A Cruz

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A Equipe Paterno está preparando vários textos de reflexão para você que visita o nosso blog. Começamos com “A Vida…” e agora temos o que segue: “A Cruz”. Boa leitura e não deixe de comentar.

Certa vez, um homem cheio de fé cristã fez um pedido e prometeu que carregaria uma cruz sobre os ombros, até a cidade mais próxima, para que o pedido fosse atendido.
Pois bem, nosso personagem fez sua cruz e iniciou sua jornada. Aproximadamente na metade de seu trajeto, em um pequeno vilarejo, ele já sem forças e com os ombros quase sangrando, avistou uma pequena fábrica de cruzes e perguntou ao proprietário:
-”O senhor trabalha com troca?”
O fabricante sem pensar:
-”Sim, trabalho.”
O cristão:
-”Então vou ‘experimentar’ algumas pois já não estou agüentando o peso da minha…”
Passado um bom tempo “experimentando” cruzes e mais cruzes ( pois uma era muito grande, outra muito pesada, outra muito pequena… ), o cristão grita:
-”Achei ! Finalmente encontrei uma cruz na medida certa !!! Quanto lhe devo meu nobre amigo ???
O fabricante com um pequeno sorriso, suavemente responde:
-”Você não me deve nada meu amigo…”, já sendo interrompido pelo cristão, ainda eufórico:
-”Como não devo, o senhor teve trabalho e tenho que remunerá-lo por isso !!!”
O fabricante ainda com o sorriso em seu rosto:
-”Amigo, cada um tem a sua cruz a ser carregada e Deus sabe bem o peso que cada uma deve ter.”
O cristão:
-”Não estou lhe entendendo…”
O fabricante:
-”É simples: quando você começou a experimentar as cruzes, você deixou de lado a sua e no meio a bagunça feita em meu estabelecimento, você optou por esta cruz que é simplesmente a mesma que entrou apoiada em seus ombros…”

A V I D A . . .

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Alfred Henfil

“Por muito tempo eu pensei que a minha vida fosse se tornar uma vida de verdade. Mas sempre havia um obstáculo no caminho, algo a ser ultrapassado antes de começar a viver, um trabalho não terminado, uma conta a ser paga. Aí sim, a vida de verdade começaria.

Por fim, cheguei a conclusão de que esses obstáculos eram a minha vida de verdade. Essa perspectiva tem me ajudado a ver que não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho!

Assim, aproveite todos os momentos que você tem. E aproveite-os mais se você tem alguém especial para compartilhar, especial o suficiente para passar seu tempo; e lembre-se que o tempo não espera ninguém.

Portanto, pare de esperar até que você termine a faculdade; até que você volte para a faculdade; até que você perca 5 quilos; até que você ganhe 5 quilos; até que você tenha tido filhos; até que seus filhos tenham saído de casa; até que você se case; até que você se divorcie; até sexta à noite; até segunda de manhã; até que você tenha comprado um carro ou uma casa nova; até que seu carro ou sua casa tenham sido pagos; até o próximo verão, outono, inverno; até que você esteja aposentado; até que a sua música toque; até que você tenha terminado seu drink; até que você esteja sóbrio de novo; até que você morra…

E decida que não há hora melhor para ser feliz do que AGORA MESMO…

Lembre-se: “Felicidade é uma viagem, não um destino”.

Pai Eterno, Esperança e Salvação!

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Diante dos males que angustiam a pessoa humana, na atualidade, está a perda pelo sentido da vida. Muitos são os indivíduos que dificilmente conseguem questionar as razões mais profundas do ser e do existir no mundo. Trata-se de uma crise, sem precedências, que foi ocasionada pelas promessas vãs de inúmeros sistemas sociais. Estranhamente, alguns acabam se esquecendo de que “o futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar, às gerações de amanhã, razões de viver e de esperar” (Constituição Dogmática Gaudim et Spes n.31). Em uma sociedade conturbada e sem referenciais críveis e sólidos, nos remetemos à origem do existir para proclamarmos a uma só voz: Pai Eterno, vós sois a nossa esperança e salvação!

Na determinação psicológica da palavra ‘esperança’ está imbuído o potencial idealizador da pessoa que se tornará idêntico àquilo que ela espera. Há uma íntima relação entre expectativa e utopia na vivência da esperança. O contrário da esperança é o desespero vivencial diante do sofrimento com suas variadas mazelas, ou seja, a deseperança. Esta pode acontecer de diferentes formas. No entanto, a mais drástica delas é perder a esperança em Deus. Quando a pessoa deixa de esperar no Absoluto de sua existência, ela deixa de crer em si mesma. Desse modo, a razão de existir no mundo perde seu significado e deixa de ter a categoria de valorização.

Toda pessoa espera, na verdade, por algo além de si e aquém do humano. Falaríamos aqui de eternidade. Contudo, é no dia-a-dia que construímos a nossa fé como fundamento da esperança (Hb 11,1). Esperar não é ficar de braços cruzados diante de situações nas quais deveríamos agir como as “mãos de Deus no mundo” (Santo Irineu). Pelo contrário, na raiz da esperança está a experiência da fé no amor de Deus. Tal situação faz com que a nossa vida tenha um norte e a nossa esperança tenha sentido na pessoa de Jesus de Nazaré. Justamente Dele, brota a verdade cristã de que “é na esperança que fomos salvos” (Rm 8,24).

A palavra ‘salvação’ é proveniente do latim ‘salvation’ e a sua gênese cristã expressa que somos salvos no Deus que espera e acredita em nós. “Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto” (Spes Salvi n.31). Deus é a pedra angular e o motivo maior da nossa esperança e salvação! Esperando, nos salvamos; e salvos, esperamos. É um movimento imanente que parte do coração de Deus para atingir as origens históricas do humano. Um Deus que nos cria no amor, espera na fé e salva na misericórdia.

A nós cabe sermos homens e mulheres de esperança. Não podemos deixar de ansiar por uma vida melhor, um mundo mais justo e uma sociedade mais igualitária. Da mesma forma, a nossa esperança deve estar fundamentada no Cristo, para que não se torne mais uma realidade fantasiosa ou uma promessa inútil em um mundo cansado de esperanças vãs. Saibamos nos comportar como pessoas que fazem a utopia se tornar topia: o sonho se transformar em algo verdadeiro. Pessoas de fé lúcida e transparente, aptas a proclamar ao mundo que ainda vale a pena esperar em Deus, porque Ele espera em nós. Pessoas que se fundamentam na verdade cristã para atuarem, como sinais da esperança, na vida daqueles que foram penhorados pelo medo alienante e pelo desespero da inferioridade.

A cada um de nós, também, compete a missão de agirmos como predicados da salvação, uma vez que o sujeito é Cristo. Levamos a salvação porque fizemos a experiência de sermos salvos em Deus. Salvação não é somente pertencer a uma comunidade eclesial, gerar obras de caridade nem atuar em vista de conquistar a ação do Sagrado. Esperar a salvação pelas obras é reduzi-la e desconsiderar a dimensão da fé. Uma não vive sem a outra. A salvação é configurar a vida a Cristo e atualizar sua obra redentora no mundo. Ao permitir que Jesus de Nazaré continue existindo em nós a salvação se faz presente.

A seguir, tanto a esperança quanto a salvação não precisam de advogados, pois a sua força de defesa é o Espírito de Deus. Pelo contrário, a esperança e a salvação ainda estão por aguardar gente que tenha a coragem do Evangelho e o exercício cristão, para orientar na fé todos aqueles que perderam o rumo da vida e o significado da existência em Deus.

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Quem é o Deus dos Evangelhos?

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Na atualidade, precisamos fazer a memória histórica da vida e da prática de Jesus de Nazaré testemunhada nos Evangelhos. Precisamos percorrer os ditames do povo santo de Israel no intuito de compreender, mais e melhor, a missão redentora do Filho de Deus. É na época presente que devemos resgatar o significado originário que as primeiras comunidades cristãs concederam à pessoa de Jesus e, ao mesmo tempo, o sentido que o próprio Jesus outorgou aos seus seguidores e seguidoras. Não se trata de voltar ao passado, mas, sobretudo, de trazer à tona as raízes da nossa fé e as fontes do nosso ser cristão no mundo.

Nos Evangelhos, é possível contemplar a existência humana na divindade de Jesus de Nazaré. Junto aos antigos “Pais da Igreja”, podemos entoar o canto do deserto: “O Divino se torna humano para que o humano se divinize.” O Pai Eterno havia salvado e criado o humano, mas nunca tinha sido um de nós. No entanto, é em Jesus que Deus se torna humano: carne de nossa carne, sangue de nosso sangue, história de nossa história. Nas trilhas ocultas de Nazaré o Filho de Deus vai aprendendo a ser também filho do homem. Com a espiritualidade do cotidiano judaico e na mais silenciosa oração, Jesus vai compreendendo o cerne de seu ministério quando apresenta ao mundo um Deus com rosto de Pai!

Infelizmente, alguns se esqueceram desta dimensão tão importante da nossa fé. Não se recordam mais do Pai de Jesus, pois já o substituíram pelo Juiz Apocalíptico do Talião. É como se houvesse uma voz cruel que nos assombrasse dizendo: na morte é olho por olho e dente por dente. O Deus amor dos Evangelhos, apresentado por Jesus, passa ser o cruel castigador da história. Outros ainda defendem a existência de um Deus que fica escondido atrás das portas para ver o que fazemos… Eis o antigo “olho que tudo vê”. Deus nos vê com absoluta certeza, porém o seu olhar é movido pelo amor que compreende, perdoa, acolhe, resgata, salva, cria e nos convida à conversão com freqüência. Precisamos ser honestos o suficiente e parar de associar os nossos instintos selvagens e inconscientes em Deus. Este é o grande pecado que o livro do Gênesis condena: a criatura fazendo o Criador à sua imagem e semelhança. É uma inversão, pois na verdade, não podemos atribuir ao Pai de Jesus os nossos sentimentos totalitários e justiceiros em relação às pessoas.

Jesus, nos Evangelhos, assume a história do humano a começar por todos aqueles que viviam à margem do sistema. Seus companheiros eram os pobres, as mulheres, as crianças, as prostitutas, os leprosos, as viúvas, os homens da terra e os cobradores de impostos. Pessoas excluídas pela sociedade e pela religião vigente. O Filho de Deus não faz pacto com o pecado e muito menos se deixa alienar pelo legalismo que separava os bons dos maus, os puros dos impuros, os justos dos pecadores (Mt 5,45). Pelo contrário, senta à mesa e se torna um com estes abandonados. Não é “um deles”, mas “um com eles”. Em Jesus está a síntese, ou melhor, falando, o encontro entre o sagrado e o profano. É o Divino que corre ao encontro do humano, pois não veio para condenar, mas para salvar a humanidade (Jo 12,47).

Se quisermos ser fiéis ao Jesus dos Evangelhos precisamos existir para as mesmas pessoas que Ele existiu e assumir, na contemporaneidade, as posições que Ele assumiria se vivesse em nosso tempo. Jesus não é nenhum popstar, não é um ídolo, não é uma força cósmica e muito menos um produto para ser comercializado como vemos atualmente, nas chamadas Igrejas Pentecostais. Ele é uma pessoa divina e humana: “rosto divino do homem, rosto humano de Deus” (João Paulo II).

Em Nazaré e nos Evangelhos, a esperança sempre foi a marca indelével do Deus de Jesus. Tal Pai tal filho. Assim como o Pai Eterno é, o Filho também o é. Da mesma forma, aqueles que se tornaram filhos em Jesus precisam viver como Ele viveu. Sem interpretações intimistas, cada um é motivado a assumir as rédeas da própria história e parar de culpabilizar a Deus e as pessoas pelas intempéries da vida. Na medida em que cada um tomar consciência de si e da sua missão no coração do Pai Eterno poderemos sonhar com a esperança ativa do Reino dos céus. Quando pessoa por pessoa, declarar, para si mesma, a responsabilidade social e humana que lhe cabe haverá pão em todas as mesas, perdão dentro dos lares, reconciliação entre os pares, fraternidade entre as religiões e diálogo entre os povos. É a utopia tornando-se topia, isto é, o sonho tornando-se realidade.

Agarrado à coragem histórica de Jesus de Nazaré, finalizo o presente artigo com a frase de Voltaire ao Duque de Richelieu: “Amo apaixonadamente dizer verdades que outros não se atrevem dizer.” Não a verdade pela verdade, criada pelos intelectuais, mas, sim, a verdade de um Deus que se atreveu a nos amar como ninguém jamais nos amou! Um Deus que faz tudo pela nossa felicidade! Um Deus que não nos compra e não se vende, porque é Pai e Mãe: puro amor e total doação!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Tortura Nunca Mais!

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Nos últimos dias a inocência infantil transformou-se em ferida existencial, quando fomos pegos de surpresa com as cenas chocantes de tortura física e psicológica, emanadas de um apartamento luxuoso em Goiânia. Trata-se do caso “Sílvia Calabresi”: empresária de quarenta e dois anos, mui renomada no campo têxtil e construtor civil, que há anos vinha transformando histórias em cativeiro de crueldades. Pertence à sua última vítima a seguinte frase: “Ela me afogava no tanque, apertava a minha língua com alicate, enforcava-me com fio, e me deixava amarrada na área de serviço”. Estamos defrontes a uma situação que nos deixa boquiabertos, pois é resultante do drama de uma criança com apenas doze anos de idade! Mas o que motiva uma pessoa a utilizar métodos de tortura como forma de pseudo-educação? Paranóia? Demência? Dissociação psíquica de esquizofrenia ou uma alienação mental? Deixemos as interpretações para os profissionais da área. O que nos interessa é adentrar as conseqüências deste tipo de realidade para aqueles que utilizam da tortura pelo simples prazer de torturar.

De acordo com a etimologia o vocábulo “tortura” é proveniente do latim e significa “tormento que se aplica a um acusado”. Na tortura encontramos a dor por intimidação, coerção, chantagem e repressão utilizada como meio de adquirir informações ou então, como processo de violência físico-mental. O caso da menor de doze anos é apenas a ponto do iceberg de inúmeros tipos de tortura raramente noticiadas pela impressa. Ainda existem outros tormentos que acontecem na calada da noite quando a sociedade assume a sua boemia e a justiça se emudece nos grutões da vida. Analisemos, portanto, alguns deles.

Muito se fala sobre os crimes de guerra nos pós-guerra e pouquíssimas vezes durante a guerra, a isso damos o nome de tortura bélica. Pesquisadores já comprovaram que a tortura psicológica utilizada nestes conflitos tem o mesmo efeito que a tortura física. A única diferença é que são evidenciados em longo prazo. Por tortura bélica compreende-se a privação do sono, a penúria da prisão, as posições físicas desumanas e amuadas, os olhos tapados com venda por difusos dias, o rosto encapuzado, a alimentação minguada e o desnudamento humilhante de pessoas. Tais circunstâncias aconteceram nas Ilhas Bálcãs na década de 90 e continuam sendo repetidas pelos Estados Unidos no Iraque e na base norte-americana de Guantánamo em Cuba. Algo muito distante das comissões internacionais dos direitos humanos.

Ademais, não podemos nos esquecer da tortura social. Esta acontece de forma mais presente e menos percebida. São torturados socialmente os milhares de brasileiros que não têm o que comer, o que vestir nem onde morar. A tortura acontece no cotidiano de pessoas flageladas pelo desemprego e consideradas fenômenos marginais do capitalismo. Não possuem poder de compra, não são formadas dentro de uma consciência crítica, não são educadas para viver em sociedade e a única herança que têm é esperança de dias melhores muitas vezes corroídos pela dor de fome em nível zero. A conseqüência é a morte cotidiana de famílias, sem nome e sem história, sacrificadas pela ganância do sistema vigente.

Camuflada nos grandes pólos rurais está também a tortura provocada pelo trabalho escravo. A história do Brasil, desde a época da dominação portuguesa e espanhola até os dias atuais, é marcada pelo trabalho escravo, principalmente de mulheres e crianças. Para muitos a Lei Áurea de 1888, sancionada pela Princesa Imperial Isabel Leopoldina, ainda não foi assinada. No silêncio das fazendas muitas matas são derribadas para a viabilização de novas pastagens e carvoarias são construídas para metalúrgicas de ferro e aço à custa do escravismo. São situações de exploração alicerçadas à distância das grandes metrópoles. O Nordeste é a testemunha ocular desta realidade cruel e inumana de maus tratos e violência!

Mais adiante e em situações limítrofes encontramos a tortura da mulher provocada pela brutalidade de seus respectivos companheiros. Além do respeito perde-se também a própria dignidade. Os maridos tornem-se proprietários de suas esposas. A relação apresenta-se, agora, como coisificada, na qual a mulher é posse do homem. Segundo o Centro de Estudos e Pesquisas do Desenvolvimento da Sexualidade Humana, o espancamento de mulheres acontece por problemas psicóticos dos maridos, pela falta de diálogo no lar, pelo alcoolismo masculino, pela insatisfação sexual do comparsa e pela auto-imagem fragilizada do homem. A insegurança pessoal somada ao ciúme obsessivo compõe um quadro dramático, no qual a vítima assume o sentimento de culpa, admitindo a situação como predestinação e dificilmente procurando a ajuda da família, de um psicólogo ou de um advogado.

Finalizemos com a frase lúcida e inteligente de quem consegue avaliar a sociedade sob o crivo da crítica, da fé e da razão quando se fala de tortura política no séc. XXI: “No Brasil, a difusão do medo, do caos e da desordem tem sempre servido para detonar estratégias de neutralização e disciplinamento planejado do povo brasileiro. Sociedades rigidamente hierarquizadas precisam do cerimonial da morte como espetáculo de lei e ordem. O medo é a porta de entrada para políticas genocidas de controle social” (Vera Malaguti Batista).

Na verdade não existe situação que justifique o estabelecimento da tortura como algo instituído. Que junto ao movimento carioca de defesa dos direitos humanos possamos dizer e lutar: pela Vida, pela paz, tortura nunca mais!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Minha “política” é o Evangelho!

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“Aqueles que não gostam da política são governados por aqueles que gostam.” Trata-se de um pensamento que expressa a realidade deturpada daquilo que chamamos de “política”. Palavras como corrupção, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, desvio de verbas públicas, cargos comissionados, nepotismo parecem estar associadas ao exercício do poder tantos são os escândalos que vemos todos os dias. No exercício da política, muitos são aqueles que trocam os interesses do povo pelos negócios escusos e sorrateiros dos partidos ou mesmo pessoais. Infelizmente, muitos daqueles que deveriam defender a causa dos pobres acabam traindo-os, quando afugentam dinheiro público em benefício próprio. Compram-se casas, adquirem-se carros, pagam-se viagens, constroem-se hospitais, aumentam-se alqueires de fazendas, inauguram-se contas no exterior “financiadas” por nós, contribuintes. De eleitores, nos transformamos em mantenedores do luxo, das frivolidades e da vida fácil na política, desde a federal à municipal. É triste avaliar, mas, em vários setores governamentais, a política tornou-se sinônimo de corrupção.

Assumir a verdadeira política é uma vocação humana e social visando o bem comum. Antes de pertencer a um determinado partido, muitos políticos deveriam pertencer ao povo que os confia e delega um mandato. Ele é outorgado pela população civil. A história comprova que não poucas vezes por detrás dos títulos de presidente, senador, governador, deputado, prefeito e vereador estão as histórias de tantos Joãos e Marias oprimidos pela fábula do poder, ludibriados pela esperança nas promessas feitas em palanques e massacrados pela pobreza cotidiana que perdura e cresce. Trair a estes pequeninos e se enriquecer às suas custas são o mesmo que ferir o coração do Pai Eterno.

O atual sistema tem feito os ricos cada vez mais ricos e os pobres infinitamente mais pobres, tanto é que, abaixo dos pobres, já existem os “miseráveis”, uma, por assim dizer, “sub-raça” de homens que matam a fome e acabam não vivendo como merecem: pessoas que não têm o que comer, o que vestir nem onde morar. Estes últimos são os filhos diretos da miséria imerecida e das doenças negligenciadas pelo poder público: dengue, febre amarela, cólera, leptospirose, diarréia, desnutrição e malária, capazes de matar 226 brasileiros por dia. Um total de 82,5 mil mortes por ano como conseqüência explícita do abandono e do descaso público em relação à saúde. Muitas das pessoas mais próximas de mim já contraíram dengue. Estou na fila dos que em breve vão começar a sentir estes sintomas do descaso público.

No exercício presbiteral, tenho sofrido com o sofrimento do povo. Pessoas acorrem ao Santuário e partilham suas experiências de dor e de indignação política. Candidatos que tiram o último centavo para fazer um concurso público já previamente definido antes mesmo das provas serem realizadas; usuários vexados com o descaso do transporte coletivo tanto na qualidade quanto na segurança; romeiros que pagam impostos e não têm direito a um ônibus direto para o Santuário; mães e pais de família que suam durante o dia para serem baleados após um dia de serviço. Onde está a segurança pública, a educação, a assistência social, a saúde de qualidade?

No meio disso tudo, me resta uma fresta de esperança. Que as pessoas pensem nas outras! Que o egoísmo seja deixado de lado! Que o bem comum seja colocado como centro das atenções do poder público! Que ninguém aproveite das oportunidades mais sutis para se colocar como “bonzinho” usando a imagem dos que lutam pelo bem comum!

Vamos rezar pelos nossos políticos. A tentação do poder que corrompe e não se traduz em serviço está na alma de todo ser que respira. Até o Cristo foi tentado pelo Diabo! Como não seria com aqueles que estão diante dos oásis financeiros das oportunidades de se enriquecerem facilmente?! Rezemos e não fiquemos calados diante deste mundo sem Deus! Digo com clareza que O EVANGELHO É A MINHA POLÍTICA!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Inferno: Castigo Divino?

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Conhecido por Sheol na cultura hebraica e por Hades na mitologia grega, o inferno tem sido tema de profundos questionamentos e contundentes distorções ao longo da história. Em alguns casos, por detrás da doutrina do inferno estão escondidas as maldades humanas projetadas em Deus, sendo resultado de: “agressões não trabalhadas ou não vencidas, supremacia do superego, fantasias sobre vingança e desejos de onipotência, tudo isso se deixa legitimar, recorrendo a interpretações fundamentalistas de textos bíblicos. Reações psicóticas de pânico e desejos de aniquilação se apresentam como causas macrocósmicas” (Herbert Vorgrimler).

Antes de condenar, Deus deseja salvar. Sua atuação é em vista da salvação e não da condenação eterna. Em vez de gerar a perdição, a atitude divina gera a sadia liberdade. Anterior à punição está o resgate da pessoa humana. Antes de ser juiz, Deus é Pai! Meus irmãos, estejamos convencidos de que a Mão que cria e salva, não pode ser a mesma que aniquila e castiga! E é o Evangelho que nos orienta em não conceber esta atitude divina como relapsa ou laxista: “Não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12,47). Mas então o que é o inferno? É um lugar ou um estado da alma? Vejamos, portanto, quais são as atuais considerações da Igreja em seu magistério e da teologia em sua racionalidade crítica sobre este “enigma” da caminhada rumo ao coração de Deus.

A partir da concepção grega do mundo e, por conseguinte, da Divina Comédia: poema narrativo de Dante Alighieri, a Idade Média formulou a visão tradicional do inferno. Em primeiro lugar, há o diabo e os seres inferiores, chamados demônios. Todos têm aparência grotesca e corpo avermelhado. Sabemos que na literatura a cor vermelha simboliza a traição. O diabo também possui tridente: um cetro de três dentes simbolizando o domínio que exerce. Há ainda outros símbolos como: enxofre, choro, caldeirão, mar de fogo, entre outros. Vale ainda ressaltar que quanto mais símbolos têm uma determinada realidade, menos conhecimento possuímos dela. O símbolo é ausência de conhecimento.

Partindo da fé bíblica podemos crer da seguinte forma:

1. O inferno é a total desolação da pessoa humana após a morte (clínica e real) e se consuma como a ausência de toda a graça e não-salvação;

2. Muitas vezes e das mais variadas formas, o inferno foi utilizado e, continua sendo, por algumas denominações “ditas cristãs”, somente para submeter e amedrontar;

3. Deus não quer e não envia ninguém para o inferno. Na verdade, este é o resultado da amargura eterna de não viver ao Seu lado. A maior dor da criatura é estar longe do Pai-Criador;

4. O inferno é conseqüência direta da “limitação ou maldade da própria liberdade: é porque nós escolhemos” (Queiruga);

5. Deus nos sonhou dentro de um projeto belo e de vida e não monstruoso e de morte, como se apresenta no inferno;

6. No inferno temos a associação da morte como uma experiência de encontro com as nossas misérias e a nossa limitação humana. O Pai Eterno, rico em bondade, faz a sua proposta de amor à pessoa, convidando à mudança de vida: “a aceitação dessa proposta exigirá conversão total de tudo aquilo que dentro da pessoa ainda é oposto ao amor de Deus. Teoricamente, é possível que alguém, até na morte, se negue a mudar” (Renold Blank). A negação de tamanho amor é uma escolha da pessoa e não uma opção de Deus. Justamente por isso, aquele que nega está se afastando totalmente do Amor e assumindo uma morte eterna e consciente – isso é o que se pode denominar “inferno”. Existe inferno pior que este? Acredito que não;

7. O inferno é a negação a Deus. É não aceitar Seu projeto! Nega-se em vida e agora se nega na morte ao amor de Alguém que faz tudo pela felicidade humana;

Por fim, vale ainda ressaltar que a maior esperança do Cristianismo é o próprio Cristo! Ele é a razão da nossa esperança tanto na vida quanto na morte!“Baseados nessa esperança, somos capazes não só de superar as nossas angústias, frente a uma possível situação de inferno: seremos capazes, também, de começar a superar toda e qualquer situação de inferno, aqui na terra. E a gente se pergunta se haverá pessoas no inferno. Não sabemos. É possível. Esperamos que não” (Renold Blank).

Por fim, não brinquemos com o inferno e nem fiquemos inculcando-o na vida das pessoas! Deus precisa de filhos e não de escravos! Ele é Pai e não um tirano do além! Quantas consciências já foram deformadas ao terem medo de Deus em vez de servi-lo por amor!? Estejamos atentos para não nos transformarmos em profetas de catástrofes na vida de um povo que vive na calamidade do cotidiano e no desastre da pobreza. Cuidado para não oprimirmos em vez de libertar! Aprendamos com Wittgenstein: “Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. O mesmo vale para os pregadores da possessão no neo-pentecostalismo: Daquilo que vocês não sabem, é melhor se calarem para não destruírem histórias e não criarem doenças psicológicas!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Vale a pena Amar!

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Vivemos na época dos mais variados tipos de messianismo. Uns prometem a felicidade perene, outros a vida fácil na ausência de problemas, outros ainda são mais imprudentes ao anunciar uma existência totalmente desprovida de sofrimentos. A ideologia da prosperidade não é algo presente só na história do Antigo Israel, mas também nos dias atuais. Infelizmente, uma grande parte das pessoas acaba se esquecendo de que o Evangelho de Jesus de Nazaré foi marcado pela cruz. Não falamos do sofrimento pelo sofrimento nem da dor pela dor. Contudo, não nos esqueçamos que a divina humanidade do Filho de Deus foi chagada pela tirania dos déspotas deste mundo. Por isso Evangelho que prega ausência de dificuldades não é Evangelho de Jesus Cristo!

Vamos voltar, num momento, nossa atenção para o Jesus Histórico, que viveu na cidade de Nazaré, morou em uma vila interiorana, considerada insignificante para o Império. Nosso olhar se detém na vida de um Deus que quis aprender a andar, a se alimentar, a chorar e a ser pessoa. Um Deus capaz de esvaziar de si mesmo para assumir a vivência de filho de Maria e José. Um Deus que não interpretou um personagem, mas assumiu uma profissão: carpir a madeira de sua terra para só depois lapidar os corações de seus seguidores. Jesus não falava as grandes línguas da época: o grego e o hebraico. Pronunciava um dialeto: o aramaico. Nasceu pobre, viveu como pobre e morreu pobre. No entanto, a pobreza de Jesus significou a riqueza da verdade e da graça de Deus. Justamente por isso, Ele teve grandes conflitos com as figuras pagãs e religiosas da época. Ser verdadeiro em uma sociedade fundamentada na mentira é criar complicações para si mesmo. Comportar-se com sinceridade absoluta em um mundo dominado pela prática falseadora da exploração é atrair problemas.

Jesus não era um político, nem um filósofo e muito menos um sábio do Oriente. Antes mesmo de ser considerado mestre ou guru de um grupo religioso, seu objetivo maior era fazer com que as pessoas pudessem participar de sua missão: ao abraçar o Amor do Pai e instaurar o Reino dos céus na concretude da história. Jesus era uma pessoa integrada à vida humana, mas com as raízes fincadas no coração de Deus. Sua pátria eram os desprezados e os abandonados da sociedade. A vida do Filho de Deus foi a expressão mais concreta de dizer que “fora dos pobres não há salvação”, pois Ele viera para os desvalidos deste mundo.

Se quisermos ser fiéis a Jesus precisamos existir para aqueles que Ele existiu: órfãos, crianças, viúvas, leprosos, mulheres, prostitutas e cobradores de impostos. Por meio de um olhar compassivo e de uma atitude misericordiosa, esses supracitados abandonavam o caminho errante para assumirem a vida de peregrinos-discípulos do Filho de Deus. Neste sentido, o converter-se não era somente a exclusão do pecado, mas, além disso, era a transformação da realidade mais profunda do humano.

Jesus não veio ao mundo para pregar uma doutrina, não trouxe uma revolução política ou uma reforma no sistema. Pelo contrário, sua pregação era o testemunho de vida: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Não possuía verdade a inculcar ou idéia a propor senão a existência de um Deus apaixonado pela pessoa humana: “porque Deus é amor!” (I Jo 4,8). Contagiava as pessoas pela simplicidade de sua palavra e vida. Qualquer um que passasse pelo Seu caminho acabava seguindo-o: “fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: ‘Vem e segue-me’” (Mc 10,21). Jesus de Nazaré atraía as pessoas para Deus e justamente por isso elas eram capazes de abandonar casa, pessoas e trabalho: “E, deixando logo as suas redes, o seguiram” (Mc 1,18). Os religiosos da época eram repressores, moralistas ao extremo e puritanos. Viviam da lei pela lei: “Eles colocam pesados fardos e com eles sobrecarregam os ombros dos homens. Fazem todas as suas ações para serem vistos” (Mt 23,4-5a). A única lei de Jesus é apresentada pelo Evangelho: “Mestre, qual é o maior mandamento da lei? Respondeu-lhe Jesus: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas’” (Mt 22,36-40).

Jesus foi e continua sendo um divisor de águas na história da humanidade. É respeitado e reverenciado pelas grandes religiões monoteístas: cristãos, judeus e muçulmanos. Infelizmente, muitos daqueles que falam de Jesus ainda não o conhecem de fato. Tantos são até capazes de elaborar bonitas pregações, de escrever esplêndidos textos sobre o Filho de Deus, de conceder as mais requintadas investigações referentes a Jesus e não O conhecerem em profundidade. A verdade é que existem muitas informações e pouquíssima experiência de fé em Jesus. Falamos demais de leis e corremos o risco de esquecermos da força redentora do amor. Não poucos são os que afirmam: “Se você segue a lei, será bem-sucedido. Se vive por amor, será um fracassado. É uma pena, mas é assim: no mundo, a lei tem êxito, o amor fracassa. Por outro lado, em Deus o amor tem êxito, a lei fracassa. Mas quem se preocupa com Deus?” (Osho Rajneesh).

É preciso renovar nosso compromisso com o Cristo que morreu por amor de nós e ressuscitou para nos salvar. Devemos experimentar esse amor encontrando ali o fundamento e sentido maior de nosso ser e existir nesse mundo. Devemos deixar o exemplo de Jesus tranformar nosso coração e nos fazer ainda mais criaturas solidárias, principalmente com os “pobres de Deus”, aqueles desprovidos de tudo e que não podem nos oferecer nada em troca de nossa ajuda e solidariedade.

Amar do jeito de Jesus vale a pena!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Vida nada “big” num mundo nada “brother”

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Um fenômeno de alcance mundial, em todas as classes e idades, tem sido os chamados reality shows. A maioria deles é produção estrangeira adaptada pela comédia da vida privada à moda brasileira. Pessoas, antes, anônimas e cidadãos comuns viram celebridades nacionais e em pouco tempo tornam-se devedores e acorrentados pelos tentáculos da mídia contraproducente. Uns são chamados de “ídolos”, outros passam pelas casas da “fama” e se autodenominam “artistas”, outros ainda assumem a “troca de família”, enquanto os demais competem violentamente, entre si, para se autoproclamarem “aprendizes” em um jogo nada justo por sinal. Todos acabamos conhecendo e sabendo do assunto, mesmo não sendo assíduos telespectadores destes programas. A mídia é muito forte e a polêmica sobre os fatos toma conta dos assuntos de roda e mesa e praticamente ninguém consegue se isentar.

A palavra fenômeno é originada do grego phainómenon e significa “coisa que aparece”. No entanto, os reality shows não só aparecem e fazem aparecer, mas, sobretudo, acabam ferindo a sacralidade da vida real, ao fazê-la um espetáculo de telespectadores ávidos pela indiscrição moral e ética. Não são poucos aqueles que acabam se projetando acima dos personagens oferecidos, a ponto de descartá-los como se faria com um objeto. Coloca-se em paredões e tira-se de cena os “rostinhos” e os “jeitinhos” que não agradam ao “gostinho” do público. Vidas são coisificadas, pessoas são instrumentalizadas, realidades viram fetiche de um mundo alienado pela vontade de controlar a existência de outrem.

O gênero do reality show possui fundamentação histórica datada de 1948, a partir do livro Mil novecentos e oitenta e quatro (1984), do escritor indiano Eric Artur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell. Nesta obra, o autor utiliza do futuro para narrar um romance pessimista sobrevindo na Inglaterra. A história tem o pontapé inicial com a formação de um megabloco oceânico, que na narrativa significa a junção de todos os países, com seus cabais oceanos, em um único grupo. O respectivo bloco vive imerso no regime totalitarista, no qual Winston Smith, um funcionário do partido IngSoc, assume as vezes de ator principal. Sua missão é verbalizar as experiências sofridas pelo totalitarismo fascista da Itália e nazista da Alemanha. Por outro lado, a função do governo é reprimir pelo medo a todos aqueles que se oponham ao sistema. Todos são vigiados pela “polícia do pensamento” através de uma teletela, isto é, um aparelho de massificação, capaz de captar em áudio e vídeo a vida dos cidadãos, no intuito de controlar suas consciências. Juntas, as pessoas são procuradas e entretidas por um ser onipresente das teletelas, apontado como o “Grande Irmão” (Big Brother). Vale ainda ressaltar que até mesmo o título do livro 1984 já é uma crítica invertida à tirania dos sistemas políticos de 1948. George Orwell faz da década de 84 um trocadilho de seu tempo na década de 48.

Vigiar a vida das pessoas é uma forma de controle déspota. Colocar câmeras sobre as individualidades é fazer dos partícipes produtos da nossa alienação fugaz. A necessidade de verificar a vida alheia é um meio bestial de construir uma sociedade que não respeita mais os limites do privado. Por conseguinte, expor a vida em um reality show, na obstinação por fama e dinheiro fáceis, demonstra a carência de nossas instituições sociais que não têm mais nada a oferecer senão um complexo vazio de inventividade e valores.

Passando pelos nossos supérfluos “ídolos” brasileiros ou estrangeiros, adentramos, por exemplo, a desusada Casa dos Artistas, para nos determos no “Casamento à Moda Antiga”, no “Circo do Faustão” e logo em seguida vermos a “Dança dos famosos” com ou sem gelo, e por último nos depararmos com a Supernany de uma vida fútil. Um jogo de prazeres proveniente do besteirol capitalista com seus: Americas Next Top Model (no Brasil “Batalha dos modelos”), Extreme Makeover: Home Edition (onde se constroem casas populistas em sete dias), Laguna Beach: The Real Orange County (semelhante ao “Na Terra dos Ricos” do canal Fox), Miami Ink (um estúdio de tatuagem com depoimentos dos clientes), Popstars (é o programa original dos Ídolos no SBT e do Fama na Rede Globo), Project Runway (uma competição eliminatória de estilistas desafiados pela escravização da beleza pela moda), The Apprentice (produzido e apresentado por Donal Trump. No Brasil é comandado pelo empresário Roberto Justus), The Real Wedding Crashers (inspirado no filme Penetras Bom de Bico), The Simple Life (programa norte-americano, no qual socialaites visitam o mundo da miséria imerecida dos pobres), e por fim, para não cansar a sua cabeça, o Survivor (adaptado no Brasil em dois programas: o primeiro que deixou de ser exibido No limite e o segundo com o nome de O Conquistador do Fim do Mundo).

Estas são algumas expressões televisivas da ausência de respeito pela inferência coletiva na individualização da pessoa humana. O ser humano não foi criado para servir de divertimento às massas deturpantes da realidade, mas, pelo contrário, para ser um agente da história na construção de um mundo melhor, no qual usam-se as coisas e não as pessoas.

A mídia está diante de nós. Cabe-nos, portanto, aprender a separar o “trigo do joio”, para viver humana e dignamente como filhos amados do Pai Eterno! Do oposto sejam todos bem-vindos aos reality shows: um mundo de ilusão e falsidades! Uma conjuntura marginalizante na qual as pessoas assumem máscaras e interpretam papéis com o objetivo de serem aprovadas pela opinião – desculpem a expressão– da “galera”!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Um ícone chamado Perpétuo Socorro

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Antes da leitura prévia deste artigo, paremos um pouco diante do ícone de Nossa Senhora da Paixão, mais conhecido pelo título de “Perpétuo Socorro”, tão venerado nas Igrejas de Goiânia e nos locais por onde passaram os Missionários Redentoristas. Deixemo-nos interpelar pelo olhar desta mulher que nos segura pelas mãos. Permitamos que Maria incite a nossa mente e o nosso coração para o Cristo. Aceitemos que ela mesma nos aponte o seu Filho como caminho para que a nossa vida tenha um norte e a esperança tenha sentido. Contemplemos na realidade mais profunda do nosso ser a presença simples daquela que invocamos como a “Mãe do Perpétuo Socorro”.

A palavra “perpétuo” é proveniente do latim “perpetuu” e significa: aquilo que dura para sempre, que é contínuo, sem interrupção, inalterável e eterno no Coração de Deus. Já a palavra “socorro” se aproxima de socorrer, derivada do latim “succurrere”. Esta última traz em seu sentido etimológico as seguintes expressões: defender com a própria vida, proteger um indivíduo, prestar auxílio a outrem, acudir nos momentos de dificuldades, prestar socorro em perigo de morte, remediar para prover do necessário, evitar o mal e, por fim, esmolar o favor de alguma pessoa. São títulos fortes que expressam a realidade espiritual e cristã da manifestação artística do Sagrado.

A arte dos ícones contradiz o fetiche capitalista e a existência mercantil ultramoderna, pois não é produzido pelas leis do mercado, todavia, pelas leis da fé. Antes de ser pintado, o ícone é rezado. Anterior à confecção está a contemplação. O discurso sagrado que fundamenta a feição dos ícones orientais é a teologia da encarnação. Neste sentido, é o próprio Deus quem se encarna nas formas artísticas para ser adorado e reconhecido como Deus e Senhor nosso.

Agora, detendo-nos mais precisamente no ícone do Perpétuo Socorro, visualizamos o quadro original, medindo 53 x 41,5 cm, com o rosto pobre e sofredor de uma mulher. Ela está no centro artístico, contudo, não é o centro teológico da obra. Por trás da consternação de Maria apresentam-se os símbolos da dor e da paixão que ora se aproximam do pequeno Jesus. Os olhos de Maria são grandes e pintados de forma exagerada para expressar sua atenção diligente por nossas necessidades. No entanto, os lábios são apoucados para demonstrar o silêncio e a reverência pelas dificuldades perenes de nossa história. Estamos defrontes à Mulher que há todos os instantes nos remete ao homem Jesus quando afirma: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).

Maria está vestida com uma túnica vermelha, roupa esta utilizada pelas virgens nos tempos de Nazaré. A cabeça e o restante do corpo são revestidos por um manto de cor azul com forro verde que significam a maternidade e a divindade de Maria, presente também em todas as Marias dos tempos hodiernos. Outras interpretações vão afirmar que as cores azul, vermelha e verde eram distintivas da realeza e só utilizadas pelas Imperatrizes do passado. No manto azul, robustecido com traços dourados, há uma estrela de oito pontas que pode ter sido acrescentada por um artista posterior no intuito de demonstrar que Maria é a estrela que reflete o sol da justiça. Trata-se de uma teologia oriental que apresenta mais Maria da fé do que a Maria histórica que viveu ocultamente em Nazaré. No entanto, ambas as realidades, fé e história, vão conceder força e vigor para aquilo que chamamos de “Perpétuo Socorro”.

Além da figura mariana, verifica-se mais adiante a presença substancial de dois arcanjos. Seus nomes são denotados pelas letras gregas sob suas cabeças que diz: Miguel e Gabriel. Estes dois, antes mesmo de serem apresentados como emissários da glória majestosa de Deus, como bem se percebe na doutrina angelical tomista (de São Tomás de Aquino), são colocados como mensageiros da paixão. Eles não trazem nem trombeta apocalíptica nem a harpa angélica, mas sim os instrumentos da dor e da agonia de Jesus de Nazaré: a cruz e as lanças. No ícone também se inverte o relato evangélico da anunciação de Maria. Em vez de anunciar o nascimento do Filho do Homem, o anjo prediz a morte do Filho de Deus.

No colo de Maria está uma figura trêmula e frágil, um Deus que parece mais humano que Divino. Estamos diante da Criança que tem medo da paixão e, por conseguinte, da morte: fruto de sua opção pelo Reino do Pai em vista dos pobres e abandonados. É um Menino que, contemplando os instrumentos da paixão, corre tão velozmente para os braços da Mãe que deixa as sandálias perder do pé. No simbolismo da sandália está a insegurança de alguém com a vida sob o pêndulo. Na narrativa bíblica, os pés são lavados e beijados, enquanto que no ícone ficam desprotegidos. Perder a sandália é não conseguir andar por muito tempo nos caminhos pedregosos da existência. É prefiguração da morte. Ficar sem sandálias é despojar-se de si mesmo para assumir a ferida do humano. Não possuir sandálias nos pés é adentrar o caminho da mais absoluta entrega por meio da encarnação, paixão e ressurreição.

Adentrar o caminho iconográfico do Perpétuo Socorro é por fim tornar-se “perpétuos socorros” para o mundo que tem fome e sede de Deus. Ser cristão é assumir a missão de agir como socorro perpétuo em vista do amor e da consagração da vida. Vale ainda ressaltar que o “Perpétuo Socorro” nos faz assumir uma nova visão de Deus debaixo para cima, do temporal para atemporal, do finito para infinito. Também nos faz descobrir um novo rosto de vida cristã, entendendo-a como serva e não como senhora. Por fim, a amorização da vida nos faz compreender as novas e futuras relações na Igreja e na sociedade em vista da implantação cotidiana do “Perpétuo Socorro” de Deus em nós e por nós!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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