Mês: novembro 2007

Igreja “Plena”!

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No dia 29 de junho, por ocasião da Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, foi assinado no Vaticano, pelo papa Bento XVI, um documento que chama a atenção dos fiéis para que entendam a Igreja Católica como aquela que possui inteiramente a qualidade de promover, para o cristão, o caminho da salvação.

O título do documento é extenso justamente para oferecer um detalhamento sobre o que ele entende propor: “Respostas a quesitos relativos a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja”. O documento retoma alguns textos do Concilio Vaticano II, sendo curto e de fácil compreensão. Ratifica e esclarece ainda mais a missão da Igreja de oferecer aos fiéis os fundamentos mais concretos e favoráveis para viverem plenamente o cristianismo, desafio de todos nós que cremos. De outro lado, este texto poderá não ser muito bem aceito por aqueles que não comungam do pensamento da Igreja Católica e mesmo aqueles que poderão não compreender muito bem o teor daquilo que se apresenta no texto, fazendo abordagens e conclusões tendenciosas.

A Igreja tem o múnus e missão de ensinar seus fiéis e mostrar a todos o caminho seguro da fé e do aprofundamento da mesma através da prática cotidiana das virtudes evangélicas. Neste sentido, busca orientar os cristãos católicos para uma vida coerente com sua fé e aos não-católicos procura convidar e, algumas vezes, admoestar para que comecem um caminho que propicie estarem mais próximos daquilo que o Cristo ensinou.

De modo algum a Igreja pretende dizer que fora dela não há salvação. Num fragmento do texto temos a seguinte afirmação tirada do próprio Concílio Vaticano II: “… as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso ou sejam vazias de significado no mistério da salvação, já que o Espírito se não recusa a servir-se delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja católica” (Decr. Unitatis redintegratio).

A polêmica acontece porque existe uma certa “malícia” carregada de tendências anticatólicas e até mesmo proselitistas, em fazer entender que a Igreja acena aquilo que não acenou. Não existe erro ou exclusivismo em afirmar que ela possui os “elementos completos” do legado deixado por Cristo desde o início do cristianismo. A sucessão apostólica continua até os dias de hoje na Igreja Católica. O Papa é Pedro hoje! Sua missão continua a mesma e a Igreja foi experimentada ao longo dos séculos mantendo sua unidade, apesar das diversidades de tempos, pensamentos e culturas. Não creio, portanto, que haja brecha para críticas ou idéias de autoritarismo, exclusivismo ou fechamento como li por aí.

Os elementos essenciais para a salvação do homem se condensam numa única e dinâmica palavra: amar. Quem ama promove o bem, não deseja o mal do outro e possui o olhar amoroso e misericordioso do Pai sobre si mesmo. A Igreja entende muito bem que sua força e missão de promover uma compreensão adequada do verbo amar está arraigada em sua doutrina e pregação. Portanto, ela se vê completa nesta missão não impedindo nenhum diálogo sério e inteligente com outras formas de crer e viver o amor.

Ninguém é e nem pode se considerar igual a todos. Todos temos riquezas em vários níveis e sentidos. A unidade na diversidade da fé em Cristo ou no desejo de viver e promover plenamente o amor e a vida aqui na terra pode gerar para todos a salvação que vem de Deus.

Vivemos num mundo fragmentado por opiniões as mais diversas e formas de conduta complexas. Não é possível ficarmos com meias palavras. Podemos acabar ficando reféns ou escravos do relativismo e da insegurança. O tema do aborto, por exemplo, está em discussão no Congresso e poderá ser votado em breve. Para defender e aprovar este assunto encontra-se argumentos de todos os tipos. Um assunto como este merece nosso grito de indignação não somente como cristãos, mas como seres humanos que somos. A Igreja está empenhada profeticamente neste sentido em dizer que não se deve caminhar por esta estrada tenebrosa.

Realidades como esta e outras saltam aos nossos olhos nos tempos atuais e se tornam uma montanha de ensinamentos ditos “cristãos”, mas sem fundamento bíblico ou teológico que lhes sustentem. Dão-se “tiros” para todos os lados! Muitos resolvem pensar que são “bispos” ou “apóstolos” e criam denominações do nada. Outros pensam que Jesus foi desta ou daquela forma e saem por aí falando como se tivessem autoridade para tal. Uma verdadeira Babel! Não é brincadeira falar de Deus! Em meio a esta realidade é que a Igreja se apresenta, como um caminho seguro para viver o bem e eternizá-lo para a vida.

Percebe-se que no mais íntimo do ensinamento da maioria das outras igrejas cristãs o amor é o foco mais forte apresentado. A Igreja respeita e reconhece isso quando percebe a seriedade deste ou daquele seguimento. No referido texto da Congregação para a Doutrina da Fé ressalta-se sua autoridade em falar sobre o Caminho da Vida e da Salvação do ser humano.

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica do Divino Pai Eterno e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Quanto vale uma pessoa?

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Vivemos num mundo de consumo e mercadorias. Os bens de produção são manufaturados exageradamente, a saúde passa a ser negociada, a educação deixa de ser dever do Estado, a moradia é fantasiada pela opressão, e, por conseguinte, o trabalho passa a ter valor desonesto e resultado injusto. A situação fica ainda mais agressiva à medida que a própria pessoa torna-se produto cotado, lucrado e vendido pelo sistema neoliberal. Uns podem custar R$ 5 por dia; outros, R$ 380 por mês. Eis que se estabelece diante de nós a massa desumana daqueles que valem aquilo que o trabalho produz. São os chamados “filhos da pobreza”: fruto de miséria imerecida ocasionada pela desigualdade social.

Hoje o Brasil tem crescimento de 2,3% no Produto Interno Bruto (PIB), o que elevou para 130 mil o número de milionários que detêm o poder financeiro da nação. Segundo pesquisa da Fecomércio de São Paulo, feita a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a despesa total de algumas famílias do País é igual ou superior à despesa de toda a Região Norte, incluindo o Estado de Alagoas. São mais de 91 milhões mensais gastos com jóias, brinquedos e jogos, enquanto número espantoso de analfabetos e de subalimentados em termos quantitativos e qualitativos é privado do mínimo de dignidade humana e responsabilidade moral.

O clamor dos pobres precisa romper os tímpanos dos poderosos. Todos têm direito ao desenvolvimento econômico e político. Ninguém pode ser excluído do justo progresso social. Os emudecidos pela miséria não podem continuar sendo vítimas do sistema, uma vez que possuem a missão de agir como protagonistas da história. Sem ideologias, temos que combater todas as formas de realidades que desumanizam o valor incomensurável dos filhos de Deus! Esta importância Divina é totalmente distinta das cifras e lucros selvagens que violam a vida dos sofredores e lesam sua existência.

No coração dos excluídos há o sonho de ser liberto da pobreza, de possuir emprego que o valorize como pessoa e não como mercadoria, de trabalhar em condições dignas e de desenvolver-se social e intelectualmente. Não podemos falar só de desenvolvimento econômico, mas, sobretudo, de desenvolvimento integral, capaz de abranger todas as dimensões do humano, a saber: alma, corpo, mente e espírito. No entanto, são muitas as situações que coisificam a pessoa, fazendo com que ela se torne alienada e comerciável. O trabalho infantil e o comércio de prostitutas para o estrangeiro, ao lado do desemprego cruel e da exploração dos idosos, revelam a situação escandalosa em que a pessoa humana deixa de ser o princípio, o centro e o fim das instituições sociais (Cf. Const. Gaudim et Spes, nº. 25).

Para tal, não faltam os fatalistas pós-modernos que almejam justificar por meio de estatísticas e até mesmo biblicamente a diferença gritante entre ricos e pobres. A riqueza passa a ser interpretada como fruto da bênção prosperante de Deus. Assim sendo, não ter o que comer, onde morar ou o que vestir é sinal da maldição divina. Mas o que fizeram tantos pobres para merecerem tamanha maldição? Que tipo de pecado realizaram as criancinhas para serem torturadas e massacradas pela fome? Que expiação é essa, meu Deus, capaz de tirar o valor da pessoa humana, a ponto de transformá-la em um tipo de empecilho ao desenvolvimento dos ricos?

Na mesma direção aparecem outros que têm discursos superficiais, colocam o problema da pobreza no êxodo rural e na rápida urbanização das cidades em metrópoles. É problema da densidade demográfica. Mas a solução para que o valor do homem e da mulher seja resgatado não está no controle da natalidade e nem no aborto. Não se trata de matar vidas para salvar outras, mas de assumir histórias para promover pessoas. É opção existencial que se apresenta diante de nós: ou assumimos a comunidade fundamentada no valorativo da pessoa e no amor incondicional, ou escolhamos a sociedade maravilhada pelo êxito e pelo lucro à custa da morte dos pobres. Estamos entre a lei do amor e a da selva! Não sejamos como os Pilatos ou os Césares da história, prontos para lavar as mãos dizendo não ter nada a ver com isso. Solucionar a pobreza é missão que passa pelo Estado e se estende a todos nós!

Por isso, precisamos assumir a postura de testemunhas proféticas do Evangelho. Não podemos nos omitir frente à globalização transnacional, marcada pela injustiça no trabalho, em nível salarial e de direito. Não é lícito continuar assistindo “as pequenas empresas e os grandes negócios” em que até mesmo os funcionários são escolhidos graças às suas características físicas e não pelo monitoramento positivo na liderança ou por capacidade diretivo-intelectual. Aos patrões, chefes e empresários, cabe readquirir o valor dos seus trabalhadores na distribuição de salário que lhes conceda condições dignas de vida, para que ela se torne verdadeiramente humana! Que as situações cruéis de miséria, a opulência do sistema, o esplendor da riqueza em nossa consciência não nos façam réus perpétuos quando estivermos no tribunal da misericórdia, sendo valorizados pelo mais pobre dos pobres: Jesus de Nazaré!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Segurança é tudo na vida

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Segurança é tudo na vida! Parece óbvio falarmos assim. Mas é o óbvio mais complexo que desafia o ser humano em quase todos os seus limites do cotidiano. Ser e estar seguro enquanto pessoa faz depender uma série de possibilidades e sucessos na vida. Na verdade, nossa natureza tende normalmente ao outro lado: a insegurança. Todo ser humano carrega consigo grande carga de insegurança. Aqueles que fazem uso da palavra em público, mesmo o que aparenta saber muito bem do que fala e se porta com toda autoconfiança, é inseguro. Inseguro nos resultados de seu discurso e na conseqüência de sua decisão ou atitude. Quem manda e quem obedece, quem chefia e quem é subordinado, em tudo o que somos e fazemos acabamos por experimentar níveis maiores ou menores de insegurança. Não existe exceção a esta regra.

Por que somos assim? Por que a segurança depende do outro, do diferente; depende da reação. Foge definitivamente ao nosso controle. Ela não pode ser conquistada de forma definitiva, mas paulatina, temporária e situacional. Vamos nos tornando seguros. Vamos vencendo desafios, conquistando espaços, rompendo nossos limites. É uma luta constante que promove ou depõe uma pessoa.

Falando assim, poderia gerar uma impressão nostálgica da vida e da condição humana. Mas é isso mesmo! Na verdade, é preciso lutar constantemente contra a insegurança, através do autoconhecimento. Quem se conhece em seus valores, capacidades, possibilidades e desejos tem todas as armas que precisa para ser mais seguro. É uma atitude de dentro para fora, em primeiro lugar. Mesmo que dependamos das reações alheias e dos resultados exteriores para nos confirmar, é importante buscar a serenidade de estar pensando o melhor e inclinado para o bem de nós mesmos, do outro e da comunidade humana.

Existem pessoas, poucas, diga-se de passagem, que conseguem superar as barreiras da insegurança, passando adiante e se tornando verdadeiras promotoras de paradigmas. São homens e mulheres que sentem um impulso interior diferente de todas as opiniões dos outros. Conseguem ver mais longe, pensar adiante, enxergar melhor os resultados de suas atitudes e conduta de vida, mesmo que no momento todos reprovem. Enquanto os outros estão temerosos em atravessar um rio desconhecido e perigoso, esta pessoa aceita enfrentar o desafio de ir primeiro. Quando consegue, grita bem alto aos outros que ficaram: “Podem vir, não há perigo, é seguro!” Num primeiro momento, são vistas como loucas! Logo depois, seguem a sua trilha.

Na história, vemos uma boa quantidade de promotores de paradigmas: santos, profetas, cientistas, chefes de Estado, líderes, escritores, poetas, empresários, enfim, pessoas que mostraram novos modelos, novos rumos para que outros pudessem seguir. Enfrentaram seus próprios medos, superaram suas inseguranças, foram guiadas por uma força maior que potencializou suas vidas, deu-lhes asas e as fez enxergar além do horizonte. Venceram o limite do consenso das pessoas. Foram capazes de sair da mesmice. Tiveram coragem. Foram adiante.

Pessoas assim fizeram a diferença na história de seu tempo e continuam a existir nos dias de hoje. Muitas delas só serão reconhecidas realmente depois que forem ceifadas deste mundo. Estão por aí, entre nós ou aparecendo como verdadeiros monumentos de um novo jeito de ser, viver e atuar. Por não seguirem os padrões estabelecidos, são tantas vezes malvistas pelos seus “pares” e pelos “analistas críticos de plantão”. Quando atravessam o rio, convidando os outros a virem pelo mesmo caminho, escutam normalmente frases do tipo: “Eu já iria fazer isto” ou mesmo: “Quando eu quis atravessar a correnteza, estava muito mais alta” ou até mesmo: “O que ele fez qualquer um faria.” É o grande hino dos covardes!

O promotor de paradigma é uma pessoa motivada a ser alguém diferente e a fazer algo diferente. Sua motivação também é confirmada. Existem aqueles que o incentivam, que acreditam nas suas atitudes e no desenrolar de suas atitudes, que o reforçam para que continuem atravessando o rio perigoso e desconhecido que ninguém até então ousou tentar. Muitos foram e são motivados pela fé ou por pessoas de fé. Enfim, existe sempre um outro ou o Outro Absoluto que o impulsiona a arriscar e vencer suas inseguranças e tomar a grande decisão de começar algo diferente, inusitado.

Todos nós somos desafiados a vencer nossas inseguranças pessoais. Precisamos começar a fazer isso de dentro para fora, numa atitude de busca constante. Esta é a diferença que traz sentido para a vida. Confie mais em suas capacidades. Rodeie-se de pessoas que edificam a sua vida e lhe motivam a crescer e pensar oportunidades. Faça o mesmo, confirmando as boas idéias e os ideais nobres dos outros. Elogie à franquia! Critique para o bem real do outro, ajudando-o a crescer. Exercite-se no acolhimento e reconhecimento sincero daquilo que o outro tem de melhor. Confie na força de sua fé e dê saltos de qualidade, alçando vôos nunca antes imaginados e enxergando mais adiante. E… em tudo tenha Deus como meta maior a se chegar.

Pe. Robson de Oliveira Pereira
Missionário Redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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UMA CULTURA DE MORTE CONTRA OS PEQUENINOS DE DEUS!

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A vida é dom do céu e participação efetiva no existir do próprio Deus! Viver é vocação suprema e absoluta da natureza do Pai Eterno em nós! Dele viemos, Nele somos, nos movemos e existimos (At 17,28). E para Ele haveremos de voltar. A verdade cristã da vida está tanto em sua origem divina quanto em seu fim último: o Coração de Deus. Portanto, ao falarmos da vida humana estamos, ao mesmo tempo, falando da vida de Deus! Cada grito pela existência se apresenta como o clamor da criatura pelo seu Criador. É assim que a vida torna-se a manifestação sagrada do amor do Pai por nós. Por outro lado, o assassinato de crianças inocentes é a manifestação mais clara e cruenta de que uma cultura de morte está se estabelecendo dia após dia em nossa sociedade. Vivemos em uma realidade que aborta o maior dom que Deus nos deu: a vida!

Muitos são aqueles que conspiram contra a vida e acabam se esquecendo de que a promoção, a defesa, a veneração e o amor pelo dom da existência é um serviço confiado a todos nós. Independente de nascida ou não, a vida da criança já é digna em si mesma, uma vez que foi plasmada no existir de Deus e do homem. Na vida em gestação está o encontro do divino com o humano e do humano com o divino. Não se trata de um trocadilho de palavras, mas, sobretudo, de uma fusão de amor entre o dom do céu e o dom da terra, entre a eternidade e o tempo. Justamente por isso, que a vida, germinada no coração de Deus, não pode ser assassinada pelos tiranos da história. Ficamos boquiabertos quando o aborto passa a ser defendido pelas pessoas que por ora tem a obrigação de salvar vidas, tal como se observa em alguns ex-profissionais da saúde ou, então, naqueles que compõem a Comissão Tripartite, criada pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Estamos diante de uma questão existencial em que legalizar o aborto é o mesmo que legalizar a morte.

As leis que autetificam o aborto são contra o bem comum e carecem de validade jurídica, pois esta última tem a função de defender a vida. Legalizar o aborto é deixar de acreditar na lei civil. É um crime que lei alguma pode legitimar como prática lícita e natural, pois a vida é o fundamento da sociedade e matá-la é ir contra a ordem social. A morte dos inocentes não pode ser sancionada pela lei.

O aborto provocado é um crime abominável aos olhos de Deus, autor e consumador da vida. Aceitar o aborto nas consciências, nas culturas ou nas leis é sinal de uma crise moral e social. O aborto é um homicídio, pois se trata de interromper a vida de alguém que pede uma chance para nascer e continuar a viver! Muitas são as técnicas utilizadas para o aborto, que vão desde a curetagem até o esquartejamento. Contudo, está se tornando algo tão natural que muitos fetos já estão sendo comercializados para empresas de sabonetes e cosméticos devido à gordura natural, muito utilizada para a confecção de tais produtos. Vejamos bem se não estamos construindo uma sociedade em que até mesmo a vida virou mercadoria e passou a ser comercializada pelos lobistas industriais.

Em um contexto de crise, em que o dom da existência passa a ser algo relativo, aparece a Igreja, Mãe e Mestra da vida. A Tradição e o Magistério católicos ao longo do tempo sempre condenaram a prática do aborto. No nosso tempo, essa realidade ficou mais evidente em dois documentos: Humanae Vitae (da vida humana) de Paulo VI e Evangelium Vitae (Evangelho da Vida) de João Paulo II. Ambos condenam a prática do aborto como “crime abominável” e afirmam que a vida é sagrada por natureza, uma vez que se apresenta como ação criadora de Deus. Por sua origem divina a vida deve ser valorizada desde a concepção até a morte natural.

Diante deste contexto não podemos ficar inertes ou insensíveis. Somos chamados a assumir nossa missão de servidores da vida e lutar pela dignidade de cada criança que anseia por uma existência mais humanizada em contraposição ao desumano aborto. O sentido genuíno da vida precisa ser resgatado e não penhorado por interesses escusos e sanguinários! Acima da legalização do aborto está a legalização da vida, já tutelada por Deus desde o momento que passamos a existir. E é o Deus da vida e o sangue dos inocentes que clamam por nós! Defender o dom da existência não é missão somente dos cristãos, mas envolve a todos os homens e mulheres de boa vontade. Não é uma questão de credo, mas uma profissão de fé no valor da vida como manifestação primária e absoluta do amor de Deus.

Que sejamos testemunhas da esperança nestes tempos em que a vida perde sua característica de sacralidade. Que neste domingo dedicando a família, possamos manter os olhos fixos no Cristo, para que a vida tenha um norte e a esperança tenha um sentido. No coração de Deus, santuário da vida, busquemos forças para ouvir os inocentes que continuam a bradar: Deixem-me nascer! Dêem-me uma chance para existir!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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Um Deus com rosto de Pai!

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“Deus diz ao homem: – Olhe, eu fui o primeiro a amar você. Você não estava no mundo. O mundo não existia, e eu já o amava. Eu amo você desde que sou Deus. Amo você, e desde que amei a mim mesmo, amei também você” (Santo Afonso).

Deus é Pai! Esta é a grande verdade de fé trazida pelo Cristianismo e destinada a mim e a você! Muitas vezes e dos mais variados modos a vida, a natureza, as pessoas nos convidam a contemplar o rosto do Pai Eterno, para sermos neste mundo a face do Amor. Há todos os instantes somos amados, compreendidos, bem quistos, cuidados e guardados pelo Pai do céu, não obstante as dificuldades que permeiam o nosso cotidiano.

Mas o que vem à nossa memória quando chamamos Deus de Pai? Será que Ele é igual ao pai terreno? Será que fica próximo de nós quando o invocamos? Então onde estava Deus no campo de concentração de Auschwitz na Alemanha? Onde se encontrava o Deus Todo-Poderoso, quando a bomba-atômica destruiu as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki? Estaria ele passeando pelo Jardim no dia onze de setembro, no momento em que as torres gêmeas do World Trade Center foram atacadas por aviões, em comando de terroristas? Por onde estaria Deus no dia 17 de julho quando o avião da TAM derrapou nas pistas do aeroporto de Congonhas matando 199 pessoas? No céu? No vôo 3054 ou no sofrimento de cada vítima? Diante de tamanhas atrocidades, carnificinas, fome, miséria e acidentes sem proporções, vêm à tona as questões: De fato, Deus é Pai? Podemos ainda contar com o seu auxílio?

Somente ao adentramos na realidade da fé é que descobrimos o rosto amoroso do Pai Eterno. Sua presença nos envolve e nos acalenta. Do Pai viemos, Nele somos e existimos e para Ele haveremos de voltar. Nossa vida só tem sentido à medida que nos entregamos a Deus como “Aquele que nos ama”. No entanto, fomos criados dentro de uma cultura segundo a qual a imagem paterna passou por processos de declive. Por outro lado, também crescemos imaginando um Deus que tinha a obrigação de intervir em todos os momentos necessários. Às vezes a imagem criada parecia muito mais com um super-herói de Hollywood, do que o Deus que Jesus nos apresentou por meio de sua prática (vida) e prédica (palavras).

No Novo Testamento Jesus se relaciona e, por conseguinte anuncia um Deus totalmente diferente daquilo que já havia sido proclamado, chamando-O de Pai! (Cf. Mc 14,36). Dia após dia, por meio de atitudes e palavras, Jesus revela na Sua pessoa a face do Amor de Deus. Trata-se, de uma gratuidade amorosa, capaz de amar quem não merece, mas é digno de ser amado. Um Amor que se faz força no sofrimento e presença defronte as perguntas dolorosas da existência.

Muitos ainda não compreenderam quão grande é o amor do Pai Eterno. Basta olhar na atualidade e reconhecer nela o perene vazio existencial. Sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que no mais íntimo do coração humano existe um vazio, uma lacuna que nada nem ninguém pode preencher, exceto o Deus Pai e Amor! Justamente por isso, aumenta, de forma acelerada, o número de pessoas que sofrem de depressão, de doenças físicas e psíquicas, de problemas familiares e pessoais por que se encontram vazias de Deus e, obviamente, vazias de si.

Neste dia dos pais, somos convidados a acolher o presente que Deus nos confiou desde a eternidade! Deixemos de escutar um pouco as vozes do mercado, para ouvirmos, em primeiro lugar, a voz do Pai que continua a ressoar em nossos corações: “Eu amo você!” É um tratado de amor entre a terra e o céu! Um Amor que atua na sutileza da história e não em fatos mirabolantes. Deus continua agindo e curando a ferida do mundo. A minha e a sua também! Olhemos para os olhos do Pai e contemplemos Nele o fundamento da nossa vida. Permitamos que a existência se torne a expressão mais bela e fecunda do Amor de Deus por nós. Abramos o nosso coração para que o Pai firme morada em nosso ser. Não tenhamos medo de abrir as portas a Ele. Deus não nos tira nada, não nos obriga a fazer coisa alguma, pelo contrário, nos concede tudo àquilo que ora necessitamos: paz, alegria, fortaleza, bondade, paciência, humildade. O restante é acréscimo. No coração de Deus os problemas e as dificuldades do cotidiano se convertem em atos de fé, caridade e esperança, passando a fazer parte de uma única e mesma vida, ou seja, a nossa história na história do Pai Eterno e a história do Pai Eterno em nossa história!

Vale ainda ressaltar que tanto consciente quanto inconscientemente somos capazes de evitar o amor do Pai. Neste sentido, é possível dizer que a nossa maior escravidão não é e nunca foi o pecado. Nossa grande prisão está em negar o amor de Deus ao fugir de Alguém que faz tudo pela nossa felicidade. Distantes do rosto do Pai a vida perde valor e a existência perde sentido. Longe de Deus nada vale, nada serve. Não somos nada distantes do Pai! Portanto, voltemos à casa do Amor onde somos amados e tratados como! Um santo e feliz dia do Pai!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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