SENTENÇA DE MORTE EM GOIÁS

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O humano é transcendente por natureza! Isso quer dizer que ele existe para além de si. Enraizada no Pai Eterno está a sua dignidade. Ela é única e não se repete. Na verdade, nunca se dignifica o que já é digno desde sempre. Assim acontece com todos os homens e mulheres. Na medida em que há o sopro da vida, simultaneamente, já passou a existir a dignidade humana.

As pessoas possuem dignidade, já as coisas, valor! A partir desde dado kantiano e, mais ainda, partindo da Revelação Cristã, é possível perceber que a dignidade, concedida ao humano, não foi confiada a nenhum outro ser. Tudo o que foi criado deve ser respeitado como obra da Criação. Contudo, somente um é a imagem e semelhança de Deus. Não se trata de colocar a pessoa como centro das demais criaturas, para o qual tudo converge. Pelo contrário, trata-se de reconhecer a dignidade Divina, impregnada na condição humana, de modo que não há mais duas dignidades, mas uma só: a nossa e a de Deus!

A Igreja tem a missão de promover a dignidade humana como exercício primeiro da fé que Ela mesma anuncia. Cabe a nós cristãos valorizar o que é digno, na pessoa, e denunciar tudo o que a desumaniza. À luz do Evangelho, a Igreja proclama que a verdade do indivíduo está em sua dignidade. Muito mais a frente de características externas, de cor de cabelo e altura, de sistema genético ou psicológico; a dignidade é uma ‘condição existencial’, concedida ao humano pelo Pai Eterno.

Por isto, é de se entristecer quando vemos a vida, filha direta da dignidade, sendo tratada como objeto descartável. Infelizmente ainda há uma ideia, não confessada por muitos setores sociais, de que o pobre, dentre outras minorias, deve ser exterminado quando: indesejado, problemático e recorrente. É como se a solução do conflito fosse a morte. Aqui e acolá se ouvem vozes a dizer: “Deu problema? Mate!” “É irrecuperável? Elimine!” “Não tem conserto? Descarte!”. Assim proliferam-se situações onde a pessoa humana torna-se coisa, sendo usada de acordo com interesses pessoais. Neste sentido, é ainda mais alarmante quando pessoas são assassinadas pelo simples fato de serem o que são: inocentes e vítimas!

Jesus, nosso referencial de fé e religião, atuou contra o pecado, pessoal e social; evangelizou as profundezas ocultas do humano, condenou a doença da culpa e o peso da lei dos fariseus, combateu a marginalização injusta e foi capaz de ouvir o grito da pobreza, partindo do critério da dignidade. “Não são as pessoas sadias que precisam de médico, mas as doentes. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores” (Mc 2,17). A atividade de Jesus “é serviço à vida, já que Ele se apresenta como alternativa de ‘vida’ diante da situação de ‘morte’” (Marciano Vidal).

Situações como as ocorridas recentemente em Goiás acabam por esvaziar a vida de sua própria dignidade e significado. Cito como exemplo concreto a ‘Operação Sexto Mandamento’, formada por agentes federais, na busca e apreensão de policiais militares, suspeitos de integrar um grupo de extermínio.

Entre as vítimas estariam crianças indefesas, adolescentes não delinquentes e mulheres em horário de trabalho. O dado assustador é que nenhum deles possuía qualquer tipo de envolvimento com os crimes dos quais são acusados. Haveria, então, uma espécie de simulação para que tais delitos fossem vistos como cometidos pelas vítimas.

De acordo com as investigações, até mesmo viaturas da corporação foram utilizadas, clandestinamente, pela suposta organização criminosa. A Operação Sexto Mandamento contou com a participação de 131 agentes federais e mais 12 policiais militares do Estado de Goiás.  Os presos irão responder pelos crimes qualificados de formação de quadrilha, tráfico de influência, falso testemunho, tortura e até mesmo ocultação de cadáver, somando de 40 a 50 assassinatos!

E pensar que o grupo agia com tamanha segurança na impunidade que chegava a estampar em viaturas a seguinte frase, no português errado: “Papai faz, mamãe cria e nóis mata”. É de ficar pasmo quando se constata que, mesmo denunciados pela Justiça, muitos desses policiais foram promovidos por “mérito” às mais altas patentes da Polícia Militar. Com todo respeito aos militares honestos e seus respectivos superiores afirmo que tal sistema de promoção necessita de uma séria reforma.

Onde fica o sofrimento das mães e das famílias das mulheres assassinadas? Onde encontrar forças para identificar possíveis corpos que não foram ocultados? Como selecionar melhor os futuros militares para que não denigram a imagem de uma instituição social tão importante como é o caso da Polícia Militar? De que modo as famílias encontrarão forças para recomeçar a vida, sabendo que seus parentes foram assassinados de forma tão cruel e desumana? Até onde a morte de inocentes será cometida por aqueles que se sentem no direito de romper com a primazia da dignidade humana? Expressões como: silenciados, torturados e injustiçados ainda são insuficiente para expressar o sofrimento dessas vítimas!

Que Goiás, terra do Pai Eterno, não se torne um gueto para o desenvolvimento de milícias, como aconteceu no Rio de Janeiro. Estas eram formadas por policiais, vigilantes, agentes penitenciários, bombeiros e militares. Nossos agradecimentos à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, ao Ministério Público do Estado de Goiás, ao Poder Judiciário de Goiás, à Secretaria de Segurança Pública de Goiás, aos Agentes Federais, aos Comandos da Polícia Militar e da Polícia Civil e também a todos os militares honestos que arriscam suas vidas, servindo a sociedade e fazendo jus à missão que lhes foi confiada pelo Estado! Minhas mais sinceras condolências e orações às famílias das vítimas!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Twitter: @padrerobson

Site: www.paieterno.com.br

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