Dia: 10 de novembro de 2011

O TEMPO LITÚRGICO DO ADVENTO

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O tempo litúrgico do Advento é um tempo de renovada esperança e de alegre espera da vinda de Jesus. “Possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os seres humanos, é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos” (Normas sobre o Ano Litúrgico e o Calendário – NALC, N. 39).

O tempo litúrgico do Advento é formado por quatro semanas Nas duas primeiras semanas somos convidados a vigiar, esperando a vinda gloriosa do Salvador.  Nas últimas duas semanas, lembrando a espera dos profetas e de Maria, somos convidados a nos preparar para celebrar – fazer a memória, tornar presente – em nossa vida e em nossa história o nascimento de Jesus em Belém.

Um símbolo que pode nos ajudar a entender e viver o sentido do tempo litúrgico do Advento é a Coroa do Advento, que é feita de um círculo de galhos sempre verdes, simbolizando o amor infinito de Deus para com todos os povos. As quatro velas, acesas e colocadas no círculo – uma a cada semana do Advento – nos lembram a luz de Deus que vem ao mundo para iluminar nossa existência e nossa história.

Na abertura do tempo litúrgico do Advento escutamos a antífona: “Anunciai a todos os povos: Deus vem, nosso Salvador” (I Vésperas do 1º domingo do Advento), que ressoa durante todo o Ano Litúrgico. A Liturgia “convida a renovar seu anúncio a todos os povos e o resume em duas palavras: ‘Deus vem’. Esta expressão tão sintética contém uma força de sugestão sempre nova. Detenhamo-nos um momento a refletir: não usa o passado – Deus veio -, nem o futuro – Deus virá -, mas o presente: ‘Deus vem’. Se prestarmos atenção, trata-se de um presente contínuo, ou seja, de uma ação que sempre acontece: está acontecendo, acontece agora e acontecerá mais uma vez. Em qualquer momento, ‘Deus vem’. O verbo ‘vir’ apresenta-se como um verbo ‘teológico’, inclusive ‘teologal’, porque diz algo que tem a ver com a natureza própria de Deus. Anunciar que ‘Deus vem’ significa, portanto, anunciar simplesmente o próprio Deus, através de uma de suas marcas essenciais e significativas: é o ‘Deus-que-vem’ (Bento XVI. Meditação sobre o Advento, 10/12/2006 – www.cnbbco.org.br).

O tempo litúrgico do Advento é um tempo forte de espiritualidade. E a espiritualidade é, antes de tudo, uma espiritualidade humana.Ela envolve o ser humano todo, em todas as suas dimensões e relações: pessoais, sociais, econômicas, políticas, culturais e ecológicas. Ela perpassa, impregna e absorve a totalidade do ser humano, a totalidade de sua existência no mundo.

Para os cristãos, a espiritualidade humana – à luz da fé – se torna espiritualidade cristã (do seguimento de Jesus de Nazaré). Não pode, porém, ser espiritualidade cristã se não for primeiro (no sentido lógico e não cronológico) espiritualidade humana. A espiritualidade cristã é uma espiritualidade radicalmente humana. Precisamos os cristãos ser especialistas em humanidade. Não temos o direito de sermos indiferentes e omissos diante dos desafios que o mundo de hoje nos apresenta como apelos de Deus, mas devemos estar sempre na linha de frente em todas as lutas que visam tornar a sociedade e o mundo mais humanos.

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos seres humanos de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje – GS, 1).

“Eu vim – diz Jesus – para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo.16, 4). Somos os cristãos “discípulos missionários de Jesus Cristo, para que nele todos os povos tenham vida” (Tema da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe – CELAM).

A espiritualidade cristã é uma espiritualidade pascal: cristológica, pneumatológica e trinitária (comunitária, eclesial). Brota da vivência, sempre mais profunda e sempre mais envolvente, do Ano Litúrgico, que inicia com o Advento e tem como centro a Páscoa (passagem da morte para a vida: vida nova em Cristo, vida segundo o Espírito). A Liturgia é a celebração do mistério pascal na vida e a celebração da vida no mistério pascal. “A celebração litúrgica repercute na vida e a vida é celebrada. Celebração e vida estão intimamente ligadas. Como seguidores de Jesus Cristo progressivamente nos tornamos uma coisa só com ele. É um processo (…) que atinge todo o universo e que se dá concretamente no cotidiano da nossa história. Cristo, embora tenha passado pela morte, venceu-a. Nós também venceremos. Acreditemos na vida” (Ir. Veronice Fernandes, pddm – www.cnbbsul1.org.br – 25/03/08).

Perfazendo seu próprio caminho pascal, cada pessoa está ao mesmo tempo participando e colaborando na Páscoa de todo o tecido social, de toda a realidade cósmica (Cf. Rm 8, 18-25)) até à plena comunhão, quando Deus será tudo em todos (Cf. 1Cor 15, 28)” (Ione Buyst. Viver o mistério pascal de Jesus Cristo ao longo do Ano Litúrgico: um caminho espiritual. Semana de Liturgia, São Paulo, outubro de 2002).

O tempo litúrgico do Advento nos leva a uma mudança de vida e nos prepara para celebrar e viver o Natal de Jesus à luz de sua Páscoa, que é também a nossa Páscoa, a Páscoa de toda a humanidade, a Páscoa do mundo inteiro.

Frei Marcos Sassatelli, OP

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