Dia: 13 de agosto de 2011

HOLOCAUSTO SILENCIOSO!

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Muitas vezes a vida é enfocada somente na ótica do prazer e das vantagens. Por que falar de sofrimento se a vida é pura felicidade? Por que refletir sobre a dor se o mais importante é a saúde e as inovações da ciência biológica e cosmética? Vale a pena discursar sobre as decepções, as tristezas e as intempéries do cotidiano se elas causam tanto medo, revolta e aflição? Não seria melhor falar de comodidade ou vida fácil e rejeitar toda a cogitação que tentasse responder ao grande mal-estar do humano? São perguntas cruciais mantidas à distância dos que temem o significado maior da vida e censuradas por aqueles que não compreendem o sentido da existência.

A vida é dom, pois emana diretamente do coração do Pai Eterno. Deste dom, brota também o direito natural. Por meio dele sabemos que por ora nascemos e por ora também morreremos. É um ciclo vital. Em uma cultura que busca incessantemente a “fonte de sua juventude” falar de tribulação, pesar ou contrariedade é ferir os tímpanos daqueles que se deleitam e usufruem da vida como algo puramente vantajoso. Às vezes é fácil esquecer que a vida é feita de contrários.

Seguindo a lei natural, sabemos que a morte se impõe como o limite da existência terrena.  Contudo, na mentalidade pragmática a morte é uma infração à vida. É um escândalo e um atentado existencial pelo fato de interromper a jornada de outrem sem o seu respectivo consentimento. Isso acontece todas as vezes que o ser humano perde de vista a sua relação com Deus “e pensa que é critério e norma de si mesmo e julga que tem inclusive o direito de pedir à sociedade que lhe garanta possibilidades e modos de decidir a própria vida com plena e total autonomia” (João Paulo II, Evangelium Vitae, nº. 64).

Sejamos coerentes e reconheçamos que liberdade não é fazer tudo o que queremos e autonomia não é a emancipação do sujeito acima da sacralidade da vida. Pelo contrário, aqueles que se mantêm ferrenhos num discurso libertário, acabam defendendo que a eliminação da dor é o meio mais rápido de não convivermos com o limite da vida e com a finitude da existência. Construir uma sociedade alienada a morte é alicerçar uma civilização que se apodera da vida a seu bel-prazer.

Neste sentido, podemos falar da eutanásia como um crime desumano, pois gera a cultura da morte contra os idosos e os fisicamente debilitados. Infelizmente, ele continua a acontecer às escondidas. Trata-se de um caminho em que a morte é querida e procurada por aqueles que não sabem conviver com a fronteira da vida. Etimologicamente a palavra tem origem na fusão de duas expressões gregas: eu que significa “boa” e tanathos que é igual à “morte”. A eutanásia seria, então, uma falsa noção de “boa morte”.

De acordo com alguns estudos há três motivos para solicitar a eutanásia. O primeiro deles seria a dor física e neurológica do paciente em fase terminal. O segundo é o viés do sofrimento causado à pessoa. Este último impossibilita o paciente de encontrar outro tratamento paliativo, levando-o a assumir a morte como alívio final. O terceiro surge na medida em que a pessoa toma consciência de sua dita “inutilidade” e não possui mais a vontade de viver. Colocar fim à vida é o meio infantil de silenciar a dor.

Para tais justificativas valem algumas ponderações: do ponto de vista moral, ao refletir sobre a eutanásia é difícil dissociá-la do suicídio, quando a morte é desejada pela pessoa e, ao mesmo tempo, do homicídio, quando é almejada por um ente da família. Do ponto de vista jurídico a eutanásia se apresenta como um tipo moderno de suicídio assistido, pois fere a inviolabilidade da vida. Justamente por isso a legalização da eutanásia carece de validade jurídica, uma vez que a lei deve estar a favor do humano e não contra ele. Do ponto de vista científico, a eutanásia se coloca como a interrupção no processo de evolução da pesquisa e na suspensão da apropriação do conhecimento proveniente de suas técnicas.  Matar um doente é o mesmo que paralisar o esforço científico da cura. O discurso intitulado de “pacientes em fase terminal” não seria o advento de uma medicina paliativa e de um tratamento descartável, quando não gera rentabilidade financeira para o cientista?

Ademais, mesmo consciente da doença, o paciente pode encontrar em Deus, a energia necessária para projetar o presente e gerar saúde. A capacidade de encontrar forças em meio à obscuridade do caminho auxilia a pessoa na reconstrução da sua saúde. Na atualidade, os profissionais já discutem que nem sempre saúde é ausência de doenças. Existem casos de pessoas que possuem uma determinada doença e vivem com saúde, sendo chamados de pacientes em estado salutogênico. A noção de saúde também precisa ser enfocada com uma perspectiva diferente. Não se trata de conformismo, pelo contrário, trata-se de conviver com a doença, procurando a sua cura, sem ter que matar o doente por isso.

Voltemos à origem da vida que está no coração do Pai Eterno. Dele viemos. Nele somos e existimos. E para Ele haveremos de voltar após a morte! Saibamos que o menosprezo do direito à vida, ao eliminar pessoas, é uma forma destrutiva de aniquilar o dom de Deus. “Quando a Igreja declara que o respeito incondicional do direito à vida de toda pessoa inocente – desde a sua concepção até a morte natural – é um dos pilares sobre o qual assenta toda a sociedade, ela quer simplesmente promover um Estado humano. Um Estado que reconheça como seu dever primário a defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana, especialmente da mais débil” (João Paulo II, Evangelium Vitae, nº. 101).

Que o Pai Eterno nos abençoe nesta empreitada da vida e pela vida contra o holocausto moderno da eutanásia!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Twitter: @padrerobson

www.paieterno.com.br

Ser Padre segundo o coração do Pai Eterno!

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Nesta semana, por ocasião da memória de São João Maria Vianney, o famoso “Cura d’Ars”, padroeiro dos párocos, também foi celebrado o dia do padre. Na presente data rezei pelos meus irmãos no sacerdócio e passei o dia a refletir sobre o quanto é importante ser padre de acordo com o coração de Deus e não a partir dos próprios critérios ou de sentimentos pessoais.

A missão do sacerdote está inserida no mistério Divino e decorre, diretamente, dele. Assim, quanto mais mergulharmos na origem da vocação sacerdotal, mais encontramos o rosto do Pai, pois Ele é o fundamento que legitima uma verdadeira vocação. O Pai continua a peregrinar pelo mundo, tocando no interior de cada alma. Ele prossegue passando por nossas casas, nossas famílias, nossas escolas e a chamar os seus, para lhes conceder vida e plenitude. Por isso, é impossível falar de vocação sem mencionar a emoção da pertença, a característica da escolha e a eleição para um serviço tão importante como o sacerdócio. Por trás de cada vocação está a história do amor do Pai inserida na vida dos seus filhos. Fomos convocados pelo Amor!

Muito mais do que pregar e confessar o povo, o sacerdote assume o apostolado do exemplo. Mesmo sendo frágil e humano, suas atitudes devem apontar para o Evangelho. Em seus gestos mais simples, o sacerdote convida a comunidade cristã a aderir seu pensamento, vontades, sentimentos e toda a sua existência ao Evangelho de Jesus. É como se ele mesmo dissesse: “Querem conhecer o Mestre Jesus? Olhem para mim e vejam em minhas atitudes a face de Cristo!”

No coração do sacerdote está o chamado a ser ‘mestre da Palavra’, ‘ministro dos Sacramentos’ e ‘guia da Comunidade Cristã’. Não porque ele o quis ou evocou para si estes títulos. Pelo contrário, foi porque a Igreja assim o confiou. O sacerdócio não tem nada a ver com o exercício de uma profissão. Ser padre não é uma questão de aptidão pessoal. Trata-se, no fundo, de um carisma, confiado pelo Espírito Santo àqueles que Ele mesmo escolheu.

O sacerdote não é um funcionário do Sagrado nem um profissional da religião. Se fosse para categorizá-lo de acordo com a nossa mentalidade trabalhista, poderíamos dizer que: sua carteira de trabalho é o Evangelho, seu cartão de ponto é a oração e seu salário é gastar a vida pela causa dos oprimidos e abandonados. O regulamento que rege o serviço de um sacerdote é bem diferente do que a maioria está acostumada. Isso não faz dele um super-herói e muito menos alguém distante da sociedade. É inserido no tempo, consciente da fé, que o sacerdote evangeliza e também se deixa evangelizar.

Junto à missão sacerdotal está a realidade do serviço, pois o sacerdote “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28). Sendo homem do serviço, cabe a nós sacerdotes animar os fracos; empregar esforços para uma vida, verdadeiramente, cristã nos fiéis; exortar os desanimados; edificar a Igreja com o próprio testemunho; consolar os abatidos; libertar os cativos da injustiça e, por fim, ir ao encontro de todos aqueles que necessitam da face de Deus, sempre com a consciência de que: “quem é posto à frente do povo deve ser o primeiro a dar-se conta de que é servo de todos. E não desdenhe de o ser, repito, não desdenhe de ser servo de todos, pois não desdenhou de se tornar nosso servo Aquele que é Senhor dos senhores” (Santo Agostinho).

Porém, a maturidade da fé já ensina que nenhuma vocação é um mar de rosas. Nunca nos esqueçamos dos espinhos. Muitas vezes carregados na própria carne, como dizia o apóstolo (Cf. II Cor 12,7). Da mesma forma como há aqueles que se deixam inflamar pelo amor do Pai, sendo conscientes do dom espiritual que carregam, também há uma pequena minoria que se deixa perder pelo caminho. Acabam por sucumbir à ideia de que a vocação sacerdotal é coisa do passado. Que engano, pois, as pessoas sempre terão necessidade do amor do Pai! “Deus vive, e precisa de homens que vivam para Ele e O levem aos outros. Sim, tem sentido tornar-se sacerdote: o mundo tem necessidade de sacerdotes, de pastores hoje, amanhã e sempre enquanto existir” (Bento XVI).

Em uma sociedade cada vez mais secularizada, busquemos a face do Pai e não deixemos de orar pelos sacerdotes. Antes de criticar, oremos! Hoje, a mídia questiona a vocação daqueles que tem a única missão de lhes trazer Deus. O fato de alguns terem deixado de olhar para o Mestre e passarem a olhar para suas paixões ou doenças psicológicas, a ponto de cometerem crimes é um escândalo para a fé; que merece ser punido tanto na Igreja, quanto na justiça civil. A vocação sacerdotal está acima do erro e do pecado moral desses, pois é um dom confiado pelo próprio Deus, assim como acontece com todas as vocações. Como se sabe, o dom está acima das misérias humanas.

“No coração do sacerdote não está extinto o amor” (Paulo VI). Mas, ele o exerce continuando a missão de Cristo, na caridade incondicional. É este amor que lhe confere o sentido de responsabilidade primeira pelo povo de Deus. Com a oração dos fiéis e com o esforço pessoal, a personalidade do sacerdote é amadurecida. A partir desse momento, somos capazes de carregar esse precioso dom, em nossos frágeis vasos, amparados pela força do Pai! Prossigamos!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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