Dia: 1 de outubro de 2013

Feridas Existenciais

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Nem sempre sabemos conviver com nossos limites. Muitas são as histórias que nos libertaram e também nos oprimiram ao longo da vida. Nem sempre fomos criados pelas pessoas que idealizamos. Talvez nossos pais, parentes e amigos não se apresentaram conforme as nossas vontades mais profundas. Nossa infância pode ter sido dolorosa e sofrida. Das mais diversas formas e dos mais variados modos, podemos nos sentir profundamente sozinhos em relação a pessoas, a lugares e realidades. Em quantas ocasiões nossos sentimentos foram feridos? Que preço pagamos para sermos nós mesmos? Quão difícil não foi residir com alcoólatras e com personalidades de temperamento agressivo? Que quantidade de vezes fomos humilhados em nossa dignidade por aqueles que jamais imaginaríamos? Em determinadas ocasiões parece que a vida se torna um fardo quando não sabemos lidar com as feridas que a existência nos impôs. No entanto, a vida é o grande dom que Deus nos confiou e como tal precisa ser vivenciada como um presente divino. Mas o que fazer quando o sofrimento fala mais forte?

Nesse sentido, precisamos tomar algumas atitudes e a primeira delas é visitar o nosso inconsciente, sem rodeios e de forma objetiva, no intuito de encontrar as grandes respostas da libertação interior. Mesmo assim, não nos é tranquilo assumir tamanho empreendimento de forma solitária ou individualista. Pelo contrário, é em Deus que vislumbramos o “fiel companheiro de viagem”. É com Ele que adentramos as zonas mais ocultas do nosso ser. É Nele e por Ele que a jornada interior ganha sentido. É para Ele que nos tornamos mais livres dos malefícios do passado e mais benéficos no presente. É com a face amorosa de Deus que nos deparamos nos momentos mais difíceis da vida.

Diante das dores e mágoas do passado, vamos aprendendo a não reproduzir, na vida dos outros, aquilo que sofremos. Descobrimos que nem sempre aqueles que nos fizeram chorar tinham tal intento. Talvez, determinadas reações foram ocasionadas pelas intempéries do cotidiano. Precisamos, portanto, compreender a história das pessoas quando quisermos conhecê-las mais e melhor.

Nesta mesma direção, vemos que o ser humano já foi capaz de atingir distâncias extraplanetárias e nem sempre teve a coragem de visitar seu próprio coração. O motivo? Podemos deduzir que seja a dor existencial. Conhecer-se é um caminho doloroso e libertador! Sabemos que não é fácil se reconciliar com o passado sofrido. Não é fácil perdoar. Não é fácil se libertar dos laços hereditários que aprisionam o presente. Prestemos atenção: falamos que não é fácil e não que é impossível.

Basta nos visitarmos interiormente para reconhecer que existem inúmeras situações não resolvidas. E o pior acontece quando permitimos que essas forças inconscientes determinem o nosso futuro como algo absoluto. Estejamos cônscios de que não nos é lícito ficar presos a fatos e situações passados que muitas vezes não dependeram de nós. Tenhamos a audácia da fé para dar passos concretos em vista de uma vida mais amadurecida.

Saibamos que Deus está e vive em nós. Nos momentos dolorosos, Ele sempre fica presente ao nosso lado. Não estamos desamparados. Não há fracasso para aqueles que confiam no Pai Eterno! Tenhamos a clareza da fé para expor que o nosso maior sofrimento nunca foi o passado, mas, sobretudo, o fato de fugir do amor de alguém que faz tudo pela nossa felicidade. Reconheçamos também que se fugimos de Deus hoje, amanhã Ele nos encontra na esquina da vida. Não deixemos que as tristezas, as mágoas, os ressentimentos tomem conta da nossa história e nos impeçam de viver como filhos amados do Pai. É uma questão de escolha. Deus jamais nos esquecerá, pois pertencemos a Ele. Estamos gravados em seu coração! Não estamos sós! “Homem, considera que fui Eu o primeiro a amar-te. Não estavas ainda no mundo e eu já te amava, mundo nem mesmo era. Amo-te desde que amei a mim mesmo. Amo-te desde que sou Deus” (Santo Afonso).

No desenrolar da história temos o desfecho nos braços de Deus Pai. Um Pai que nos entende, que nos compreende, que não nos acusa, não nos culpa, mas que sempre diz: Eu vos amo! Nas raízes da história de Deus está também a história divina do humano. O sentido para a nossa existência está no encontro eterno com Deus. Na medida em que nos abrimos e pedimos para que Ele cure nossas feridas, antecipamos o encontro eterno que um dia acontecerá em plenitude no céu.

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

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