“Você é pó, e ao pó voltará” (Gn 3,19)

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Viemos do solo fértil de Deus que, em sua generosidade mais bonita, enraizou-se à nossa existência, adubando-a de muito amor, fazendo-nos não apenas criaturas, mas, para além disso, Seus filhos queridos. Do latim temos a palavra húmus, que significa terra. Desse radical vem o termo ‘humano’ e, junto dele, a expressão ‘humildade’. Na história vivida, contada e, só depois, escrita no livro do Gênesis, o autor sagrado demonstrou que o criado está intimamente ligado ao seu Criador. Um jamais se distancia do outro. Nem mesmo o pecado consegue nos afastá-los. Ele pode até desumanizar. Porém, logo em seguida, vem a graça para humanizar novamente, segundo a imagem e semelhança de Deus (Cf. Gn 1,26).

A fé que humaniza nos faz reconhecer aquilo que somos, de verdade, distante de toda arrogância. Nesse lugar privilegiado para o reconhecimento de si não há escapatórias, nem disfarces, muito menos fugas. “Humildade, humano, húmus – estamos todos no mesmo nível em relação à nossa dignidade. Existem pessoas que […] não conseguem aproveitar as oportunidades porque não têm humildade. Qual é o contrário da humildade? Arrogância. Gente arrogante é gente que acha que já sabe, que acha que não precisa aprender […]” (CORTELLA, M. S. Qual tua obra? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Petrópolis: Vozes, 2017, n. p.).

A Quaresma se torna, então, o tempo propício para resgatarmos a nossa humanidade, sepultarmos a arrogância pecaminosa, celebrarmos o dom da humildade, trazendo no coração a certeza de que uma hora retornaremos ao pó, à terra fértil, ao solo que a todos nivela. Eis aí o simbolismo das cinzas quaresmais. De um modo geral, elas decorrem das sobras do fogo. São resultantes diretas das substâncias dos ramos bentos que sofreram um processo de combustão. Na prática dos antigos judeus as cinzas dos animais sacrificados eram tidas como santificadoras. Para nós, cristãos, elas falam da transitoriedade da existência e da fragilidade da condição humana (Cf. Lv 1,16; Nm 4,13; Jd 7,4; Is 44,20; Jr 6,26; Mc 1,12-15).

Sobrepostas na fronte, mas sempre trazidas na alma, as cinzas nos remetem à experiência do recomeço, perante um Pai que cria por amor desmedido e incondicional: “Então Javé Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7). Definitivamente, Ele não desiste de nós! Por isso, nos convida à conversão integral, sobretudo, das palavras, do pensamento e das atitudes. É chegado o tempo de visitar as palavras torpes e agressivas, pedindo perdão por cada uma delas. Momento favorável de abandonar os pensamentos de quem vive julgando os outros, mas se esquece de analisar os próprios comportamentos. Reduzidos às cinzas e renascidos delas: celebraremos, adiante, a Páscoa de Jesus.

Para tanto é de fundamental importância o arrependimento sincero e, sua consequência direta, o perdão dos pecados. O erro existe para ser corrigido e é assim que aprendemos: endireitando o rumo, fortalecendo o prumo, aparando as arestas, reparando os exageros, fortalecendo-nos acima de tudo. O arrependimento que gera o perdão só é possível quando nos enxergamos, nos narramos e nos colocamos na condição de pecadores. Em contrapartida, esse reconhecimento faz com que, diante do Pai Eterno, também vejamos a natureza bondosa e agraciada que nos foi concedida por Jesus. No fundo, a Quaresma está a nos dizer que não somos: nem totalmente ruins nem completamente bons. Somos inteiros. Feitos de sombras e luzes!

Só não podemos perder de vista o pedido maior que a própria fé nos faz: “Convertei-vos! Renunciai a todas as vossas faltas! Que não haja mais em vós o mal que vos faça cair” (Ez 18,30b). Sim! Precisamos ficar em pé, sem fazer do pecado uma muleta, amparando-nos somente no poder da conversão. Mas, se cairmos pelo caminho, a graça divina estará ali presente para nos reerguer sempre que necessário o for. Ainda que enfraquecidos, não podemos desanimar. Mesmo em dúvida, não devemos perder as estribeiras. Embora calejados pelo sofrimento, somos capazes de superá-lo dia após dia. Que, partindo das cinzas, possamos chegar aos gestos concretos de reconciliação conosco e com os outros. E, se assim o fizermos, também nos reconciliaremos com o Divino Pai Eterno: “Então o pó volta para a terra de onde veio, e o sopro vital retorna para Deus que o concedeu” (Ec 12,7). Abençoada Quaresma a todos nós!

 Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.

Presidente-Fundador da Afipe e Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

 

 

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