LIVRA-NOS DA VITIMIZAÇÃO!

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Das mais variadas formas, sempre nos encontramos com pessoas que parecem ser ‘vítimas do destino’. A história sofrida, com os infindáveis problemas, é sua marca registrada. Uma patente existencial de dor e profundo desamparo. Trata-se de uma pessoa que pede ‘perdão por existir’. Ninguém a compreende, a aceita e a ama como o merecido. Nos relacionamentos e no ambiente de trabalho é possível visualizar várias investidas desse tipo de personalidade naufrágica. Seus comportamentos necrosam qualquer novidade benéfica na convivência diária.

  

As vítimas são imbuídas por um sentimento de culpa acentuado, capaz de fazê-las reclamar, constantemente, e queixar-se da vida, que é enfocada como uma “grande fatalidade’. São inúmeras as lamentações contra si e em depreciação aos outros. Aquele que almeja uma existência madura e integrada deve manter-se longe do chamado ‘espírito de vítima’.  

 

Uma das manifestações patológicas da vitimização é culpar os demais por um erro de sua própria autoria. O objetivo maior é deslocar o mal praticado e vinculá-lo a outrem. Assim, a pessoa se infantiliza por não assumir falhas e não tomar consciência dos erros cometidos.

 

Neste jogo, para encontrar o culpado, nasce à busca pelo proveito pessoal. O intuito maior é tirar vantagem, a partir da situação de sofrimento criado e de impotência latente. “Incompreendido, fracassado e mal-amado. É assim que se define o portador da ‘síndrome de vítima’, esse ser que faz da própria biografia uma novela mexicana e vive em busca de culpados que assinem os seus capítulos” (Marcella Brum). Na identidade da vítima está o desejo maquiavélico em transferir dificuldades e sobrepujá-las sobre aos demais. O outro é o seu bode expiatório!

 

Junto ao sentimento de vítima também é possível encontrar o mania de perseguição. Aqui a vida é concebida dentro de um sistema selvagem, num cenário de trogloditas, em que vence aquele que causar maior clemência.  Neste esquema, aparece a necessidade psicológica de colocar-se como acuado frente um grande vilão. Há a constituição de chantagens emocionais, de pressões para a comoção, de apelo à piedade, de remorso existencial e de lágrimas em busca de atenção. Trata-se de um drama épico, cujo personagem principal sempre será a vítima, que faz dos outros meros coadjuvantes.

 

Ademais, a vítima cria outra forma para enfocar a existência dos fatos. O mundo passa a ser visto com seus indulgentes binóculos lacrimais. Ela “[…] se sente inferior à realidade. É a pessoa que se sente esmagada pelo mundo externo […], é aquela que se acostuma a ver a realidade apenas em seus aspectos negativos” (Antônio Roberto Soares). Tal negatividade é capaz de prejudicar todos aqueles que estão em torno à vítima.

 

O espírito de vitimização é uma ferramenta utilizada pelas pessoas que não aceitam o lado obscuro da vida. Não saber conviver com o conflito e não aceitar os problemas do cotidiano é uma forma de estagnar-se no processo de amadurecimento humano. Dessa forma, fica fácil gerir determinados deslizes, pois o erro será justificado, com frequência. A incompetência jamais será admitida pela vítima. 

 

A fé é o melhor remédio para curar-se dessa síndrome. Por meio dela, nos tornamos capazes de assumir as rédeas de nossa história e não culpabilizar os outros por nossos próprios erros. A fé nos ensina a superar as dificuldades do dia-a-dia e a recomeçar do zero, se necessário for. Crer também é sinônimo de superação! 

 

Portanto, educados na escola da fé, reconhecemos que uma existência adulta deve ser regida pelas seguintes características: paciência, controle emocional, diálogo contínuo, fraternidade duradoura e esperança recíproca. Tal conjunto confere à pessoa aquele distintivo da graça, da sabedoria e da estatura em Deus, assim como aconteceu com Jesus de Nazaré (Cf. Lc 2,52).

 

Por fim, vale ainda mencionar que a vitimização provoca incontáveis sofrimentos, devido à incapacidade de anular o negativo, para focalizar o lado positivo da vida. Omitir a fronteira do mal, que existe em nós, é o caminho mais infantil que podemos trilhar. Infelizmente, a vítima acaba se esquecendo que é ‘vítima’ de si mesmo. 

 

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
www.paieterno.com.br

 

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