Dia: 23 de Fevereiro de 2011

SENTENÇA DE MORTE EM GOIÁS

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O humano é transcendente por natureza! Isso quer dizer que ele existe para além de si. Enraizada no Pai Eterno está a sua dignidade. Ela é única e não se repete. Na verdade, nunca se dignifica o que já é digno desde sempre. Assim acontece com todos os homens e mulheres. Na medida em que há o sopro da vida, simultaneamente, já passou a existir a dignidade humana.

As pessoas possuem dignidade, já as coisas, valor! A partir desde dado kantiano e, mais ainda, partindo da Revelação Cristã, é possível perceber que a dignidade, concedida ao humano, não foi confiada a nenhum outro ser. Tudo o que foi criado deve ser respeitado como obra da Criação. Contudo, somente um é a imagem e semelhança de Deus. Não se trata de colocar a pessoa como centro das demais criaturas, para o qual tudo converge. Pelo contrário, trata-se de reconhecer a dignidade Divina, impregnada na condição humana, de modo que não há mais duas dignidades, mas uma só: a nossa e a de Deus!

A Igreja tem a missão de promover a dignidade humana como exercício primeiro da fé que Ela mesma anuncia. Cabe a nós cristãos valorizar o que é digno, na pessoa, e denunciar tudo o que a desumaniza. À luz do Evangelho, a Igreja proclama que a verdade do indivíduo está em sua dignidade. Muito mais a frente de características externas, de cor de cabelo e altura, de sistema genético ou psicológico; a dignidade é uma ‘condição existencial’, concedida ao humano pelo Pai Eterno.

Por isto, é de se entristecer quando vemos a vida, filha direta da dignidade, sendo tratada como objeto descartável. Infelizmente ainda há uma ideia, não confessada por muitos setores sociais, de que o pobre, dentre outras minorias, deve ser exterminado quando: indesejado, problemático e recorrente. É como se a solução do conflito fosse a morte. Aqui e acolá se ouvem vozes a dizer: “Deu problema? Mate!” “É irrecuperável? Elimine!” “Não tem conserto? Descarte!”. Assim proliferam-se situações onde a pessoa humana torna-se coisa, sendo usada de acordo com interesses pessoais. Neste sentido, é ainda mais alarmante quando pessoas são assassinadas pelo simples fato de serem o que são: inocentes e vítimas!

Jesus, nosso referencial de fé e religião, atuou contra o pecado, pessoal e social; evangelizou as profundezas ocultas do humano, condenou a doença da culpa e o peso da lei dos fariseus, combateu a marginalização injusta e foi capaz de ouvir o grito da pobreza, partindo do critério da dignidade. “Não são as pessoas sadias que precisam de médico, mas as doentes. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores” (Mc 2,17). A atividade de Jesus “é serviço à vida, já que Ele se apresenta como alternativa de ‘vida’ diante da situação de ‘morte’” (Marciano Vidal).

Situações como as ocorridas recentemente em Goiás acabam por esvaziar a vida de sua própria dignidade e significado. Cito como exemplo concreto a ‘Operação Sexto Mandamento’, formada por agentes federais, na busca e apreensão de policiais militares, suspeitos de integrar um grupo de extermínio.

Entre as vítimas estariam crianças indefesas, adolescentes não delinquentes e mulheres em horário de trabalho. O dado assustador é que nenhum deles possuía qualquer tipo de envolvimento com os crimes dos quais são acusados. Haveria, então, uma espécie de simulação para que tais delitos fossem vistos como cometidos pelas vítimas.

De acordo com as investigações, até mesmo viaturas da corporação foram utilizadas, clandestinamente, pela suposta organização criminosa. A Operação Sexto Mandamento contou com a participação de 131 agentes federais e mais 12 policiais militares do Estado de Goiás.  Os presos irão responder pelos crimes qualificados de formação de quadrilha, tráfico de influência, falso testemunho, tortura e até mesmo ocultação de cadáver, somando de 40 a 50 assassinatos!

E pensar que o grupo agia com tamanha segurança na impunidade que chegava a estampar em viaturas a seguinte frase, no português errado: “Papai faz, mamãe cria e nóis mata”. É de ficar pasmo quando se constata que, mesmo denunciados pela Justiça, muitos desses policiais foram promovidos por “mérito” às mais altas patentes da Polícia Militar. Com todo respeito aos militares honestos e seus respectivos superiores afirmo que tal sistema de promoção necessita de uma séria reforma.

Onde fica o sofrimento das mães e das famílias das mulheres assassinadas? Onde encontrar forças para identificar possíveis corpos que não foram ocultados? Como selecionar melhor os futuros militares para que não denigram a imagem de uma instituição social tão importante como é o caso da Polícia Militar? De que modo as famílias encontrarão forças para recomeçar a vida, sabendo que seus parentes foram assassinados de forma tão cruel e desumana? Até onde a morte de inocentes será cometida por aqueles que se sentem no direito de romper com a primazia da dignidade humana? Expressões como: silenciados, torturados e injustiçados ainda são insuficiente para expressar o sofrimento dessas vítimas!

Que Goiás, terra do Pai Eterno, não se torne um gueto para o desenvolvimento de milícias, como aconteceu no Rio de Janeiro. Estas eram formadas por policiais, vigilantes, agentes penitenciários, bombeiros e militares. Nossos agradecimentos à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, ao Ministério Público do Estado de Goiás, ao Poder Judiciário de Goiás, à Secretaria de Segurança Pública de Goiás, aos Agentes Federais, aos Comandos da Polícia Militar e da Polícia Civil e também a todos os militares honestos que arriscam suas vidas, servindo a sociedade e fazendo jus à missão que lhes foi confiada pelo Estado! Minhas mais sinceras condolências e orações às famílias das vítimas!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Twitter: @padrerobson

Site: www.paieterno.com.br

A CONSCIÊNCIA: ENTRE O PODER E A AUTORIDADE

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Enganam-se aqueles que imaginam o ‘poder’ e a ‘autoridade’ caminhando de mãos dadas. Nem todos os que possuem poder têm autoridade, da mesma forma, que nem toda ‘autoridade’ é exercida com ‘poder’. Por isto, se faz necessário definir bem as duas terminologias. A palavra ‘poder’ é proveniente do latim potere e está associada à figura mandatária, que age pela força e pela tirania, mediante decretos. Já ‘autoridade’ vem do latim autoritas e se vincula a quem atua com legitimidade, sendo capaz de influenciar pessoas por convicções, não por normas ou regras. A lei sempre será necessária, desde que tenha como critério a dignidade humana.

O poder tem como base a ameaça pela força. É tomado, não doado. Nele há uma relação entre domínio e dominado. Sua proveniência é externa. O DNA do poder é encontrado no furto da liberdade ao criar consciências submissas. Ditado, torna-se ilegítimo, pois monopoliza uma só vontade em detrimento às demais. Quando mal utilizado se transforma em opressão. Contrariando a lógica do poderio está a autoridade como característica interna e subjetiva. Trata-se de um dom e de uma qualidade de caráter. A autoridade está em profunda consonância com o espírito de serviço. Só é possível lavar os pés daqueles que nos feriram, perdoar suas ofensas, reconciliar-se com o passado quando se tem consciência de si e da autoridade que possui.

Falar de autoridade é contradizer o vínculo com qualquer sistema autoritário.  No poder há vassalos, na autoridade há companheiros.  Quem trata os outros com o poder tem mãos de ferro. Ao oposto, quem influencia, com autoridade, é capaz de servir livre e gratuitamente. O emprego do poder é limitado e permanece durante o tempo em que é concedido. A autoridade não tem limites, pois independe de cargos e funções. É uma condição do ser.

Jesus não possuía poder político e muito menos financeiro. Muitas vezes, sua missão foi patrocinada por mulheres (Cf. Lc 8,1-3) Não era um ditador de cláusulas, um déspota de preceitos nem um tirano de vontades. O Filho amado do Pai Eterno tinha um só objetivo: fazer acontecer o Reino de Deus! Viveu como pobre por condição e opção. Nazaré, sua pátria, era pequenina e insignificante. Jesus conheceu a perseguição do Império Romano, a incompreensão de um Sinédrio, a dureza de corações. Também experimentou a miséria e a dor mais profunda do humano. Foi traído por seguidores, humilhado por desconhecidos. Sua sentença final era o tratamento de subversor da ordem estabelecida.

Jesus não era um revolucionário político, mas sua mensagem foi capaz de revolucionar a consciência de pessoas, a ponto de entregarem suas vidas pela causa do Reino.  Nele está o maior exemplo de autoridade e a mais ampla denúncia ao poder desmedido. Seu Evangelho não apresenta nenhum modelo político, mas tem muito a ensinar no que se refere à autoridade exercida pelo critério do serviço: “Se alguém quer ser o primeiro, deverá ser o último, e ser aquele que serve a todos” (Mc 9,35).

Hoje, o cenário mundial vive um período de crise, principalmente na queda de ditaduras autocráticas. Elas se configuram na contramão das dignidades humana, moral e ética. Seu objetivo é submeter qualquer característica de liberdade de expressão ou opinião. O ditador concentra em sua pessoa todo o poder, acabando por se impor como governo. Não há espaço para a participação popular, somente para a força. Infelizmente, a política ainda é usada para ferir princípios constitucionais, inclusive na democracia.

Nas ditaduras a única lei é a vontade do dominador. A queda dos ditadores do Egito, Hosni Mubarak e da Tunísia, Zine Al Abidine Ben Ali são exemplos clássicos de que as pessoas não aceitam mais a imposição e o emudecimento da consciência. As palavras de comando agora são outras: corresponsabilidade na fé, coparticipação na esperança e coerência na caridade.

Mais que uma crise política, o desfecho histórico da ditadura tunisiana e egípcia significa um despertar da consciência coletiva, pela liberdade responsável, sem opressão. A transferência do governo para os militares é apenas o primeiro passo no intuito de que a democracia seja estabelecida, sem autoritarismo ou extremismo. No advento da era digital, a transição pacífica deve ser mantida com eleições diretas e livres. Que as antigas ditaduras não sejam substituídas por outras novas.

A crise sempre será oportunidade para o crescimento. Portanto, cabe às religiões, dentre elas católica e islâmica, o auxílio na razão de pensar e agir dos seus seguidores, para que nasça uma nova estrutura de comunidade, humanizada nas relações plurais, na convivência com o diferente e no diálogo verdadeiro. Pela fé é possível construir uma sociedade de paz, cujo maior interesse é a felicidade do outro.

Que o advento da era digital seja capaz de unir corações na defesa dos interesses coletivos, a partir do respeito às demais confissões de fé e às prioridades da nação. Que a mensagem de Jesus continue a atingir todas as pessoas, transformando-as em operárias do Evangelho, na construção da civilização do amor. Peço ao Pai Eterno que os cristãos da Tunísia e do Egito continuem a dar o testemunho merecido de sua fé. Que suas vidas permaneçam pautadas por atitudes sérias e não por palavras vãs. A realidade atual clama pelo nosso testemunho! No interior da consciência evangelizada está a voz do Pai nos esclarecendo do que realmente somos: filhos! Ajamos, assim, com autoridade e não com poder.

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.

Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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