“EU OUVI O CLAMOR DO MEU POVO” (EX 3,7)

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Nos últimos meses, tive um contato, muito próximo, com o povo do Nordeste. A visita da Imagem Peregrina do Pai Eterno me fez ir ao encontro de pessoas que se identificam com a fé, perante a um Deus com rosto de Pai.  A fome constante, a seca histórica, o sofrimento intenso não são as únicas marcas trazidas pelo nordestino. Aquele que quiser compreender esta região, tão excluída no Brasil, precisa adentrar a escola do sertanejo, para encontrar ali o coração de sua fé e as razões de sua esperança!

O primeiro critério é reconhecer que o Nordeste pertence ao Brasil, dentro de uma área de 1.561.177,8 km2, correspondendo a 18,26% do território total do país e em hipótese alguma deve ser deixado à exclusão social ou à deriva do preconceito cultural. Na mentalidade de algumas pessoas, paira a ideia de um Nordeste submisso e como tal deve ser regido por aqueles que, do alto de seus palácios: dominam, escravizam, distorcem, favorecem a partir de uma noção falseada de desenvolvimento. Infelizmente, estes se esquecem de que a história é a testemunha ocular de um Nordeste considerado como o berço das revoluções.

O Brasil é um país marcado pela pluralidade de seu povo e pela diversidade de seus valores. Pelo o menos em nível teórico, as discriminações regionais, étnicas, religiosas e raciais, dificilmente, tiveram espaço no país. Eis o resultado de uma mistura de raças que deu certo! “A miscigenação representa um dos fatores históricos que ajudaram a construir o padrão das relações sociais no Brasil” (Sueli Carneiro).

Contudo, nos últimos dias, determinados comentários, pelo Twitter, só tendem a demonstrar que esta ‘coexistência com o diferente’ vem sendo ferida de forma brutal. Vejamos o que fundamenta as seguintes afirmações: “Vou confessar que quero tacar uma bomba no Nordeste e matar essa pobretada, que é chamada de gente”; “Ofereço 5 mil reais a cada um que matar um nordestino. Temos que chegar daqui a quatro anos sem eles no Brasil”; “É. Tinha que ser nordestino mesmo. Se separa do Brasil: bando de ignorantes, tem que morrer na miséria mesmo”; “Nordestino não é gente, faça um favor […], mate um nordestino afogado”. 

Opiniões como as acima enumeradas, revelam a triste realidade do xenofobismo, presente no Brasil. Além de uma exclusão herdada, há ainda aquela concepção pecaminosa de um Nordeste menos desenvolvido: sucateado pela miséria e submetido ao legado da pobreza. Muito se fala da xenofobia na Europa e na África. No entanto, ela se mostrou muito presente no Brasil, de um modo intolerante e permeado de ameaças. É importante ressaltar que não falamos da xenofobia enquanto doença psicológica, vinculada ao medo excessivo, mas, sobretudo, daquela associada ao preconceito desvelado.

Precisamos nos esforçar para uma nova composição que signifique o Brasil de todos: resultante daquela unidade integrada e sem discriminações ou desmerecimentos. É fundante reconhecer que “o Nordeste é o espelho onde o Brasil recusa ver a própria face” (Sérgio Telles). Mesmo “sendo abandonados por tantos anos, pelo próprio país […]” os nordestinos conseguiram compor “[…] beleza e poesia de mãos calejadas e de peles ressecadas de sol a sol (José Barbosa Júnior).

O preconceito é o registro que impede o desenvolvimento de um povo em todos os seus aspectos. Na ‘sociedade dos iguais’ não há justificativa para a discriminação, não há espaço para o preconceito, não há convenção com a injúria difamatória e muito menos apoio para atitudes xenófobas. O estereótipo colocado sobre o Nordeste é uma forma de limitá-lo e preconcebê-lo em julgamentos repetitivos, de caráter pejorativo. Aqui está um pecado que fere a dignidade dos filhos de Deus.

Ademais, se faz necessário corrigir um erro histórico, no qual o Nordeste foi envolvido pelo rótulo da pobreza e taxado pelo carimbo inferioridade. Olhemos para a literatura e veremos nomes como o do alagoano: Graciliano Ramos e do paraibano: Ariano Suassuna. Olhemos para a cultura e nos deparemos com o cearense: Patativa do Assaré ou com o maranhense: Gonçalves Dias. Olhemos para o teatro e enxerguemos o talento de atores à altura do pernambucano: Marco Nanini ou do cearense: Chico Anysio. Olhemos para a música e lá estará o pernambucano: Lenine e os Ramalhos paraibanos: Elba, nascida em Conceição do Vale do Pincó e Zé, nascido em Brejo da Cruz. Todos, reconhecidamente, “nordestinos”. Por eles e por tantos outros, famosos ou não, é inadmissível excluir aquele que tem na vida as raízes do sertão.

 O Evangelho nos apresenta um Deus que não impõe condições para amar. O Pai Eterno age assim. Não obstante a miopia social nos é confiada àquela missão de orientar a sociedade, quando esta perde de vista a sua razão de ser, na coletividade para todos. No coração do Pai encontramos o melhor caminho para superar preconceitos, até mesmo em nível de sotaque. Somos filhos de uma mesma pátria e conquistadores de uma mesma história.

 Por fim, é importante retificar um pensamento recorrente ao nordestino como mão de obra braçal ou força de trabalho operante. Não é o trabalho que dignifica o nordestino, mas sim, o nordestino que dignifica o trabalho. Na verdade, o trabalho só é digno porque tem alguém que o exerce: seja ele nordestino, sulista, “sudestino”, nortista ou “centro-estino”. Que na data comemorativa da Proclamação da República não nos esqueçamos de que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte” (Euclides da Cunha).

 

 

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
www.paieterno.com.br

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