A Imagem do Pai Eterno nos evangeliza e fala ao nosso coração

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Em Seu divino mistério, Deus vem ao nosso encontro, não por merecimentos, mas por pura gratuidade. Houve um modo pelo qual Ele quis Se revelar, há 176 anos, na cidade de Trindade-GO. Tudo começou em 1840, quando certo casal de lavradores encontrou um pequeno medalhão de barro. Nele estava a representação do Pai, pelo Filho, no Espírito, coroando Maria Santíssima. A primeira manifestação de fé dessa devoção surgiu no coração de uma família: sem muitas posses, mas rica em caridade; sem grandes economias, porém animada pela esperança. Eles receberam, acolheram e transmitiram o dom da fé. Entre Constantino Xavier, Ana Rosa e seus vizinhos: foi edificado o primeiro Santuário do Divino Pai Eterno!

No tempo presente, ao ouvirmos a palavra ‘devotos’, devemos escutar também o seu eco, que continua a ressoar em nosso coração e a dizer: “vivei como filhos”! Cada um que se aproxima da devoção ao Pai Eterno traz a consciência de que é primeiro filho; depois, cristão e, por último, devoto. A ênfase do ato devocional é sempre na Santíssima Trindade coroando Nossa Senhora. Teologicamente, a atenção se detém em Maria, representando a humanidade coroada no coração de Deus Uno e Trino. Porém, no desenvolvimento histórico, a figura do Pai Eterno foi a que alcançou maior destaque. Provavelmente, porque a linguagem paternal permaneceu como a mais próxima da realidade dos agricultores, onde foi encontrado o medalhão e onde a devoção se originou.

Além de uma imagem, o que se enxerga é a presença de um ícone sagrado. A palavra ícone vem do grego έικώυ e está a sinalizar que todo ícone é uma imagem, mas nem toda imagem é um ícone. Uma imagem pode ser catalogada dentro dos manuais de arte, apresentar-se como a livre representação do artista e ser admirada a partir de traços simplesmente estéticos. Já o ícone tem a única intenção de contemplar o mistério absoluto de Deus. Não é uma obra artística avulsa, mas um tratado de evangelização!

A fé, por meio da arte sacra e da arte religiosa, nos ensina que as representações são um caminho para se chegar a Deus. São meios, não fins. Remetemo-nos às imagens que nos endereçam ao Sagrado e prolongam o Seu mistério na existência humana, fazendo da vida uma obra de redenção Desde o primeiro milênio da era cristã, Deus era apresentado apenas por símbolos indiretos, como no caso de uma mão, de um olho ou de um braço. Somente a partir do século XII é que passou a ser difundida a representação de Deus-Pai sob a figura de um ancião barbudo (Cf. Daniel 7,9). Em algumas imagens Ele aparecia com os cabelos brancos, simbolizando a eternidade e em outras era colocado como calvo.

Hoje, quem vê a Imagem logo percebe que nela o Pai é representado como uma figura experiente. Têm barbas e cabelos brancos, também é um pouco calvo. Traja uma túnica branca com detalhes dourados. Simbolicamente, aquela calvície não é resultado da hereditariedade, mas uma forma poética de assegurar que Deus gastou a vida pelos seus filhos e o continua até as últimas consequências. Os cabelos brancos são o sinal de que podemos confiar Nele para nos esclarecer, direcionar e elucidar pelo amor.

O Pai também utiliza um manto vermelho. Na história, o vermelho era a cor oficial dos imperadores, denominada de púrpura imperial. A vestimenta avermelhada costumava ser associada ao poderio e à fortaleza bélica dos que se intitulam soberanos. No entanto, o poder do Pai é totalmente diferente daquele dos césares da história. Sua autoridade não é tirana, Sua força não é guerreira, Sua história não é sanguinária, Sua conquista não é territorial. Seu poder se traduz em serviço e doação totais.

Com uma aparência mais jovial aparece Jesus. Tal qual ao Pai, Ele também traja um manto vermelho e tem os pés descalços. O fato de estar sem sandálias já evoca a realidade do ‘Deus que veio ao mundo’ e se tornou carne em nossa carne. Não teve medo de pisar no chão da história nem de viver como um de nós, exceto no pecado. Em Jesus, Deus se tornou humano! Mesmo criando a humanidade, Ele não havia sido historicamente humano: sangue do nosso sangue.

Mais a frente, o Espírito Santo é representado como um pombo. Essa simbologia tem origem na passagem bíblica do dilúvio, quando Noé solta o pássaro, significando que as águas haviam passado e uma nova chance de vida tinha sido dada à humanidade. (Cf. Gênesis 8,6-12). Outra fundamentação está no texto do Batismo de Jesus, quando o Espírito Santo veio sobre Ele em forma de pombo. Tudo para expressar que um novo momento estava começando na vida do Messias (Cf. Lucas 3,21-22).

A vida protagonizada pelo Pai Eterno é obra do Espírito Santo e consequência direta do seguimento à pessoa de Jesus. A vida puramente humana torna-se, então, participação na vida eternamente divina. Que de ora em diante tenhamos o coração aberto para acolher o mistério Divino e os caminhos que Ele utiliza para Si revelar a cada um de nós!

 Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e presidente-fundador da Afipe

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