O Sínodo nos leva ao Evangelho de Jesus e ao Jesus do Evangelho

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A misericórdia é a marca registrada dos Evangelhos. Engana-se quem a define a partir da mera piedade, a ponto de confundi-la com aquela comiseração vazia de sentido, que beira a dó diante do sofredor, inclusive por não lhe propor nenhum tipo de transformação. Ali, onde a dor impera, não somos juízes da moral nem reguladores da doutrina, mas tão somente servos da ação misericordiosa de Deus, que cura os feridos da vida com o bálsamo da compaixão e o remédio salutar da fé.

É necessária alma samaritana para compreendê-la, na verdade e na justiça que lhe são merecidas (cf. Lc 10,30-37). Distante de ações concretas, não há misericórdia que se sustente. Ela sempre solicita respeito, jamais requer, para si, qualquer tipo de pena. No lugar de condenar, a misericórdia acolhe e redime. Em vez de gerar sanções legalistas, ela abraça, perdoa e reconcilia. Só depois disso é que solicita a conversão do coração.

Pelo fato de Deus agir, única e exclusivamente, pelo princípio da misericórdia, com a comunidade eclesial não poderia ser diferente. A Igreja não é apenas agente, mas também alvo da misericórdia divina. É, ao mesmo tempo, remetente e destinatária da misericórdia. Assim atesta o Concílio Vaticano II (1962-1965), por meio da Constituição Dogmática Gaudium et Spes.

Nos tempos atuais, precisamos deixar ressoar aqueles dizeres sempre novos do texto conciliar, sobretudo, ao afirmar o vínculo irrestrito e profundo da Igreja com a história humana, entremeada por conquistas e adversidades: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.

Presidindo a Igreja, na caridade, o Papa Francisco tem colocado dois itinerários bastante específicos para a fé eclesial, a partir do testamento da misericórdia. O primeiro tem se efetivado neste mês de outubro, mediante a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos de 2014, cuja missão está em receber e reunir os testemunhos de todas as dioceses do mundo, bem como as recomendações para a vivência autêntica da fé entre as famílias. Já o segundo caminho se efetivará na Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2015, na qual serão traçadas as linhas de ação pastoral voltadas para cada pessoa humana, inserida no contexto familiar.

Na primeira fase, aproximadamente 190 bispos prelados se fizeram presentes, com direito a voto. Além deles, também havia outros 60 colaboradores-especialistas e auditores-observadores, aptos a fomentarem as discussões nos círculos menores, sem a possibilidade de participação nas votações, por se configurarem como não prelados. Independente disso, o sentimento em comum era o de devoção à fé, todos empenhados no acompanhamento das famílias, lendo as suas dores, na perspectiva da misericórdia.

Após uma semana em torno de opiniões diversas, mas nem sempre antagônicas, foi elaborada uma síntese sinodal chamada de Relatio post disceptationem (Discursos depois dos debates), que desembocará em um documento final, num futuro vindouro. Além do aprofundamento teológico sobre o papel eclesial e social das famílias e das temáticas envolvendo a anticoncepção, o aborto, a nulidade matrimonial, as convivências e as uniões de fato, também foram discutidas as relações de casais homossexuais, responsáveis e estáveis, bem como a adoção de crianças daí decorrentes.

Do Sínodo Extraordinário de 2014 ao Ordinário de 2015, algumas questões permanecem em aberto, necessitando de um exame a fundo, a partir da colegialidade eclesial. Um deles é a comunhão aos divorciados e aos reesposados em contrariedade à disciplina canônica. Na condição de médicos da alma e não de censores da fé, os bispos ainda discutirão, à luz da misericórdia de Jesus, se a disciplina atual deverá ser mantida, enquanto regra geral ou se há possibilidade de uma abertura em situações bem precisas e individuais, ponderando cada caso, por meio de um itinerário de penitência e conversão, acompanhado pelo bispo diocesano.

No fim das contas, não se trata de assumir uma postura divorcista, na tentativa de dissolver um laço sacramental que é indissociável por sua constituição divina, mas, talvez, de conceder uma exceção ajuizada, sobretudo, quando o vínculo matrimonial fracassou, independendo diretamente de uma das partes, como é o caso do adultério persistido. Nesses casos pontuais, uma segunda união só seria possível à parte inocente, assim como já acontece nas Igrejas Católicas Ortodoxas, mas só depois de um apurado caminho que passa da confissão à absolvição.

De qualquer forma, é uma abordagem que não me compete aprofundar, inclusive por se tratar de uma matéria de debate, análise e reflexão dos pastores da Igreja. Só me cabe afirmar que nos tempos antigos, São Basílio de Cesaréia e, nos tempos modernos, Santo Afonso Maria de Ligório já denunciavam tanto o laxismo, quanto o rigorismo moral. Ambos sinalizavam para o discernimento misericordioso, dentro da mais primitiva tradição da Igreja.

Em contrapartida, outras questões já podem ser consideradas, em comum acordo entre os bispos, como, por exemplo, o reconhecimento de que a Igreja é uma mãe acolhedora, pronta a receber todos aqueles que desejam fazer a experiência da misericórdia divina, dentre eles os homossexuais. Para além da orientação dos afetos homoafetivos está a dignidade da pessoa humana e o respeito incondicional a ela em quaisquer circunstâncias. Há direitos que lhes devem ser garantidos, pois é uma questão de civilidade e cidadania. Isso não contradiz nem os equipara ao matrimônio cristão, mas lhes concede uma guarida permanente, respeitante e digna, enquanto filhos de Deus.

Mesmo que o Sínodo seja um elemento consultativo, pertencendo ao Papa a decisão final sobre cada tema abordado, fica a herança da colegialidade do Bispo de Roma com os demais bispos, no sentido de levar ao mundo o advento da misericórdia, que resplandece a face amorosa de Deus. Antes das necessárias leis e regras, vem sempre o discernimento dos espíritos, dentro de um contexto real.

Originada de Deus, sagrada e inviolável por natureza, a misericórdia se constitui como a célula vital da Igreja, destinada a servir a todas as famílias: reunidas no vínculo do amor, alicerçadas na fortaleza da fé e alimentadas pelo dom da esperança. Como se vê, não há evangelização que não passe, antes, pelo Evangelho da Família.

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

 

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