. Temos, então, a oportunidade de falar com o Pai Eterno e aprender com Ele, nos tornando mais sábios e fortes, pois encontramos o caminho para a solução de angústias e conflitos. Em meio às grandes dificuldades, pela oração, a pessoa é sustentada pelo amor misericordioso de Deus. À medida que nos deixamos conduzir por essa experiência da fé, os problemas deixam de ser o fundamento de nossa vida, pois um só é o fundamento: o Divino Pai Eterno.

Então, na entrega confiante da vida ao Senhor, alcançamos a paz que o mundo não pode oferecer. Ele nos concede conforto sempre que entregamos a nossa vida à Sua Providência Divina. Esta paz e a certeza da Sua misericórdia divina é uma dádiva que Ele oferece para nós que cremos, amamos e buscamos viver com fé.

Assim, acreditamos em um Deus que nos cria no amor, espera na fé e salva na misericórdia. Nossa missão é sermos homens e mulheres de esperança, pessoas prontas para proclamar ao mundo a nossa fé. Busquemos a experiência, a paz e a misericórdia do Pai, para que nosso testemunho seja fruto daquilo que vivenciamos. Estejamos preparados para os desafios que a espiritualidade cristã nos provoca.

É fazendo a experiência da misericórdia que compreendemos o valor das verdades que fundamentam a vida cristã. Nessa direção, o Santuário Basílica existe para que os filhos do Pai Eterno se sintam nele acolhidos, reconciliados e fortificados para viver de acordo com o Evangelho da misericórdia. Permitamos, então, que o Pai nos fite nos olhos e nos conduza ao encontro com os redimidos. Eles têm muito a nos ensinar. Abençoada festa a todos!

 

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e presidente-fundador da Associação Filhos de Pai Eterno (Afipe)

Misericórdia sempre? Ou, só de vez em quando?

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A temática da Misericórdia proposta pelo Papa Francisco no ano passado está em alta na Igreja. Sistematicamente, o tema da Misericórdia está sendo aplicado aos documentos da Igreja, simpósios, congressos, retiros, estudos, encontros teológicos, citações em artigos de revistas e artigos monográficos, temas de cantos litúrgicos e religiosos… Bem como, inspirando temas de festas religiosas pelo Brasil e mundo a fora.

Isso é muito bom, naturalmente. O Papa Francisco afirma “que sempre é tempo de misericórdia”. O ser humano sempre se mostrou muito hábil na arte de reinventar a vida. Basta surgir uma situação nova de vida e ele está pronto para o desafio. Sua capacidade criativa o faz audaz, destemido, ousado. Alçar voos, desbravar terras, ir à conquista de novos horizontes e desafiar seus próprios limites são apenas algumas virtudes humanas. É assim que sempre caminhou a humanidade.

Vivemos numa época de difíceis e profundas transformações sociais. Tempos de expectativas, de muitas interrogações e poucas respostas. Ao passo que isso aproxima o ser humano de Deus, pode também afastá-lo para longe do Criador. Tudo depende do modo como cada um se vê perante a vida. De acordo com o Cardeal Walter Kasper, “o afastamento de Deus leva o homem a afastar-se da natureza e dos seus semelhantes”. Deste modo, a pessoa humana pode tornar-se insensível e fechada à graça e à misericórdia do Pai Eterno em sua vida. Principalmente, quando dela mais precisa.

Frei Luiz Turra diz “que muitos homens e mulheres sofrem por viverem à superfície de si mesmos e da História”. Segundo Francisco, a humanidade de nosso tempo precisa tanto de misericórdia “porque é uma humanidade ferida, uma humanidade que possui feridas profundas que não sabe como curá-las ou acredita que não é possível curá-las”. Sofrimentos diários e dores constantes podem levar o ser humano a perder a esperança diante da vida. Consequentemente, esquecer a ternura de Deus. O que para a humanidade seria um caos total.

Sabemos que nenhuma forma de amor humano pode fazer uma pessoa plenamente realizada e feliz. A felicidade é uma conquista que tem origem no esforço diário, cotidiano. Ela é superação. É conquista feita com braço forte. Ela não acontece por acaso, de forma sistemática. Ou, como num passe de mágica ou num instante de magia. Portanto, ela não acontece por acaso na vida de uma pessoa. Nesse sentido, uma vida ativa dentro da comunidade Igreja favorece a confiança em Deus na superação dos limites e fracassos humanos, bem como, a perceber que Deus aproxima de nós justamente quando dele mais precisamos.

Segundo a bula Misericordiae Vultus, n°. 12b, “é determinante para a Igreja e para a credibilidade de seu anuncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia. A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo. E, deste amor que vai até o perdão e o dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto aos homens”.

Falar de misericórdia em tempos atuais é mérito do papa Francisco? Ou, uma ação do Espírito Santo inspirada a partir das experiências pastorais de um homem de Deus acostumado com as durezas da vida nas ruas de Buenos Aires como uma “primavera na Igreja?” Assim diz Francisco: ““Na realidade, Deus mostra-se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade”.

A misericórdia de Deus para nós é semelhante à água contida permanentemente num imenso lençol freático. Ela está sempre lá, circulando de um lugar para outro do subsolo aguardando que algum peregrino sedento, dela precisando matar a sede, escave o solo até encontrá-la gratuitamente pura, límpida, inodora, insípda e incolor. Para Kasper, ela é “a vontade salvífica e universal de Deus que por sua misericórdia nos elegeu e chamou à vida e em virtude do qual Jesus Cristo se entregou por nós na Cruz”.

Então, que falemos muito da misericórdia de Deus. Que ela não se canse de ser anunciada, praticada e vivida em todos os cantos e lugares onde possa haver um coração humano que dela precise. E aprendamos, pois, que não basta apenas falar de misericórdia. É preciso fazer e ser, a exemplo de Cristo, o rosto da misericórdia do Pai Eterno!

Pe. Edinisio Pereira

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

Mãe de Deus e da Igreja

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“Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que, da parte do Senhor, te foram ditas!” Com essa saudação, Izabel acolheu a chegada da Santíssima Virgem, que acabara de ter um encontro com o anjo Gabriel, enviado pelo Pai Eterno para lhe dar a notícia de que ela havia sido a escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo.

Maria é sinônimo de doçura, ternura, silêncio, humildade, obediência e sabedoria. Ela disse ‘sim’ e, por meio dela, a salvação chegou ao mundo, trazendo o amor, a bondade e a misericórdia de Deus, com gestos simples de acolhimento e muita fé. Assim, Jesus Cristo é Deus que se fez homem e veio ao mundo para cumprir Sua missão. Mas, antes disso, Ele mesmo, recebeu o amor, o carinho e o cuidado da Mãe Santíssima.

Em seus momentos de criança frágil, foi Nossa Senhora quem cuidou e O educou na fé; ela O ensinou as coisas básicas que um ser humano precisa aprender para sua vivência: andar, falar etc. Tudo isso para mostrar que, mesmo tendo Sua essência divina, Jesus também precisou de uma mãe. Um exemplo disso podemos encontrar no Ícone de Nossa Senhora da Paixão, mais conhecido pelo título de “Perpétuo Socorro”, tão venerado nos locais por onde passam os Missionários Redentoristas.

No colo de Maria, está uma figura trêmula e frágil, tal como a humanidade. Estamos diante da criança que tem medo do sofrimento iminente: fruto de Sua opção pelo Reino do Pai, em vista dos pobres e abandonados.

É um Menino que, contemplando os instrumentos da Paixão, corre tão velozmente para os braços da Mãe, a ponto de deixar as sandálias soltarem dos pés. No simbolismo da sandália está a insegurança de alguém com a vida sob o encalço da perseguição.

Na narrativa bíblica, os pés são lavados e beijados, enquanto que no Ícone ficam desprotegidos. Perder a sandália é não conseguir andar por muito tempo nos caminhos pedregosos da existência. É prefiguração da morte. Ficar sem sandálias é despojar-se de si mesmo para assumir a ferida do humano. Não possuir sandálias nos pés é adentrar o caminho da mais absoluta entrega, por meio da Encarnação, Paixão e Ressurreição.

Ao adentrarmos o caminho iconográfico do Perpétuo Socorro, nos tornamos “socorros perpétuos” para o mundo que tem fome e sede do Pai. Dessa maneira, assumimos uma nova visão de Deus de baixo para cima, do temporal para atemporal, do finito para infinito; também descobrimos um novo rosto de vida cristã, entendendo-a como serva e não como senhora.

Neste mês, em que nós celebramos como o Mês Mariano e também temos a alegria de celebrar a memória boa e feliz de nossas mães. Devemos agradecer ao Divino Pai Eterno, por essa grande graça que nós, cristãos católicos, temos de ter duas mães: a nossa Mãe do céu e a nossa mãe da terra. Maria, que nos apresenta Jesus, o nosso “Perpétuo Socorro”. E, partindo dela, celebramos também a vida de nossas mães ou a memória daquelas que já se encontram com o Pai.

Deixemo-nos interpelar pelo olhar desta mulher que nos segura pelas mãos. Permitamos que Maria incite a nossa mente e o nosso coração para o Cristo. Aceitemos que ela mesma nos aponte o seu Filho como o caminho de felicidade plena e verdadeira. Contemplemos, na realidade mais profunda da alma, a presença simples daquela que invocamos como a “Mãe do Perpétuo Socorro”.

Que a Mãe do Belo Amor, o nosso Perpétuo Socorro, possa interceder por cada um de nós, em especial pelas, mulheres virtuosas e de muita fé, que vivem um cotidiano de doação de si mesmas, por amor à cada um de seus filhos, que também são os filhos do Pai Eterno. Feliz Dia das Mães!

 

Pe. Robson de Oliveira

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e presidente-fundador

O que é a vida?

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Em algum momento você já se perguntou a si – ou a outras pessoas – o que é mesmo a vida? De onde ela vem? Para onde vai? Qual a sua finalidade? Qual o propósito do nosso ser e existir no mundo? Questionou se tudo começa e encerra-se por aqui mesmo? Parou para pensar por que para muitos ela é tão valiosa e para outros é como se não existisse?

Platão diz que “uma vida não questionada não merece ser vivida”. Sei que o assunto é amplo, vasto, complexo. Por isso não pretendo, deste modo, fazer uma dissertação sobre o tema. Muito menos esgotar o assunto em questão. E, mais: reduzi-lo à minha modesta compreensão. O que me motiva a ousar falar sobre a vida justifica-se a partir da percepção das múltiplas facetas que se configuram atualmente. Principalmente, porque me deparo no dia a dia com tantos irmãos e irmãs que parecem ter desanimado de viver. São pessoas tristes, cansadas, abatidas. Pessoas que assumem abertamente ter perdido o sentido das coisas naturais, humanas, divinas e espirituais. “Vivem no automático”, conforme dizem.

Não sou um exímio conhecedor da vida e de tudo o quanto esteja nela envolvido. Contudo, sou um entusiasta por ela. Sendo assim, além de emitir minha própria opinião, servir-me-ei de alguns pensadores, filósofos, poetas, escritores e de citações bíblicas para, muito rapidamente, discorrer sobre este dom tão caro e precioso que recebemos gratuitamente das mãos bondosas, generosas e misericordiosas do Divino Pai Eterno.

A vida não para. Para os otimistas ela é divertida, envolvente, encantadora. Para os pessimistas é chata, frustrante, sem graça. No entanto, sua dinâmica alcança a todos. Do nascer ao morrer somos impulsionados, quer queira quer não, a caminhar, a lutar, a ir para a frente. Por outro lado, ela é cheia de preocupações e contradições o que nos faz temer, recear tomar qualquer decisão. Errar o rumo ou acertar o prumo? Eis a questão.

Para nós cristãos, nossa vida veio de Deus: “Então Javé Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7). Para Mário Quintana “a vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa”. Sócrates Cabral diz que “a vida é uma roda. Bem gigante”. Difícil é entrar no palco da vida e dele sair sem pretender roubar a cena do ator principal se tornando o palhaço bobo da corte. Difícil também é quando não se tem claro na vida o ponto de partida. Pior ainda, quando não se sabe exatamente aonde se quer chegar. Assim diz Sócrates: “Pois bem, é hora de ir: eu para morrer, e vós para viver. Quem de nós irá para o melhor é obscuro a todos, menos a Deus”.

Pe. Zezinho diz que “vive melhor quem sabe amar”. Na tentativa de superar tal realidade, Cipollini diz “que o ser humano procura um amor capaz de levá-lo além dos estreitos limites de sua fraqueza, de seu egoísmo, e sobretudo, de sua morte”. E, enfatiza: “o ser humano não sabe amar”. A falha não está no amor, pois ele é capaz de superar qualquer obstáculo para se tornar verdadeiramente conhecido, amado. Está na condição inacabada do ser humano que é imperfeito, frágil, limitado. Por isso mesmo não é capaz de alcançar a plenitude da vida. A felicidade é uma conquista que tem origem no esforço diário, cotidiano pela superação. É conquista feita com braço forte e não acontece por acaso, de forma sistemática.

Viver é nascer, vir de Deus. É também morrer, voltar para Deus. Seguindo um único caminho, Jesus: “Eu sou o caminho a verdade e vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Tenho que correr, fazer tal coisa, fazer isso ou aquilo… E, o tempo voa. Quando menos se espera o Juiz Universal apita final de jogo.  E, agora? O que me resta? Crer na vida, ter esperança ou ignorá-la? Para Nietzsche “a esperança intensa é um estimulante da vida muito mais forte do que qualquer felicidade isolada que realmente se concretize. É preciso manter os sofredores em pé mediante uma esperança que não possa ser contradita por nenhuma realidade”.

Por vezes o viver nos parece incerto, tateante, inseguro! Uma hora nos parece tão bonito viver ou ter vivido o que se viveu. Outra hora, há interrogações, incertezas, perguntas insondáveis e, portanto, respostas iluminadas somente pela fé nele: o Vivente. “Sob as luzes da ribalta, uma nova vida se manifesta por traz das cortinas, e os aplausos fazem nascer a glória de existir e estar apto ao amor do desconhecido” (Sócrates de Lima). Outro sim, confie em Deus, “plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores”. E, diga a você do jeito dela, o que é a vida!

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

Nem só de crise econômica e política vive o homem

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Ainda que o pão tenha faltado em nossas mesas e a recessão econômica trazido sucessivas demissões aos trabalhadores: precisamos resgatar a virtude da esperança, que tem pelejado bastante, na contramão de toda desesperança. Quem confia em Deus não se deixa dominar por nenhum desassossego nem fraquejar pela angústia. Pode até ficar momentaneamente balanceado frente aos alarmismos difundidos à velocidade da luz. Mas, ao perceber a precipitação das adversidades, o esperançoso trata de recobrar o ânimo e rechaçar a iminência do perigo vão. Isso porque, no Pai Eterno, reside a sua esperança derradeira. Lá no interior da alma ressoa a voz de Deus que a tudo serena e pereniza: “Sejam firmes, fortaleçam o coração, todos vocês que esperam no Senhor” (Salmos 31 (30),25).

Para além da mera ilusão ou da pura fantasia é a esperança quem nos salvará destes tempos críticos. Não há possibilidade de subirmos para o alto das montanhas, muito menos de buscarmos isolamento em um mundo à parte. Todos somos atingidos pela gravidade da circunstância instalada sobre o país. Mesmo que a cultura brasileira seja tão suscetível ao individualismo, participamos de uma coletividade tecida socialmente. O momento solicita temperança nos dizeres e bastante prudência nas atitudes. A responsabilidade da fé nos convida a não compactuar com as forças opostas que têm prestado um verdadeiro desserviço ao Brasil. Muito do que vemos, desde a transição democrática, pode ser tido como a nefasta manifestação da ‘não política’. São forças vis pelo fato de trocarem um projeto de serviço à sociedade por um projeto de poder a todo custo. Ali interesses coletivos ficam submetidos a interesses privados, sobretudo, de ordem financeira. Ao invés de vencer, perde quem age pelo certificado da esperteza; que, às escondidas, faz concessões imorais em função de si e dos seus.

Pobres em situação de rua sendo assassinados na calada da noite… Doentes morrendo a míngua nos corredores dos hospitais… Cidadãos tendo seus direitos sociais, trabalhistas e previdenciários sistematicamente negados… Mulheres ameaçadas e espancadas por seus maridos… Famílias inteiras enlutadas e vitimadas pela ausência de segurança pública… Negros e pardos mortos à luz do dia nas periferias… Racistas e xenófobos exalando preconceito pelas redes sociais… E, em meio a tudo isso, as pessoas continuam duelando por legendas partidárias, quando necessariamente poderiam lutar pela instituição, criação e proteção de direitos. Nasce daí a calamitosa divisão. Ninguém se ouve, só se ataca. O diálogo é exilado da convivência comunitária. Cada um parece sucumbir ao domínio último da razão e à totalidade primeira da verdade. Já não há o benéfico encontro de ideias, apenas o maléfico confronto de oposições. No campo das divergências, adversários políticos tornam-se inimigos públicos, conforme os revesses da história. Outros fazem alianças espúrias, cujo objetivo é a velha troca de favores a ferir a alma da democracia.

Enquanto isso a cartilha da crise nos é imposta goela abaixo, despedaçando o dom da esperança. O linguajar alarmista do mercado financeiro tem feito com que o significado da palavra ‘crise’ seja enfocado somente no lugar restrito das dificuldades e não na importante condição das oportunidades. Crise também consiste no momento decisivo de crescimento moral e de cidadania responsável. Pelo bem da nossa ‘casa comum’ não nos despedacemos. Revanches e contendas são caminhos tortuosos, onde muitos esforços se perdem devido à grosseria das posições extremadas. Aproveitemos da Quaresma para fazer as pazes com os oponentes. Unidos, na esperança, mesmo com posições outras, venceremos estes tempos difíceis. Passadas as cruzes, eis que se arvora a ressurreição!

Uma sociedade repartida tende a amuralhar-se sempre mais. Muros são os grandes responsáveis pela desesperança presente. Quem espera confiante não precisa criar cercanias para se proteger dos conflitos da vida. Do contrário, rompe com as muralhas para sair em defesa do bem coletivo. O remédio salutar para a crise atual está nas doses homeopáticas da democracia participativa e não meramente representativa. Esperemos, pois, não nos redutos de nossas casas, mas de preferência em cima dos muros. Do alto enxergamos os dois lados que se gladiam. De lá poderemos orientá-los na esperança que ultrapassa todas as divisas!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás

Misericórdia e Reconciliação

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Acontece já há alguns anos na Província Redentorista de Goiás o Encontro Anual dos Padres Novos, específico para presbíteros com até 10 anos de ordenação. Uma pausa importante das atividades pastorais para um excelente momento de oração, estudo, convivência, lazer e descanso. Este ano o Encontro aconteceu em Pirenópolis (GO), entre os dias 22 e 26 de fevereiro.

Sempre associado a um assunto de relevância pastoral, a reflexão se deu a partir do tema “Misericórdia: exercício do perdão no ministério presbiteral”. A abordagem da Misericórdia no agir pastoral foi levada em consideração para o encontro de 2016 em virtude do Ano Santo da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco, em 08 de dezembro do ano passado. E, ainda por entender que todos os padres que participam do encontro anual atuam nos confessionários atendendo fiéis e ministrando a eles o Sacramento do Perdão ou da Reconciliação como condição básica e necessária para um bom recomeço humano e espiritual dentro da Família, na Igreja e na sociedade.

Falar de Misericórdia hoje é tão importante quanto necessário. Francisco acredita que “este é o tempo da misericórdia. A Igreja mostra o seu rosto materno, de mãe da humanidade ferida. Não espera que os feridos batam à sua porta, vai à procura deles pela rua, acolhe, abraça, cuida, e faz com que se sintam amados”. Este modo de entender a bondade de Deus expressa nas ações da Igreja leva Francisco a afirmar que “a centralidade da misericórdia é a mensagem mais importante de Jesus”.

Um dado muito importante que não pode passar despercebido a um bom cristão e a quem se propõe a ser um dispensador da misericórdia do Pai Eterno às outras pessoas, refere-se ao fato de a misericórdia de Deus chegar ao ser humano através de outros humanos. Sim, é verdade, conforme Paulo escreve à comunidade de Corinto: “Com efeito, em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo, não imputando aos homens as suas faltas e colocando em nós a palavra da reconciliação” (2Cor 5,19). Se queremos conhecer a face bondosa e misericordiosa de Deus nosso Pai, olhemos para Jesus. Ele foi todo misericórdia e compaixão do início ao fim de sua missão terrena. Ou seja, desde a compaixão para com os noivos de Cana da Galileia (Jo 2,1-11), ao malfeitor crucificado com ele no alto da Cruz (Lc 23, 39-43).

De uma condição limite, de pecado à uma situação de conversão, para ajudar alguém a fazer uma boa experiência da misericórdia de Deus é necessário escutar a pessoa, ouvir suas queixas, dores, lamentos. Somente para depois, buscar ajudá-la a acolher em suas mãos sua própria história de vida. O reconhecimento e acolhimento de si, das fraquezas e mazelas humana é o primeiro passo para a transformação. E, a oração não pode faltar. O que sustenta o ser humano não é o intelectualismo, o exibicionismo, nem o espetáculo midiático bem como a fuga de si. Para Pereira, “a oração deve estar vinculada às situações vividas. Só é possível orar quando nos voltamos para todas as dimensões do ser humano”, finaliza.

Numa sociedade moderna marcada pelo espetáculo midiático muitos preferem um Deus todo poderoso a um Deus misericordioso. Segundo o assessor do Encontro, o missionário redentorista da Província do Rio de Janeiro, Pe. José Raimundo Vidigal, isso ocorre “porque atribuir a Deus a condição de todo poderoso é um atributo apenas de Deus, não se aplica ao ser humano que é fraco e pecador”. Segundo ele, ser misericordioso “implica ser igual a Deus, o que muitos não querem. Ou, ignoram que em Jesus de Nazaré, Deus assumiu nossa condição humana em tudo, exceto no pecado”. Logo, sentir Deus como Pai misericordioso é assumi-lo em nossas práticas e ações cotidianas para conosco mesmo e principalmente para com as pessoas que carecem de perdão e reconciliação. Um recomeço de vida.

Onde encontrar hoje, sobretudo, a Misericórdia de Deus? Nos Sacramentos. Desde o Batismo à Unção dos Enfermos. Na oração e leitura atenta da Palavra de Deus. O Sacramento da Reconciliação é um caminho bonito e seguro que nos leva ao encontro com a Misericórdia de Deus através do perdão dos pecados. Assim, nos diz Jesus: “Recebam o Espírito Santo. Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados” (Jo 20,22-23).

Para ajudar bem os fiéis devotos do Pai Eterno a continuarem experimentando em suas vidas, vivendo na prática e anunciado a misericórdia de Deus onde estiverem, o Santuário Basílica do Divino Pai Eterno disponibiliza sacerdotes desde as oito horas da manhã, às oito da noite para o atendimento de confissões, orientações de vida e espiritual.

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

Obras Sociais Redentoristas e a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016

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Na Quarta-feira de Cinzas deste ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, lançou a Campanha da Fraternidade Ecumênica para o ano de 2016. Realizada todos os anos, a Campanha tem o objetivo de despertar a solidariedade entre os fiéis e na sociedade como um todo. O evento é realizado sempre durante a Quaresma, tempo em que os cristãos são convidados a uma mudança de vida. A cada cinco anos a CF, como é conhecida a Campanha da Fraternidade, propõe um trabalho ecumênico, numa parceria firmada entre as instituições que fazem parte do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, o CONIC.

Em 2016, o tema escolhido é: “Casa comum, nossa responsabilidade”, ancorado ao lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Cf Am, 5,24). Assim, os trabalhos propostos pela Igreja para atividades ao longo do ano são voltados para o cuidado com o meio ambiente e para a conscientização de todos à cerca da nossa “casa comum”, o planeta terra.

Em unidade com a Igreja no Brasil, as Obras Sociais Redentoristas propõem aos colaboradores e assistidos um ano de muito trabalho. Como parte das ações do Gesto Concreto, toda a comunidade local é convidada a exercer a função de “fiscal da campanha”. Para tal, basta procurar um dos centros sociais e se inscrever de forma gratuita. Os interessados vão receber todo o treinamento, com oficinas e workshops ministrados por especialistas de cada iniciativa apresentada e, assim, vão iniciar o trabalho de conservação dessa “casa comum”.

Entre as ações programadas para 2016 nos Centros Sociais Redentoristas estão o reflorestamento de uma nascente, em Trindade (GO); a construção de uma praça onde hoje é um terreno baldio, numa parceria com a prefeitura da cidade; a conscientização da comunidade à cerca da importância da coleta seletiva e da reciclagem do lixo, além da capacitação para que as famílias possam transformar materiais que iriam para o lixo em utensílios para o uso no dia a dia. As Obras Sociais Redentoristas apresentam, ainda, o projeto da horta vertical, em que garrafas PET são usadas como base para o plantio de hortaliças, tanto para o uso nas refeições dos Centros Sociais, quanto para o exercício das próprias famílias, bem como a conscientização para o uso adequado da água e questões de desmatamento ambiental.

Além de toda a parte prática desenvolvida pelas Obras, não se pode esquecer do principal:  pedir a bênção e as graças do Pai Eterno sobre esse trabalho. Santo Agostinho dizia que “quem sabe bem rezar, sabe também viver bem”, pensando nisso, os assistidos pelo trabalho, bem como a comunidade local, são convidados a participar das “Novenas da Campanha”, que são realizadas em todos os Centros Sociais, de segunda a sexta-feira. Cada unidade tem um calendário específico de horários que contribui para a participação do maior número de pessoas, compondo a agenda diária de novenas.

Esses momentos de oração servem para auxiliar na celebração da Quaresma rumo à Páscoa do Senhor. É um período de preparação para celebrar esse tempo litúrgico da Igreja, um momento em que se faz uma revisão de vida pessoal e comunitária. As novenas são meios eficazes de conversão e conscientização pessoal.

Para que tudo isso ocorra, a formação de parcerias é de suma importância, desde a prefeitura, com o trabalho de doação de mudas e liberação do terreno para a praça, até as empresas da região, com a ajuda efetiva em ações concretas. Mas, tudo só é possível com a presença e ajuda dos moradores da região, que, como formiguinhas, podem ajudar a construir um mundo melhor para as gerações futuras.

O Santo Padre, Papa Francisco, no capítulo I da encíclica Laudato Si, disse que “o ambiente humano e o ambiente natural são degradados em conjunto, e não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental se não prestarmos atenção às causas que estão relacionadas com a degradação humana e social”. Neste pensamento, nós, das Obras Sociais Redentoristas, organizamos nosso Gesto Concreto deste ano para que todos tenham acesso à informação de qualidade sobre como cuidar do meio ambiente, mas com a consciência de que é preciso fazer uma revisão pessoal de vida sob a luz do Evangelho e amparados na fé ao Pai Eterno.

Pe. Reinaldo Martins, C.Ss.R

Diretor das Obras Sociais Redentoristas de Goiás

Sanados por Jesus, sanemos!

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Com o tema “Casa comum, nossa responsabilidade” e o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Amós 5,24) damos início à Campanha da Fraternidade – 2016, entremeada pela Quaresma e o Jubileu da Misericórdia, em plena sintonia com a Carta Encíclica Laudato si’, cuja autoria é do Papa Francisco e em conformidade com o Decreto Unitatis Redintegratio (A restauração da Unidade), decorrente do Concílio Vaticano II (1962-1965).

É a quarta vez que grandes expressões religiosas brasileiras se unem para a celebração de uma ação ecumênica, sob a coordenação do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). As outras três campanhas da fraternidade, perpassadas pelo dom do Ecumenismo, se deram com as seguintes temáticas: “Novo Milênio sem exclusão: dignidade humana e paz” (2000), “Felizes os que promovem a paz” (2005) e “Economia e vida: vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (2010).

Na mesma medida em que há diferenças doutrinais abertas, impedindo a plena comunhão eclesiástica, também existe o desejo fiel, no coração destas comunidades cristãs, em se reunirem no entorno de questões relacionadas à justiça social e à dignidade humana. Desde então cada uma delas concedem um fiel testemunho da unidade solicitada pelo Evangelho de Jesus: “Para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (João 17,21).

Por se tratar de uma atividade conjunta a campanha conta com a participação efetiva da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia (ISOA), Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Igreja Presbiteriana Unida (IPU), Aliança de Batistas do Brasil, Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Ceseep) e Visão Mundial.

Não deixa de chamar a atenção o posicionamento de uma pequeníssima parcela de católicos, equivocadamente críticos, ao fato da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) trazer reflexões sociais nestes quarenta dias tão propícios da graça divina, compreendidos entre a quarta-feira de Cinzas e o domingo da Páscoa. Pensa essa minoria que seria mais interessante colocar eixos temáticos relacionados aos sentimentos da alma. Porém, não pode haver caminho penitencial que não passe antes pelo atalho necessário da dor alheia. É preciso olhos bem abertos para enxergar aqueles que têm tido os seus direitos fundamentais repetidamente negados, tal qual ocorre com os seis milhões de sofredores, mundo afora, que ainda não possuem acesso a um banheiro, segundo a Organização Mundial da Saúde.

É uma dolorosa lesão na alma humana que aponta para a profunda desigualdade econômica e socioambiental a acometer os mais pobres. As mortalidades infantil e adulta, ocasionada por Poliomielite, Hepatite A, Febre Tifoide e Paratifoide, Cisticercose e Leptospirose, dentre outras doenças, poderia ser evitada caso houvesse um saneamento básico suficiente e de qualidade. Ainda assim, não basta sanear. É necessário que tanto a água encanada quanto o esgoto coletado sejam devidamente deslocados para uma Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR). Só depois disso é que podem ser destinados aos rios ou ao mar, dentro de parâmetros legais que não ofereçam riscos à biodiversidade da saúde humana, animal e vegeta

Dados coletados pelo Instituto “Trata Brasil” apontam que 35 milhões de brasileiros, sobretudo os moradores das periferias e das zonas rurais, carecem desse serviço elementar. Já nas metrópoles vigora o permanente descaso com os esgotos a céu aberto que, além de atentarem contra a coletividade, dão sinais claros da inoperância do poder público, responsável por salvaguardar um direito constitucional por saúde.

A Quaresma nos convida ao abraço da fé e à conversão do coração. Nada mais concreto do que nos reconciliarmos com a nossa Casa Comum, lutando pelo direito de todos ao saneamento básico. Se formos olhar para o sentido da palavra ‘saneamento’ encontraremos o verbo ‘sanear’. Ele se remete à pessoa que está restaurada e reconciliada. Nela o mal foi sanado. Passou-se do estado de insalubre à condição de saudável. Que não sigamos adiante sem mirar entre aqueles que permanecem em condições indignas de vida, à margem da sociedade, com direitos básicos menosprezados. Eles contam com a nossa defesa por uma sociedade mais justa e menos desigual. Abençoada Quaresma!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e Presidente-fundador da Afipe

Lixo ou flores?

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Existe uma pequena estória, rica em significados, que diz o seguinte: “Certa vez, em um país distante, havia um homem muito rico que se gabava de sua riqueza. Nela, tal homem rico depositava toda sua confiança. Além de muito avarento e soberbo, era também um profundo zombador dos seus semelhantes. Principalmente, dos pobres e abandonados. Certo dia, aquele homem rico deu uma cesta cheia de lixo a um homem pobre. Este, por sua vez, a recebeu de bom grado. Sorrindo, o pobre homem correu até sua casa, uma humilde choupana construída ao pé da serra com a cesta na mão. Cuidadosamente, a esvaziou. Lavou e encheu-a das mais lindas flores do seu pequeno jardim! Retornando, entregou novamente aquela cesta de lixo ao homem rico. Ao ver tal atitude, e o que havia dentro da cesta, o homem rico ficou muito comovido. Surpreso, perguntou: ‘Por que me deu flores se lhe dei somente lixo?’ Sorrindo, olhando nos olhos do homem rico, aquele homem pobre respondeu: ‘Porque cada um dá aos outros aquilo que tem de melhor no coração!’.”

Estamos vivendo em uma época difícil de nossa história. A sociedade como um todo esvazia-se de antigos valores considerados até então como imutáveis, perenes, inquestionáveis. Vive-se um forte período de grandes conturbações de ordem religiosa, política, moral, ética e social. A equação matemática do mundo moderno não é somar, dividir, partilhar. Ao contrário, é subtrair para multiplicar. Ou seja, retirar do outro e acumular para si.

O que recebemos nesta vida, e consequentemente na vida futura, é fruto da semente que aqui plantamos. Isto é uma verdade de fé que nos vem de Jesus: “Se vocês plantarem uma árvore boa, o fruto dela será bom: mas, se vocês plantarem uma árvore má, também o fruto dela será mau” (Mt 12, 33). A terra produz abrolhos, espinhos e flores. Todos eles são igualmente importantes e cada um desempenha uma determinada função na natureza. A bondade e a maldade não são características inatas do mundo. Elas passam a existir à medida que são favorecidas, plantadas, regadas e cultivadas no coração da pessoa humana desde o nascer ao morrer.

Se é verdade que a boca fala do que está cheio o coração (cf. Mt 12,34), é mais verdade ainda que ninguém dá aos outros aquilo que se não tem. Exemplos cristãos de solidariedade, fraternidade e amor ao próximo não nos faltam. Todavia, quero ressaltar a pessoa de Jesus de Nazaré, o Cristo Ressuscitado como o maior ícone de doação bondosa e generosa que o mundo já conheceu. Tendo vindo ao mundo em sua condição humana e divina, deixou-nos este grande legado: “Ele tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade a Deus. Ao contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,6-7). Além de nada acumular para si, doou ao mundo o dom mais precioso e sagrado que recebeu do Divino Pai Eterno no alto da Cruz: sua própria Vida.

Insultos, ultrajes, chibatadas, escárnios, cusparadas, bofetões? Jesus não devolveu a seus algozes a coroa de espinhos que lhe puseram sobre a cabeça. Nem os cravos que lhe cravaram as mãos. Muito mais ainda, o fel que lhes dera de beber ou a lança que traspassara o seu lado. Do alto da Cruz, deu-lhes o seu perdão: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que estão fazendo!” (Lc 23, 34).

Na vida há os que gostam das flores e os que amam os espinhos. Lixo ou flores? O que você tem ofertado às pessoas com as quais se relaciona, convive, trabalha? Não cabe aqui estabelecer critérios de juízo moral a ninguém. Cada um é livre diante de Deus, de si mesmo e das outras pessoas para decidir que caminhos na vida se quer tomar para alcançar os fins desejados e os frutos esperados de suas obras. No entanto, nos adverte o Senhor: “Eu lhe propus a vida e a morte, a bênção ou a maldição. Escolha, portanto, a vida, para que você e seus descendentes possam viver, amando a Javé seu Deus, obedecendo-lhe e apegando-se a ele a sua vida e o prolongamento de seus dias. Desse modo você poderá habitar sobre a terra que Javé jurou dar aos seus antepassados Abraão, Isaac e Jacó” (Dt 31, 19-20).

A vida tem os seus desafios que exigem muito de nós, naturalmente. Porém, não cansemos e nos preocupemos atoa, por qualquer motivo, pois “o próprio nosso Senhor Jesus Cristo e Deus nosso Pai, que nos amou e por sua graça nos dá consolo eterno e esperança feliz” (2Ts 2,16). A beleza não está nas flores. Elas sequer sabem que são belas. A beleza está nos olhos de quem as contemplam. Quanto maior o coração, maior as alegrias. Doe flores!

 

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

 

 

Tal pai, tal filho

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Atualmente, a figura do pai anda um pouco apagada. Em alguns meios, existe uma opção deliberada por destruir completamente a figura paterna. Seria interessante entrar no emaranhado de razões desta situação, no entanto, é muito pano pra manga e talvez seja melhor deixar para outro momento. Uma coisa é certa: a partir do Santuário de Trindade, a figura do pai conserva uma força enorme, pois a experiência de fé de milhares de peregrinos é constituída pela confiança em Deus, carinhosamente chamado como Divino Pai Eterno.

Uma filósofa e ensaísta espanhola chamada Maria Zambrano, em seu livro “Islas”, dizia sobre a importância da paternidade no processo de educação e crescimento da pessoa humana. Segundo ela, nada é mais decisivo que a própria origem, quando nosso pai, além da vida, deu-nos também o nome. O pai não é apenas um homem de carne e osso que nos transmitiu carga genética, mas nos deu um nome, uma estirpe e, consequentemente, um destino. A presença e o acompanhamento do pai no processo educativo de uma pessoa, principalmente nos primeiros passos, possibilita a experiência de confiança na vida.

O que somos hoje é herança, porque somos filhos. Recebemos tanto de nossos pais: características, nome, costumes, língua, religião, cultura e tantas outras coisas. Nada começou conosco; damos sequência, continuação. Por isso, somos responsáveis pela história de continuidade daquilo que recebemos e do que levamos avante. A responsabilidade que temos nos faz humildes em saber que não somos inventores do mundo e, ao mesmo tempo, temos a confiança que, para gerir o grande patrimônio da vida, somos acompanhados pela força e clemência da paternidade.

Neste ano, o Santo Padre Francisco propôs aos católicos do mundo inteiro a celebração de um extraordinário jubileu com o tema da Misericórdia. Sua proposta pede que partamos do ensinamento de Jesus, que diz: “Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Este é, pois, o programa do jubileu para todos nós: contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida. Para bem celebrar o jubileu, muito mais que passar por uma porta, é necessário que alcancemos viver no dia a dia, a misericórdia do Pai Eterno. Seu amor misericordioso nos restaura para uma vida nova e inspira a coragem para olhar o futuro com confiança.

Jesus é o rosto da misericórdia do Pai, como disse Papa Francisco. Ele, com Suas palavras e Seus gestos, revelou sua origem divina. Como se diz por aí, tal pai tal filho. Isso se aplica muito bem na vida de Jesus, pois viveu para testemunhar o amor gratuito do Pai Eterno: “como o Pai me amou, eu vos amei” (Jo 15,9). Portanto, todos nós podemos ser homens e mulheres de misericórdia, porque em Jesus Cristo nos tornamos também filhos, herdeiros do amor misericordioso do Pai Eterno que nos acompanha por nossos caminhos. Nada pode nos separar do Seu amor paterno; nenhuma catástrofe pode destruir a confiança que temos em nossa origem, revelada por Jesus, vinda do alto.

 

Ir. Marcos Vinícius Ramos de Carvalho, C.Ss.R.

Missionário Redentorista

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