Dia: 9 de Março de 2008

Inferno: Castigo Divino?

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Conhecido por Sheol na cultura hebraica e por Hades na mitologia grega, o inferno tem sido tema de profundos questionamentos e contundentes distorções ao longo da história. Em alguns casos, por detrás da doutrina do inferno estão escondidas as maldades humanas projetadas em Deus, sendo resultado de: “agressões não trabalhadas ou não vencidas, supremacia do superego, fantasias sobre vingança e desejos de onipotência, tudo isso se deixa legitimar, recorrendo a interpretações fundamentalistas de textos bíblicos. Reações psicóticas de pânico e desejos de aniquilação se apresentam como causas macrocósmicas” (Herbert Vorgrimler).

Antes de condenar, Deus deseja salvar. Sua atuação é em vista da salvação e não da condenação eterna. Em vez de gerar a perdição, a atitude divina gera a sadia liberdade. Anterior à punição está o resgate da pessoa humana. Antes de ser juiz, Deus é Pai! Meus irmãos, estejamos convencidos de que a Mão que cria e salva, não pode ser a mesma que aniquila e castiga! E é o Evangelho que nos orienta em não conceber esta atitude divina como relapsa ou laxista: “Não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12,47). Mas então o que é o inferno? É um lugar ou um estado da alma? Vejamos, portanto, quais são as atuais considerações da Igreja em seu magistério e da teologia em sua racionalidade crítica sobre este “enigma” da caminhada rumo ao coração de Deus.

A partir da concepção grega do mundo e, por conseguinte, da Divina Comédia: poema narrativo de Dante Alighieri, a Idade Média formulou a visão tradicional do inferno. Em primeiro lugar, há o diabo e os seres inferiores, chamados demônios. Todos têm aparência grotesca e corpo avermelhado. Sabemos que na literatura a cor vermelha simboliza a traição. O diabo também possui tridente: um cetro de três dentes simbolizando o domínio que exerce. Há ainda outros símbolos como: enxofre, choro, caldeirão, mar de fogo, entre outros. Vale ainda ressaltar que quanto mais símbolos têm uma determinada realidade, menos conhecimento possuímos dela. O símbolo é ausência de conhecimento.

Partindo da fé bíblica podemos crer da seguinte forma:

1. O inferno é a total desolação da pessoa humana após a morte (clínica e real) e se consuma como a ausência de toda a graça e não-salvação;

2. Muitas vezes e das mais variadas formas, o inferno foi utilizado e, continua sendo, por algumas denominações “ditas cristãs”, somente para submeter e amedrontar;

3. Deus não quer e não envia ninguém para o inferno. Na verdade, este é o resultado da amargura eterna de não viver ao Seu lado. A maior dor da criatura é estar longe do Pai-Criador;

4. O inferno é conseqüência direta da “limitação ou maldade da própria liberdade: é porque nós escolhemos” (Queiruga);

5. Deus nos sonhou dentro de um projeto belo e de vida e não monstruoso e de morte, como se apresenta no inferno;

6. No inferno temos a associação da morte como uma experiência de encontro com as nossas misérias e a nossa limitação humana. O Pai Eterno, rico em bondade, faz a sua proposta de amor à pessoa, convidando à mudança de vida: “a aceitação dessa proposta exigirá conversão total de tudo aquilo que dentro da pessoa ainda é oposto ao amor de Deus. Teoricamente, é possível que alguém, até na morte, se negue a mudar” (Renold Blank). A negação de tamanho amor é uma escolha da pessoa e não uma opção de Deus. Justamente por isso, aquele que nega está se afastando totalmente do Amor e assumindo uma morte eterna e consciente – isso é o que se pode denominar “inferno”. Existe inferno pior que este? Acredito que não;

7. O inferno é a negação a Deus. É não aceitar Seu projeto! Nega-se em vida e agora se nega na morte ao amor de Alguém que faz tudo pela felicidade humana;

Por fim, vale ainda ressaltar que a maior esperança do Cristianismo é o próprio Cristo! Ele é a razão da nossa esperança tanto na vida quanto na morte!“Baseados nessa esperança, somos capazes não só de superar as nossas angústias, frente a uma possível situação de inferno: seremos capazes, também, de começar a superar toda e qualquer situação de inferno, aqui na terra. E a gente se pergunta se haverá pessoas no inferno. Não sabemos. É possível. Esperamos que não” (Renold Blank).

Por fim, não brinquemos com o inferno e nem fiquemos inculcando-o na vida das pessoas! Deus precisa de filhos e não de escravos! Ele é Pai e não um tirano do além! Quantas consciências já foram deformadas ao terem medo de Deus em vez de servi-lo por amor!? Estejamos atentos para não nos transformarmos em profetas de catástrofes na vida de um povo que vive na calamidade do cotidiano e no desastre da pobreza. Cuidado para não oprimirmos em vez de libertar! Aprendamos com Wittgenstein: “Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. O mesmo vale para os pregadores da possessão no neo-pentecostalismo: Daquilo que vocês não sabem, é melhor se calarem para não destruírem histórias e não criarem doenças psicológicas!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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