“Acaso sou guarda de meu irmão?” (Gn 4,9)

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O relato bíblico do quarto capítulo do Livro do Gênesis narra a história de dois irmãos, Abel e Caim. Abel era pastor de ovelhas e Caim cultivava o solo. Ao oferecerem a Javé as primícias de seus trabalhos, o texto diz que Javé agradou-se de Abel e de sua oferenda. Por esse motivo, Caim ficou muito irritado e com o rosto abatido. Furioso, armou uma cilada. E, no campo se lançou contra seu irmão e o matou (cf. Gn 4,1-8).

Para esta reflexão, podemos nos perguntar: será que Caim não amava a Javé nem a seu irmão Abel? O que motivou tal atitude? Ciúme? Inveja? Falta de amor próprio? Ou, tudo ao mesmo tempo? O que este relato diz a nós hoje? Respeitamos nossos irmãos e irmãs como eles verdadeiramente são, ou somos levados pela onda do padrão social politicamente correto?

Vamos dar um salto na História Bíblica para tentar discorrer sobre o assunto partindo do Primeiro ao Segundo Testamento. O mandamento maior que recebemos de Jesus sugere-nos o amor a Deus sobre todas as coisas. E, como extensão, amar o próximo como a si mesmo. O amor é o elo que une afetiva e efetivamente as pessoas. Amar é querer bem os irmãos mesmo após as ofensas sofridas (Gn 45,1-28). É ser suporte (Ef 4,1-3) paciente, prestativo, benigno, caridoso, serviçal (1Cor 13,4-7). É assumir a atitude do bom samaritano (Lc 10,29-37) do pai misericordioso diante dos filhos perdidos (Lc 15,11-32), do bom pastor (Jo 10,1-18). É oferecer a ele o perdão (Lc 23,43) como caminho para a Ressurreição (Lc 24,13-35).

Amar implica, necessariamente, “saber onde está o irmão para dele cuidar. É manifestar interesse pelo que lhe acontece para alegrar-se com as alegrias e amparar-se mutuamente nos desânimos” (Faria, 2015). Neste sentido, ocupar-se do irmão não significa curiosidade pela vida pessoal, particular do que lhe acontece. Saber do irmão – de sangue ou de fé – ajuda no momento do perdão, da reconciliação e da orientação de vida. Favorece a compaixão ao entender e respeitar a outra pessoa em sua totalidade. Aquilo que ela verdadeiramente é: sem rugas, enganos, mentiras, máscaras, rodeios, subterfúgios.

Ocupar-se do irmão é ato gratuito de serviço prestado sem intenção de retorno. É assumir a atitude de Jesus que não apenas chama Levi (Mt 9,9) para ser um dos seus, mas toma partido ao defendê-lo diante de seus acusadores: “Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores” (Mt 9,12). Por isso, amar, cuidar, defender e querer bem o irmão é correr o risco de ser mal interpretado, mal entendido assim como Jesus o foi. Sêneca, orador romano, insiste em dizer que, ainda que corramos risco é preciso arriscar, pois “somente a pessoa que corre riscos é livre para viver e amar”.

Não ocupar-se do irmão é o mesmo que dizer: “Você não tem importância para mim!”.  Brizzolara afirma que “o caminho para encontrar a fraternidade passa pelo reconhecimento da diversidade”. Se Caim tivesse aceitado ser “diferente” de Abel, não o teria matado, com o qual matou também a possibilidade de ser “irmão”. Quando se aprende a amar desde cedo se aprende também a respeitar a outra pessoa em sua dignidade, a não falar mal da vida alheia nem espalhar cizânia, intrigas e fofocas. Aprende-se a “tirar as sandálias” (cf. Ex 3,5) diante do diferente ao saber que ali está um “solo sagrado” onde ninguém tem o direito de invadir, rotular, preconceber, destruir, matar.

A falta de cuidado passa pela dificuldade em compreender verdadeiramente aquilo que se é. Para amar, cuidar, respeitar e não “matar” a outra pessoa é preciso antes saber amar e cuidar de si mesmo. Isso constitui na prática um grande desafio uma vez que esse cuidado exagerado conduz ao egocentrismo narcisista. Para Boff “o cuidado de si implica, em primeiríssimo lugar, acolher-se a si mesmo, assim como se é com suas aptidões e seus limites. É poder criar uma síntese onde as contradições não se anulam, mas o lado luminoso predomina”.

Saber-se amado é condição básica, fundamental para o cultivo do amor sincero e verdadeiro. É o dedicar tempo para falar, ouvir, sorrir, se divertir, chorar juntos. É ter esperança no amanhã e entender que nem todas as pessoas correspondem ao nosso amor da mesma forma que gostaríamos, ou do modo como a elas devotamos os nossos sentimentos e afetos.

Podemos finalizar então, dizendo que cuidar é respeitar as diferenças.  E, que para viver bem e feliz, a condição básica é ocupar-se do irmão e não querer destruí-lo. Onde está o teu irmão Abel? Esta foi a pergunta que Deus fez a Caim no passado. E, pode estar fazendo a mim e a você neste momento!

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

 

Anunciar com o coração

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Mês de outubro é dedicado às Missões. Anunciar Jesus com as palavras e também com atitudes de vida. Mês para refletirmos sobre a importância de viver o que cremos, para que a mensagem evangélica chegue ao coração das pessoas. É preciso anunciar com o coração, mais do que com palavras. Diz um ditado popular que “as palavras convencem, os exemplos arrastam”, e é isso que precisamos refletir, estamos, como nosso modo de ser, conquistando pessoas para Deus?

O Papa Francisco tem nos ensinado como evangelizar, como levar a Palavra de Deus ao coração das pessoas e ele nos ensina dizendo que é preciso ter uma linguagem simples, cheia de Deus. Ele fala como Jesus falava, com simplicidade, mas de coração aberto, sensível ao povo destinatário de suas palavras.

Falar simples não é tão simples, pois exige muito mais que falar difícil, pois se trata de conhecer a verdade e ter sabedoria para transmitir às pessoas que escutam. O Papa (em sua Exortação Apostólica Alegria do Evangelho) usa a imagem da mãe. Ele diz: “A Igreja é mãe e prega ao povo como uma mãe fala ao seu filho, sabendo que o filho tem confiança de que tudo o que lhe ensina é para seu bem, porque se sente amado” (EG 139). Francisco nos indica as consequências desta atitude materna a ser usada na pregação, no anúncio da Palavra. A mãe sabe o que o filho precisa, ela sabe escutar suas preocupações, ansiedades, necessidades e aprende com ele também. Isso porque ela ama, e o amor faz que ela esteja atenta para corrigir, orientar, educar através do diálogo.

Deus age conosco como uma mãe. O uso da linguagem materna que dá sabor de mãe ao anúncio. O anúncio não deve ser expressado com uma linguagem distante, mas sim de um modo que os destinatários da Palavra, do anúncio a compreendam e vivam a orientação que vem de Deus. Por isso acentua a importância do diálogo ser cultivado através da proximidade cordial daquele que anuncia, ou seja, anunciar com o coração. É uma verdade a ser meditada: os conselhos de mãe são sempre guardados, mesmo se não são bem aceitos no momento em que os recebemos.

Tenho percebido em minha experiência de quase trinta anos de ministérios sacerdotal que, quando falamos de coração a coração, a Palavra de Deus surte maior efeito nas pessoas e o mesmo acontece ao contrário, quando somos ríspidos, grosseiros, a Palavra não penetra no coração dos destinatários e os leva ao esfriamento religioso, quando não mudam de Igreja se transformando em inimigos da Igreja. Noto que o nosso modo de anunciar reflete por demais nas pessoas, tanto positiva como negativamente. Diante dessa constatação o que devemos fazer? Mudar nosso modo de anunciar. Somos missionários e discípulos de Jesus e, como Ele, devemos anunciar.

Jesus gostava de dialogar com seu povo. Cabe ao missionário sentir prazer de anunciar como o Senhor e ter a alegria de falar como Ele falava ao povo. O Papa Francisco lembra que o anúncio, a missão, é muito mais do que a comunicação de uma verdade, pois não se pode reduzir somente a palavras, mas na comunicação feita com amor. São Paulo escrevendo ao Romanos nos lembra: “A fé surge da pregação, e a pregação surge da palavra de Cristo” (Rm 10,17). O anúncio da Palavra será bom, terá efeito se houver o diálogo dos corações.

Reflitamos sobre essa frase, melhor dizendo, sobre essa expressão do Papa Francisco: “O pregador tem a difícil missão de unir os corações que se amam: o do Senhor e os corações de seu povo” (EG 143). Aquele que anuncia a palavra tem a missão de anunciar Jesus Cristo. Paulo nos exorta dizendo: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, Senhor. Quanto a nós mesmos, é como servos de vocês que nos apresentamos, por causa de Jesus.” (2Cor 4,5).

A missão deve, portanto ser fruto de uma profunda convicção, de uma fé que está enraizada no coração, para chegarmos e atingirmos os corações das pessoas às quais nos são confiadas no trabalho pastoral. O Papa continua a nos ensinar dizendo: “Falar com o coração implica mantê-lo não só ardente, mas também iluminado pela integridade da Revelação e pelo caminho que essa Palavra percorreu no coração da Igreja e do nosso povo fiel”… “A identidade cristã é aquele abraço que o Pai nos deu quando pequeninos… e faz-nos anelar pelo abraço do Pai misericordioso que nos espera na glória” (EG 144). Estejamos, pois, atentos e procuremos falar de coração a coração, mostrar a convicção que nos faz cristãos, isso certamente provocará conversões. A missão será proveitosa, produtiva, operosa.

Pe. Walmir Garcia, C.Ss.R.

Missionário Redentorista

Amor que renova, traz a paz e a misericórdia

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Neste Ano Santo da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco para a Igreja Católica em todo o mundo, temos visto o quão é grande a preocupação do nosso Santo Padre para com a humanidade, para com os filhos e filhas do Pai Eterno. Por várias vezes em que falou sobre misericórdia, em sua humildade, ele nos ensinou o quanto é precioso e imprescindível vivenciar o perdão em nossas vidas, a começar pelos nossos lares, em nossas famílias. É praticando o perdão no seio familiar que aprendemos a ser mais amáveis e maleáveis em relação aos erros, às ofensas e àquilo que o outro faz e que, porventura, acaba nos machucando.

Em toda a história da humanidade, sempre ouvimos falar sobre as guerras do passado, desencontros e discórdias entre pessoas e grupos que pensam e agem de maneira diferente uns dos outros. É triste perceber que, ao longo dos séculos evoluímos em tantos aspectos, principalmente no que tange à tecnologia, mas continuamos com os mesmos problemas de guerra, violência e discórdia que são frutos da intolerância e falta de amor, de perdão e de misericórdia de pessoas que, na maioria das vezes, não aceitam o estilo de vida e a maneira de viver do outro.

Na mídia, percebemos claramente que estamos vivendo um tempo em que a intolerância tem se mostrado muito presente. Pessoas que não têm amor umas pelas outras e que, por pura maldade e falta de discernimento em relação às escolhas pessoais do outro, praticam atos perversos e até criminosos para prejudicar o irmão.

Apesar de ver tantas coisas ruins que a mídia sensacionalista expõe diariamente, não devemos perder a esperança e é isso que o Ano Santo da Misericórdia nos ensina: que podemos alcançar um mundo melhor, se vivermos aqui na Terra, com os nossos irmãos, a mesma misericórdia que o Pai Eterno tem para conosco.

Se olharmos ao nosso redor, é muito fácil também encontrar pessoas de bom coração, que se preocupam com o irmão e que mostram, até mesmo por meio de pequenas atitudes, que é possível enxergar Jesus no outro e, dessa maneira, colocar em prática o amor e o perdão que Ele mesmo nos ensinou, quando veio cumprir Sua missão aqui na Terra.

Em sua Bula Misericordiae Vultus, n.10, o Papa Francisco nos ensina que “o perdão é uma força que ressuscita para uma vida nova e infunde a valentia para olhar o futuro com esperança”. É nisso que devemos acreditar, para que consigamos alcançar um mundo, onde a paz e o amor divino reinam. E neste mês de setembro, em meio à celebração do Ano Santo da Misericórdia, quando celebramos mais um Mês da Bíblia, refletimos o tema “Para que n´Ele nossos povos tenham vida” e o lema “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus”.

A proposta é que seja estudado o livro do profeta Miqueias, como forma de levar às comunidades o desejo de conhecer os ensinamentos contidos nas Sagradas Escrituras. O que pode trazer aos corações dos fiéis, mais esperança, por meio de experiências de fé e vivência da oração, que nos aproximam do amor do Pai Eterno.

Em meio a tantas experiências negativas que temos presenciado com as violências diárias em todo o mundo, é muito importante ter homens e mulheres capazes de lutar para que a Palavra de Deus nunca se perca. Pessoas que servem ao Pai Eterno, evangelizando, com muita fé e perseverança, aqueles que não conseguem mais encontrar o sentido de suas vidas, levando a eles o amor verdadeiro, puro e divino, por meio da oração.

Santo Afonso Maria de Ligório nos ensina que não há meio mais necessário e mais eficaz para vencer as tentações contra a virtude angélica do que o recurso imediato a Deus pela oração (cf. S. Alphonsus a Liguori, Pratica di amar Gesù Cristo, c.17, nn. 7-16). Portanto, abramos os nossos corações para que, através de nossa oração, estudo da Palavra e testemunho de fé, possamos levar o amor do Pai Eterno a todos os lugares, mostrando que é possível viver a paz. Basta se colocar a serviço do Pai, enxergar Jesus no outro e respeitar as escolhas do outro, lembrando sempre de amar quando for preciso e perdoar quando necessário.

Que também, a exemplo da Virgem Mãe Santíssima, possamos acolher a Palavra de Deus em nossos corações, deixando que o Espírito Santo aja em nossas vidas, de acordo com os desígnios de Deus para cada um de nós. Tenhamos fé e, acima de tudo, esperança. O Pai Eterno nunca abandona os Seus filhos, principalmente quando eles decidem por seguir o Seu caminho e continuar a missão que o próprio Jesus nos deixou, de anunciar o Evangelho a todas as nações (cf. Mc 16,15).

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e Presidente-fundador da Afipe

O que vem a ser a fé?

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Muito se ouve dizer que o problema da humanidade moderna é a falta de fé. Alguns especialistas da área das ciências humanas, como o filósofo Sousa (2010), dizem que “o grande problema do homem moderno é a falta de sentido  da vida e o vazio de sua  interioridade”. Pergunto, então:  o que vem a ser a fé? Ela contribui ou atrapalha a vida do ser humano? Favorece ou limita sua capacidade para ser livre, criar, produzir e transformar?

Pretendo, muito rapidamente, sem ousar querer esgotar o assunto, discorrer sobre essa realidade tão vital para o ser humano. Duvidar, questionar, pesquisar e  refutar não é problema algum. É próprio de quem busca clareza de vida, do mundo que o rodeia, das pessoas com as quais convive e da existência de Deus. O problema é o fechar os olhos à possibilidade de conhecer minimamente aquilo que se é, donde tudo provém e para onde tudo se finaliza.

O Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa define a fé com uma “adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro. Um sentimento de quem acredita em determinadas ideias ou princípios religiosos”. E, alarga esta compreensão ainda que na forma de uma simples crença ao dizer que ela é um “estado ou atitude de quem acredita ou tem esperança em algo”. Na Carta aos Coríntios, Paulo afirma que neste mundo caminhamos movidos pela fé. E, ainda que ela nos aponte Deus, não somos capazes de vê-lo claramente em todos os seus mistérios (cf. 2 Cor 5, 7) de forma que a compreensão que temos d’Ele assemelha-se a um mirar num espelho. Ou seja, uma visão de maneira confusa e imperfeita (cf. 1 Cor, 13, 12).

A Carta aos Hebreus diz que a fé é um conhecimento de Deus, um ”firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêem. Pois, Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho” (Hb 1,1-2). A fé nos coloca em sintonia com o Pai Eterno obedecendo os desígnios e propósitos divinos que Ele tem traçado para cada um de nós. “Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento de Deus, e partiu para uma terra que viria a receber como herança: partiu, sem saber para onde ia (Hb 11, 8). Pela fé, viveu como estrangeiro e peregrino na terra prometida. Pela fé, Sara recebeu a graça de conceber o filho da promessa. (CIC 145)”. E, Maria deu a luz ao Salvador, Jesus Cristo.

Fé se aprende a ter. Nenhum de nós nasceu tendo fé. A fé não é uma herança genética. Ela é adquirida e construída ”pela interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais; e se constitui por força de sua ação e não por qualquer dotação prévia, na bagagem hereditária ou no meio, de tal modo que podemos afirmar que antes da ação não há psiquismo nem consciência e, muito menos, pensamento”. (Becker, 1993). Foram nossos pais ou avós quem nos introduziram, inicialmente, no universo da fé que professamos. Posterior a isso, contribuíram conosco leigos piedosos, catequistas, padres, religiosos e religiosas.

No mais profundo existir, a fé é dom. É gratuidade de Deus. Ao dizer que o Pai Eterno não esmaga uma cana quebrada nem apaga um pavio que ainda fumega (cf. Is 42,3), o Profeta Isaías aponta para a realidade de um Deus que é justo, plenamente bondoso, generoso, misericordioso. Um Deus que ama, que acredita e confia na pessoa humana e está sempre disposto a perdoá-la. Se ele perdoa é porque acredita, tem fé. Dá uma nova chance, uma oportunidade a mais a quem vacilou, errou, pecou, caiu. E, confere-nos o poder da fé: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: arranca-te e replanta-te no mar, e ela vos obedecerá” (Lc 17, 6). Ou, “direis a esta montanha: transporta-te, daqui para lá e ela se transportará,  e nada vos será impossível” (Mt 17, 20).

Ao contrário de impedir e limitar a fé conduz-nos à liberdade plena e total auxiliando na cicatrização e cura de muitas mazelas e fraquezas humanas que são inerentes à nossa condição frágil, limitada, pecadora. Sendo assim, a fé cristã transforma o mundo e nos aponta para Deus e nos ensina n’Ele confiar num ato de sabedoria. Além do mais, a fé nos leva a acreditar na Ressurreição e a aguardar o feliz dia do nosso retorno à vida eterna.

Concluo essa rápida reflexão dizendo que é preciso ter fé para crer até mesmo no absurdo. E, que o problema maior do mundo moderno é a arrogância humana diante de questões às quais ainda não somos capazes sequer de imaginá-las como elas verdadeiramente são. Ter fé é ser capaz de, mediante os limites e fraquezas humanas dar uma resposta inteligente aos desafios da vida e questionamentos de Deus para nós: “Filho do homem será que estes ossos podem voltar à vida?” (Ez 37,3).

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

 

Conflito religioso e o diálogo inter-religioso

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Nos últimos anos, tem-se acompanhado, em nível mundial, o desenrolar de diversos conflitos religiosos. Na Irlanda do Norte, a maioria católica deseja separar-se dos protestantes. O conflito entre palestinos e israelenses motivado, sobretudo, pela ocupação de terras pelo Estado de Israel em 1948. A guerra entre Índia e Paquistão pela posse da Cachemira com maioria da população mulçumana. O sangrento massacre na ex-Iugoslávia que ficou conhecido como a “limpeza étnica”: os sérvios identificados como ortodoxos e os croatas como católicos.

Em 2001, no dia 11 de setembro, o ataque às torres de Nova Iorque, que posteriormente levou à guerra no Afeganistão, e a identificação do islamismo com o terrorismo.  Em 2010, o triste conflito entre muçulmanos e cristãos na cidade de Jos, ao Norte da Nigéria, que chegou a 460 mortes.  Em 2012, os protestos contra os EUA devido a um filme que ironizava o profeta Maomé. E, em novembro de 2015, acompanhamos os ataques terroristas que deixaram 129 mortos em Paris, apenas dez meses após os atentados no semanário satírico Charlie Hebdo. E, recentemente, em Nice, no sul da França, um caminhão atropelou e vitimou diversas pessoas que estavam assistindo à queima de fogos em comemoração ao 14 de julho, dia da Bastilha. O autor dos atentos mantinha relações com o estado islâmico. A partir de tais acontecimentos precisamos nos perguntar pelo sentido e significado da tolerância religiosa.

É certo que o diálogo entre as religiões não é um fato somente sociológico. É também teológico, pois vem à baila a discussão e a compreensão sobre Deus.  O conceito para lidar com esses conflitos é denominado diálogo inter-religioso. Para a teóloga Catherine Cornille, “o diálogo inter-religioso envolve um intercâmbio aberto e construtivo entre indivíduos pertencentes a diferentes religiões”. Significa que nenhuma religião existe de modo isolado das outras religiões.

Sobre o tema do diálogo inter-religioso, a Declaração Nostra Aetate, da Igreja Católica, apresenta um importante ensinamento: “todos os povos, com efeito, constituem uma só comunidade. Têm uma origem comum, uma vez que Deus fez todo o gênero humano habitar a face da terra”. O Papa João Paulo II, na Encíclica Redemptoris Missio lembra que o “diálogo inter-religioso faz parte da missão evangelizadora da Igreja”. O Papa Bento XVI, em sua Mensagem para a Celebração da Jornada Mundial da Paz de 2011, em Assis, recordou a necessidade da tolerância religiosa, em vista dos constantes conflitos que envolveram a Igreja Siro-Católica, em Bagdá, onde, no dia 31 de outubro de 2010 foram assassinados dois sacerdotes e mais de cinquenta fiéis por grupos radicais islâmicos.

O Papa escreve que “a liberdade religiosa encontra expressão na especificidade da pessoa humana, que pode ordenar a própria vida pessoal e social a Deus”. Na Encíclica Caritas in Veritate, Bento XVI ressalta a importância do “direito à liberdade religiosa” como recurso necessário ao desenvolvimento do ser humano. A experiência de fé pode ser vivida pelo ser humano como forma de caminho em vista ao diálogo com as outras religiões, sem, porém, ferir a identidade da própria fé.

Aos católicos, o Decreto Nostra Aetate ensina ainda a reconhecer nas outras religiões seus valores religiosos, pois “a Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões” existe de verdade para eles. O diálogo inter-religioso, como lembra Catherine Cornille, “baseia-se também na premissa ou crença que pode haver mais verdades entre duas ou mais tradições do que em qualquer religião isoladamente”. O teólogo Claude Geffré acredita no diálogo inter-religioso pautado na igualdade entre os interlocutores. O evangelista Marcos sugere a olhar para Jesus e observar que Ele chama ao diálogo inter-religioso: “a minha casa será chamada de ‘Casa de Oração’ para todos os povos”.

Pe. Elismar Alves dos Santos, C.Ss.R.

Missionário Redentorista

 

A Imagem do Pai Eterno nos evangeliza e fala ao nosso coração

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Em Seu divino mistério, Deus vem ao nosso encontro, não por merecimentos, mas por pura gratuidade. Houve um modo pelo qual Ele quis Se revelar, há 176 anos, na cidade de Trindade-GO. Tudo começou em 1840, quando certo casal de lavradores encontrou um pequeno medalhão de barro. Nele estava a representação do Pai, pelo Filho, no Espírito, coroando Maria Santíssima. A primeira manifestação de fé dessa devoção surgiu no coração de uma família: sem muitas posses, mas rica em caridade; sem grandes economias, porém animada pela esperança. Eles receberam, acolheram e transmitiram o dom da fé. Entre Constantino Xavier, Ana Rosa e seus vizinhos: foi edificado o primeiro Santuário do Divino Pai Eterno!

No tempo presente, ao ouvirmos a palavra ‘devotos’, devemos escutar também o seu eco, que continua a ressoar em nosso coração e a dizer: “vivei como filhos”! Cada um que se aproxima da devoção ao Pai Eterno traz a consciência de que é primeiro filho; depois, cristão e, por último, devoto. A ênfase do ato devocional é sempre na Santíssima Trindade coroando Nossa Senhora. Teologicamente, a atenção se detém em Maria, representando a humanidade coroada no coração de Deus Uno e Trino. Porém, no desenvolvimento histórico, a figura do Pai Eterno foi a que alcançou maior destaque. Provavelmente, porque a linguagem paternal permaneceu como a mais próxima da realidade dos agricultores, onde foi encontrado o medalhão e onde a devoção se originou.

Além de uma imagem, o que se enxerga é a presença de um ícone sagrado. A palavra ícone vem do grego έικώυ e está a sinalizar que todo ícone é uma imagem, mas nem toda imagem é um ícone. Uma imagem pode ser catalogada dentro dos manuais de arte, apresentar-se como a livre representação do artista e ser admirada a partir de traços simplesmente estéticos. Já o ícone tem a única intenção de contemplar o mistério absoluto de Deus. Não é uma obra artística avulsa, mas um tratado de evangelização!

A fé, por meio da arte sacra e da arte religiosa, nos ensina que as representações são um caminho para se chegar a Deus. São meios, não fins. Remetemo-nos às imagens que nos endereçam ao Sagrado e prolongam o Seu mistério na existência humana, fazendo da vida uma obra de redenção Desde o primeiro milênio da era cristã, Deus era apresentado apenas por símbolos indiretos, como no caso de uma mão, de um olho ou de um braço. Somente a partir do século XII é que passou a ser difundida a representação de Deus-Pai sob a figura de um ancião barbudo (Cf. Daniel 7,9). Em algumas imagens Ele aparecia com os cabelos brancos, simbolizando a eternidade e em outras era colocado como calvo.

Hoje, quem vê a Imagem logo percebe que nela o Pai é representado como uma figura experiente. Têm barbas e cabelos brancos, também é um pouco calvo. Traja uma túnica branca com detalhes dourados. Simbolicamente, aquela calvície não é resultado da hereditariedade, mas uma forma poética de assegurar que Deus gastou a vida pelos seus filhos e o continua até as últimas consequências. Os cabelos brancos são o sinal de que podemos confiar Nele para nos esclarecer, direcionar e elucidar pelo amor.

O Pai também utiliza um manto vermelho. Na história, o vermelho era a cor oficial dos imperadores, denominada de púrpura imperial. A vestimenta avermelhada costumava ser associada ao poderio e à fortaleza bélica dos que se intitulam soberanos. No entanto, o poder do Pai é totalmente diferente daquele dos césares da história. Sua autoridade não é tirana, Sua força não é guerreira, Sua história não é sanguinária, Sua conquista não é territorial. Seu poder se traduz em serviço e doação totais.

Com uma aparência mais jovial aparece Jesus. Tal qual ao Pai, Ele também traja um manto vermelho e tem os pés descalços. O fato de estar sem sandálias já evoca a realidade do ‘Deus que veio ao mundo’ e se tornou carne em nossa carne. Não teve medo de pisar no chão da história nem de viver como um de nós, exceto no pecado. Em Jesus, Deus se tornou humano! Mesmo criando a humanidade, Ele não havia sido historicamente humano: sangue do nosso sangue.

Mais a frente, o Espírito Santo é representado como um pombo. Essa simbologia tem origem na passagem bíblica do dilúvio, quando Noé solta o pássaro, significando que as águas haviam passado e uma nova chance de vida tinha sido dada à humanidade. (Cf. Gênesis 8,6-12). Outra fundamentação está no texto do Batismo de Jesus, quando o Espírito Santo veio sobre Ele em forma de pombo. Tudo para expressar que um novo momento estava começando na vida do Messias (Cf. Lucas 3,21-22).

A vida protagonizada pelo Pai Eterno é obra do Espírito Santo e consequência direta do seguimento à pessoa de Jesus. A vida puramente humana torna-se, então, participação na vida eternamente divina. Que de ora em diante tenhamos o coração aberto para acolher o mistério Divino e os caminhos que Ele utiliza para Si revelar a cada um de nós!

 Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e presidente-fundador da Afipe

História da devoção e fé no Divino Pai Eterno

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Certamente você conhece essa história. Mas, vale apena revisitá-la. Por volta do ano de 1840, um piedoso casal de lavradores oriundos das Minas Gerais, Constantino Xavier e Ana Rosa de Oliveira, viviam em um pequeno povoado de nome Barro Preto localizado à margem direita do Córrego Barro Preto.

Certo dia, ao lavrar a terra  encontraram um medalhão de barro cozido com aproximadamente oito centímetros de diâmetro, cunhado em alto relevo a imagem da Santíssima Trindade coroando a Virgem Maria. Narram os fatos de que a beijaram respeitosamente, levaram-na para casa, um simples rancho de pau a pique coberto com palhas de buriti.

Aos finais de semana, o casal reunia os vizinhos dentro de casa, ao redor do medalhão para a reza do terço. Os primeiros sinais de graças começam a aparecer juntamente com numerosos milagres. Em um curto espaço de tempo, esses fatos tornam-se conhecido nas proximidades do pequeno, simples e humilde Povoado de Barro Preto.

Sensibilizado e tocado pelo Espírito Santo, diante da crescente devoção, em 1842, Constantino Xavier, tomou o medalhão que já estava sob seus cuidados, montou em seu cavalo e dirigiu-se para a cidade de Pirenópolis à procura do artista goiano Veiga Vale. O motivo? Para que o mesmo pudesse retocá-la. Todavia, porém, “o escultor resolveu esculpir em madeira a imagem que estava representada na medalha, para que ficasse mais visível”.

Quando a imagem ficou pronta, Constantino vai a Pirenópolis para buscá-la. Segundo anais da história, ao negociar o acerto do trabalho com o artista, o dinheiro de que dispunha para tal fim era insuficiente. Sem alternativa, vendeu seu próprio cavalo. Pagou o artista e voltou a pé para o povoado de Barro Preto trazendo nos braços a imagem do Pai Eterno. Ao aproximar-se do povoado, “o povo foi em massa para a entrada do arraial para acolher a nova imagem e saudar aquele devoto que manifestara tanto amor ao Pai Eterno”. Por esse motivo afirmamos que Constantino Xavier é o primeiro romeiro peregrino do Divino Pai Eterno.

A nova imagem, maior e mais visível é introduzida novamente na casa de Constantino Xavier e Ana Rosa. Em pouco tempo, o número de devotos aumentou de maneira que o lar dos piedosos lavradores do campo já não comportava todos os fiéis. Por volta do ano de 1843, “Constantino construiu uma pequena capela, coberta de folhas de buriti, onde colocou a imagem”. Ali, a imagem do Pai Eterno foi posta para veneração de seus devotos.

As romarias continuaram aumentando. Já não comportando mais o número de fiéis, em 1854 “o casal (juntamente com um senhor de nome Luiz de Sousa), doa um terreno às margens do Córrego Barro Preto para a construção de uma nova capela”, também coberta com folhas de buriti. Neste mesmo ano, Constantino Xavier veio a falecer.

Em 1876 iniciou-se a construção de outra capela ainda maior. Agora, em sistema de alvenaria, já coberta com telhas de barro cozido. Dois anos mais tarde, em 1878, acontece a inauguração da terceira capela dedicada ao Pai Eterno. Em 1894 chegam da Alemanha os primeiros missionários redentoristas que vieram para cuidar da romaria e atender a multidão de romeiros vindos de diversos lugares, sobretudo, do interior do Estado de Goiás. Em 1912, o Missionário Redentorista Pe. Antão Jorge, contando com o apoio da população de Trindade e região, e também com doações dos romeiros, inaugura o “Santuário Velho”, a Igreja Matriz de Trindade.

As romarias a Trindade para visitação da imagem, devoção e fé no Divino Pai Eterno continuavam a crescer vertiginosamente. “Em 1943, foi iniciado o novo Santuário, no alto da colina Cruz das Almas”, Bairro Santuário, região central da cidade. Nesse mesmo ano, o então Arcebispo de Goiânia, Dom Emanuel Gomes, juntamente com os Missionários Redentoristas de Goiás, fizeram o lançamento da pedra fundamental para a construção do “Santuário Novo”. Atualmente, o Santuário Basílica do Divino Pai Eterno. A partir de 1970, já se celebrava dentro do novo Santuário.

Com o trabalho de divulgação da devoção ao Pai Eterno, intensificada pelos meios de comunicação social, sobretudo na TV, tem atraído diariamente para Trindade, de modo especial ao Santuário Basílica do Divino Pai Eterno uma multidão de fiéis de todas as regiões do país. Por esse motivo, pensando em acolher melhor e com mais dignidade estes romeiros, no dia 02 de julho de 2011 foi feito o lançamento da pedra fundamental para a construção de um Novo Santuário com dimensões bem maiores que o atual.

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

Perdoar sempre

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O Ano Santo da Misericórdia é uma feliz oportunidade para cada um de nós fazer a experiência de pedir e dar o perdão. O perdão é necessário porque todos pecamos e sofremos as consequências dos nossos pecados: afastamento de Deus, desarmonia interior e separação dos irmãos e irmãs. O pecado é a negação do amor, deixar de fazer o bem quando, no exercício da liberdade, escolhemos o mal. A experiência do pecado causa tristeza e dor na alma, prejudica os outros e o seu preço é a morte.

O remédio para curar a ferida que o pecado deixa em nós é o perdão. Cada um de nós precisa ser humilde para reconhecer que errou, que pecou, e manifestar arrependimento pedindo perdão a Deus e às pessoas que prejudicamos com o nosso pecado. É preciso, também, ser generoso para dar o perdão. Aceitar generosamente e com abertura de coração o pedido de perdão que os outros nos faz.  Perdoar é divino e é humano porque é um gesto, uma atitude de amor. Quem ama perdoa sempre. O Pai Eterno sempre perdoa porque Ele é amor e Seu amor é eterno. É comum encontrar pessoas que têm grande dificuldade para perdoar, dizerem que só Deus é que perdoa. Enganam-se! O perdão é também humano porque cada um de nós foi criado à imagem e semelhança de Deus no amor. O amor que tudo desculpa e que perdoa sempre, é que nos humaniza e revela que somos de Deus. Portanto, para um filho ou uma filha do Pai Eterno não há a possibilidade de não amar e de não perdoar quem quer que seja. Jesus ensinou a rezar para pedir e dar o perdão: “Perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos aos nossos irmãos” (Lc 11,4; Mt 6,12). Na cruz, mesmo sofrendo as consequências do pecado de todos nós, Jesus pediu perdão por nós: “Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Vamos olhar para a Cruz e contemplar o tanto que o Pai Eterno nos ama. Jesus crucificado é a prova máxima do amor que perdoa e que salva. Quem experimenta o amor de Deus e recebe a graça de ser perdoado, torna-se uma pessoa capaz de amar e de perdoar aos seus irmãos e irmãs: Deus é bom pra mim! Eu serei bom para os outros! (cf Mt 18,23-35). Jesus nos exorta: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso; perdoai, e vos será perdoado” (Lc 6,36-37).

É urgente e necessário exercitar o coração e a mente para o amor e o bem. Cultivar a bondade, a generosidade e a humildade para vencer o orgulho, a vaidade e o desejo de ser grande. Dominar a vontade de possuir e de controlar tudo e todos. Assim é que podemos, vigilantes, evitar curtir os ressentimentos e as mágoas que ficam remoendo dentro de nós (cf. Tg 4,1-3.6-9; Rm 12,9-21).

O Papa Francisco ensina que “a credibilidade da Igreja – do cristão – passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. Sem o testemunho do perdão, resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se vivesse num deserto desolador. O perdão é uma força que ressuscita para a nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança” (Misericordiae Vultus, 10).

Vamos celebrar a misericórdia do Pai Eterno! Voltemos para Ele de todo o nosso coração e deixemos que Ele nos abrace com a graça do perdão. Recebamos do Pai misericordioso o beijo da paz e a veste da dignidade de filhos e filhas de Deus. Alegres e agradecidos celebremos a festa da comunhão no amor que nos une a todos. Enquanto temos tempo vamos pedir e dar o perdão. Reconciliar para viver e morrer em paz como quem não deve nada à bondade da vida, a não ser o amor aos irmãos e irmãs.

Pe. Fábio Bento da Costa, C.Ss.R.

Missionário Redentorista

O Pai Eterno é Misericordioso

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A misericórdia não nos pede qualidades, nem méritos. Em si, ela é pura gratuidade. Já por si é a maior de todas as virtudes. O coração da misericórdia pulsa por redenção. Nele, não cabem recompensas. Isso porque a ação do Pai Eterno nasce de uma grandeza constante, sem restrições, pronta a nos humanizar. Nisso consiste a Sua onipotência. Fiel à bondade que O move, Ele acolhe a todos na incondicional soberania de Seu amor. A ternura de Deus não vê as diferenças que excluem, mas enxerga prontamente o sofrimento que solicita a inclusão de cada um, em especial, dos mais pobres e abandonados. São eles os primeiros endereçados da misericórdia.

Durante a Festa do Divino Pai Eterno, a nossa missão é proclamar, com ações e depois com palavras, que o rosto de Deus é misericórdia. Ele faz a nossa mensagem passar da bela retórica aos gestos concretos. Onde a dor impera, não somos juízes da moral nem reguladores da doutrina, mas servos da ação misericordiosa do Pai, que cura os feridos da vida com o bálsamo da compaixão e o remédio salutar da esperança.

Todas as vezes que agimos com unidade no trabalho missionário, com respeito à dignidade do outro, com consideração àqueles que estão à nossa volta, com a disposição de servi-los: a Misericórdia se faz carne novamente! Longe de um agrado açucarado, a sua correta aplicação não diminui a importância dos sacramentos nem enfraquece a vivência da fé.

Neste tempo em que nos aproximamos de mais uma Romaria, muitos romeiros vêm a Trindade expressar sua fé e amor, através da oração, do louvor, da súplica e também do agradecimento ao Divino Pai Eterno. É momento de se reunir com muita emoção a milhares de irmãos que, durante os dez dias de Festa, chegam a todo momento à Casa do Pai. Essa é uma forma de proclamar e reavivar a fé vivenciada pelo povo e fundamentada no amor de Deus. É vivenciar a experiência de encontro com o Pai, tendo a certeza de que Ele nos ama e nos recebe de braços abertos, por misericórdia.

Tenhamos esta certeza: O Pai Eterno é misericordioso. Para que assim possamos seguir em frente com nossas vidas, contemplando o amor que Ele tem por cada um de nós. E muito mais que isso, façamos com que esse amor ultrapasse as barreiras e se prolifere por meio da ação do Espírito Santo em cada um de nós. E é esse mesmo Espírito é o que nos une como irmãos e nos permite enxergar no irmão a face de Jesus Cristo.

Quando olhamos para os nossos irmãos e vemos o rosto de Cristo, temos a capacidade de seguir os exemplos Dele, amando o próximo sem nenhuma distinção, ou divisão de classe, cor, gênero etc. É por meio desse olhar de santidade que podemos também enxergar que todos somos fracos, e mesmo assim, o Pai Eterno nos acolhe, nos ama e nos perdoa, porque é grande a Sua misericórdia para conosco. A partir do momento em que seguimos os Seus exemplos, somos capazes de ter compaixão pelo outro, amando-o, perdoando-o, sendo misericordioso, como o Pai é misericordioso (cf. Lc 6,36).

A nossa fé e devoção é simples, porém forte. E é neste período de Romaria que ela se fortalece ainda mais com a reunião do povo de Deus, do romeiro, do peregrino, daquele que crê, confia e se entrega ao Pai Eterno. A fé é um dom, uma certeza que não estamos sozinhos neste mundo, pois é nela que nos reconhecemos como filhos amados do Pai Eterno. Pela fé nos convertemos e realizamos muitas obras de amor. É ela que promove todo o bem e nos faz alcançar a misericórdia divina. Pela fé, Deus age em nossas vidas, nos faz sentir o Seu amor e a Sua misericórdia, nos converte e nos traz muitas bênçãos.

Durante esse período festivo, que nos proporciona momentos de oração, reflexão e aproximação com Deus, a nossa fé é fortalecida para que nossa caminhada seja contínua. Temos, então, a oportunidade de falar com o Pai Eterno e aprender com Ele, nos tornando mais sábios e fortes, pois encontramos o caminho para a solução de angústias e conflitos. Em meio às grandes dificuldades, pela oração, a pessoa é sustentada pelo amor misericordioso de Deus. À medida que nos deixamos conduzir por essa experiência da fé, os problemas deixam de ser o fundamento de nossa vida, pois um só é o fundamento: o Divino Pai Eterno.

Então, na entrega confiante da vida ao Senhor, alcançamos a paz que o mundo não pode oferecer. Ele nos concede conforto sempre que entregamos a nossa vida à Sua Providência Divina. Esta paz e a certeza da Sua misericórdia divina é uma dádiva que Ele oferece para nós que cremos, amamos e buscamos viver com fé.

Assim, acreditamos em um Deus que nos cria no amor, espera na fé e salva na misericórdia. Nossa missão é sermos homens e mulheres de esperança, pessoas prontas para proclamar ao mundo a nossa fé. Busquemos a experiência, a paz e a misericórdia do Pai, para que nosso testemunho seja fruto daquilo que vivenciamos. Estejamos preparados para os desafios que a espiritualidade cristã nos provoca.

É fazendo a experiência da misericórdia que compreendemos o valor das verdades que fundamentam a vida cristã. Nessa direção, o Santuário Basílica existe para que os filhos do Pai Eterno se sintam nele acolhidos, reconciliados e fortificados para viver de acordo com o Evangelho da misericórdia. Permitamos, então, que o Pai nos fite nos olhos e nos conduza ao encontro com os redimidos. Eles têm muito a nos ensinar. Abençoada festa a todos!

 

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e presidente-fundador da Associação Filhos de Pai Eterno (Afipe)

Misericórdia sempre? Ou, só de vez em quando?

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A temática da Misericórdia proposta pelo Papa Francisco no ano passado está em alta na Igreja. Sistematicamente, o tema da Misericórdia está sendo aplicado aos documentos da Igreja, simpósios, congressos, retiros, estudos, encontros teológicos, citações em artigos de revistas e artigos monográficos, temas de cantos litúrgicos e religiosos… Bem como, inspirando temas de festas religiosas pelo Brasil e mundo a fora.

Isso é muito bom, naturalmente. O Papa Francisco afirma “que sempre é tempo de misericórdia”. O ser humano sempre se mostrou muito hábil na arte de reinventar a vida. Basta surgir uma situação nova de vida e ele está pronto para o desafio. Sua capacidade criativa o faz audaz, destemido, ousado. Alçar voos, desbravar terras, ir à conquista de novos horizontes e desafiar seus próprios limites são apenas algumas virtudes humanas. É assim que sempre caminhou a humanidade.

Vivemos numa época de difíceis e profundas transformações sociais. Tempos de expectativas, de muitas interrogações e poucas respostas. Ao passo que isso aproxima o ser humano de Deus, pode também afastá-lo para longe do Criador. Tudo depende do modo como cada um se vê perante a vida. De acordo com o Cardeal Walter Kasper, “o afastamento de Deus leva o homem a afastar-se da natureza e dos seus semelhantes”. Deste modo, a pessoa humana pode tornar-se insensível e fechada à graça e à misericórdia do Pai Eterno em sua vida. Principalmente, quando dela mais precisa.

Frei Luiz Turra diz “que muitos homens e mulheres sofrem por viverem à superfície de si mesmos e da História”. Segundo Francisco, a humanidade de nosso tempo precisa tanto de misericórdia “porque é uma humanidade ferida, uma humanidade que possui feridas profundas que não sabe como curá-las ou acredita que não é possível curá-las”. Sofrimentos diários e dores constantes podem levar o ser humano a perder a esperança diante da vida. Consequentemente, esquecer a ternura de Deus. O que para a humanidade seria um caos total.

Sabemos que nenhuma forma de amor humano pode fazer uma pessoa plenamente realizada e feliz. A felicidade é uma conquista que tem origem no esforço diário, cotidiano. Ela é superação. É conquista feita com braço forte. Ela não acontece por acaso, de forma sistemática. Ou, como num passe de mágica ou num instante de magia. Portanto, ela não acontece por acaso na vida de uma pessoa. Nesse sentido, uma vida ativa dentro da comunidade Igreja favorece a confiança em Deus na superação dos limites e fracassos humanos, bem como, a perceber que Deus aproxima de nós justamente quando dele mais precisamos.

Segundo a bula Misericordiae Vultus, n°. 12b, “é determinante para a Igreja e para a credibilidade de seu anuncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia. A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo. E, deste amor que vai até o perdão e o dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto aos homens”.

Falar de misericórdia em tempos atuais é mérito do papa Francisco? Ou, uma ação do Espírito Santo inspirada a partir das experiências pastorais de um homem de Deus acostumado com as durezas da vida nas ruas de Buenos Aires como uma “primavera na Igreja?” Assim diz Francisco: ““Na realidade, Deus mostra-se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade”.

A misericórdia de Deus para nós é semelhante à água contida permanentemente num imenso lençol freático. Ela está sempre lá, circulando de um lugar para outro do subsolo aguardando que algum peregrino sedento, dela precisando matar a sede, escave o solo até encontrá-la gratuitamente pura, límpida, inodora, insípda e incolor. Para Kasper, ela é “a vontade salvífica e universal de Deus que por sua misericórdia nos elegeu e chamou à vida e em virtude do qual Jesus Cristo se entregou por nós na Cruz”.

Então, que falemos muito da misericórdia de Deus. Que ela não se canse de ser anunciada, praticada e vivida em todos os cantos e lugares onde possa haver um coração humano que dela precise. E aprendamos, pois, que não basta apenas falar de misericórdia. É preciso fazer e ser, a exemplo de Cristo, o rosto da misericórdia do Pai Eterno!

Pe. Edinisio Pereira

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

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