Dia: 20 de Fevereiro de 2018

Em Cristo Redentor somos todos irmãos (Mt 23,8)

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Vivemos em um mundo ferido e violento. Independente de quem causou a lesão, precisamos reconhecer que ferimento se cura com o remédio da fraternidade. A dimensão fraterna da vida não se faz apenas com ajudas ocasionais aos mais próximos, com laços isolados de amizade ou, ainda, com simples partilhas de ideias. Isso soa como superficial. Fraternidade tem a ver com um movimento de encontro consigo e com os outros, sem esquecer de que o fundamento desse encontro está no amor de Deus Pai. Vinculados a Ele aprendemos a nos vincular aos outros, sem maiores reservas e sem requisitos prévios. Não há imposição de condições para o bom exercício da fraternidade. “Quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (I Jo 4,16b).

Quisera Deus que não precisássemos discorrer sobre a fraternidade tamanha fosse a nossa persistência nela, muito menos necessitássemos de uma Campanha da Fraternidade para nos recordar da violência e da indiferença para com nossos irmãos. Mas, somos falhos e limitados. No caminho da honestidade pessoal e comunitária é possível perceber a fragilidade de algumas relações que construímos. Faz-se necessário peregrinar, durante toda a Quaresma, se quisermos ultrapassar os possíveis desacordos do dia a dia. É forçoso o movimento de saída para que encontremos, no rosto das pessoas, a face amorosa de Cristo.

Se os nossos afetos estiverem orientados para o Pai Eterno não temeremos tratar aos demais como irmãos, pois acima de tudo está a comunidade de oração, a comunidade de missão e a comunidade de fraternidade com as quais nos comprometemos lá no Batismo. Já que a fé nos deu asas, nos esforcemos para que as diferenças não nos criem gaiolas. A salvação passa primeiro pela reconciliação e pela perseverança “no amor fraterno” (Hb 13,1).

Sabemos bem que, antes de sermos cristãos, somos todos irmãos. Não possuímos laços sanguíneos, nem parentesco próximo. Nosso único vínculo é Cristo e Ele nos diz: “todos vocês são irmãos” (Mt 23,8). O mesmo Novo Testamento também nos orienta: “Vivam em paz entre vocês. Por favor, irmãos, corrijam os que não fazem nada, encorajem os tímidos, sustentem os fracos e sejam pacientes com todos” (I Ts 5,13-14). A Quaresma também nos pede para ‘amarmos’ mais e nos ‘armarmos’ menos. Na verdade, cada vez menos. Até que a violência, nas suas mais variadas formas, seja definitivamente sepultada.

A ocasião solicita que cessemos as contendas entre nós. O acúmulo de mágoas e o cultivo de ressentimentos só fazem adoecer a fraternidade que nos move. No lugar do maldizer, o bendizer. Em vez de intrigar, devemos congregar. Ao invés de enfraquecer-nos uns aos outros, precisamos nos fortalecer mutuamente no Senhor. “Tenhamos consideração uns com os outros, para nos estimular no amor e nas boas obras. Procuremos animar-nos sempre mais” (Hb 10,24-25). Somos um corpo eclesial, cuja cabeça é Cristo. É um engano supor que podemos fazer algo a sós ou por iniciativa própria. Tudo o que realizamos parte da fraternidade, dela depende e para ela retorna.

Pessoas machucadas geram feridas aos mais próximos. Comunidades feridas também machucam os seus membros. Uma realidade não se separa da outra. Estão fortemente vinculadas, tanto nos avanços quanto nos retrocessos. Enfim, a saúde da vida cristã está sujeita a uma convivência fraterna, capaz de unir a todos, mesmo na diferença que nos constitui. De bom grado, aceitemos que as diferenças geram plenitude e pluralidade, jamais nos enfraquecem.

Por outro lado, é preciso recobrar a esperança que supera a todo desânimo. Se a vida é ferida pelo sofrimento é ela quem vai cicatrizando cada desgosto e contragosto, cada dor e dissabor. A esperança não é apenas uma virtude teologal, usada no exercício do bem ou na renúncia do mal. Junto disso, ela se apresenta como uma disposição pessoal no transformar de sonhos em realidade. Sonhos carregados de verdade: da nossa verdade mais profunda!

Que, partindo da Quaresma, possamos passar da estranheza à fraternidade, principalmente, pelo exercício da não violência. Tendo a missão evangelizadora como caminho, descobriremos que o nosso lar é um mundo sedento de Deus.  É no serviço que nos encontramos enquanto cristãos. Com o Pai estabelecemos uma devotada parceira, a ponto de vislumbrar que viemos para servir, especialmente aos mais abandonados. Eles podem estar aí do nosso lado, nesse exato momento, dividindo da mesma necessidade e precisando do mesmo pão. Boa Quaresma a todos!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e Presidente-fundador da Afipe

 

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