Educados para o amor

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Os cristãos hodiernos precisam renovar a paixão pela pessoa de Jesus de Nazaré. Muitas vezes a vida cristã se apresenta como um caminho de rugas e envelhecimento precoce, no qual esquecemos a jovialidade do amor e do evangelho. Quando estamos enamorados por alguém, procuramos sempre agradar, ser útil, para tal vestimos a melhor roupa, nunca chegamos atrasados, em hipótese alguma demonstramos raiva, concedemos o melhor de nós e até nos sacrificamos em função do (a) outro (a). É isso que acontece com os apaixonados. Da mesma forma, precisamos recuperar o “enamorar-se por Deus”, fazendo dEle a razão e o centro convergente da existência. Ao nos enamorarmos pela pessoa do Pai Eterno saímos de nós mesmos para irmos ao encontro do outro, aceitando-o em sua totalidade, não fazendo dele uma extensão de nós. Portanto, sem demagogias, a oração é cuidar do nosso caso de amor com Deus até nos transformarmos nAquele que amamos. “A meta de toda oração é a transformação do homem em Jesus Cristo. Qualquer relação com Deus que não conduz a esta meta é inconfundivelmente fuga alienante. Certamente a meta nunca se atinge. Mas a vida deverá ser um processo de transfiguração: a troca de uma figura por outra […]. Repetir outra vez em nós os sentimentos, atitudes, reações, reflexos mentais e vitais, a conduta geral de Jesus”(Inácio Larrañaga).

Todos os grandes místicos da Igreja, por meio da oração, descobriram o que é ser pessoa em Deus. A oração os tornou integrados, centrados, afetivos, sexualizados e não-assexuados. Na escola da oração, homens e mulheres santos aprenderam a resgatar sua respectiva masculinidade e feminilidade. E aqui falamos do segundo aprendizado na escola do amor, a saber: conversão. A conversão é lutar para ser aquilo que se é, ou seja, um retorno fiel e constante às verdadeiras raízes do existir. Conversão é tornar-se pessoa, é construir-se a partir dos próprios limites e feridas que a vida não nos poupou.

Atualmente é modismo permear a vida cristã de slogans teológicos, enfatizando, principalmente, as informações sobre a pessoa de Jesus. Só que o Cristianismo não vive somente de informações. A proposta de Jesus e de seu Evangelho vão muito além de informações, uma vez que está ligada ao campo da experiência. Destarte, no momento em que valorizamos demasiadamente as informações, nos esquecemos da experiência. Já é fato palpável nos determos com pessoas que anunciam com profetismo o nome do Senhor Jesus, que escrevem “sumas teológicas” sobre o Messias, que operam curas, milagres e prodígios e que, infelizmente, não conhecem a pessoa de Jesus de Nazaré.
Dessa forma, aqueles que assumem a conversão como um vir-a-ser na pessoa de Jesus acabam por deixar de lado os extremismos da fé, para equiprobabilizar a informação e a experiência. Precisamos da doutrina, das verdades da fé e do evangelho, da teologia, mas, sobretudo, precisamos também experimentar todos esses fatos na individualidade da experiência da fé.

Assim sendo, há algumas palavras-chaves e motoras no itinerário cristão, são elas: renovar-se, examinar-se à luz do amor e pedir perdão. Ao mesmo tempo, aparecem outras um tanto diferentes das supracitadas, como: queda, fracasso, descontentamento, injúria, ruína, derrota e, por fim, covardia. Esta última é o antônimo da conversão. Os covardes não conhecem o Reino de Deus, pois se fecharam dentro de si. Não possuem o endereço da casa do amor. Não sabem o que é conversão, uma vez que não conseguem ir ao encontro do outro para encontrar o próprio eu. Diante dos desafios da vida, eles cruzam os braços e atribuem todas as controvérsias a Deus: Ele é o culpado, Ele que castigou, que tirou a vida. E é da covardia que nasce a pergunta: o que eu fiz para merecer isso?

Na escola do amor não existem merecimentos nem retribuições. Tudo é benevolência! Valemos por aquilo que somos e não pelo que temos ou fazemos. Cada sujeito é pessoa e não um mero objeto. Educados ao amor aprendemos a amar, a perdoar a nós mesmos, a compreender a vida na ótica de Deus: isso é conversão! Contudo, enquanto nos mantermos atados às nossas mazelas e feridas continuaremos a reproduzir na vida do outro tudo aquilo que sofremos. O outro passa a ser a projeção daquilo que não aceitamos em nossa história de vida, e por isso ele incomoda tanto. Mas, na verdade, somos nós que não nos aceitamos e decidimos não assumir o itinerário da conversão, pois preferimos reproduzir os monstros que ainda existem dentro de nós. Precisamos encarar nossos monstros e fazer as pazes com eles, para cessar a guerrilha interior e entregar todas as nossas armas diante de Deus. Quantas pessoas estão em guerra dentro de si! Tristemente, em determinados acontecimentos, não permitimos que o amor visite os nossos corações, mas somente por hoje permitamos que Deus mesmo nos diga: “Homem, considera que fui Eu o primeiro a amar-te. Não estavas ainda no mundo e eu já te amava, mundo nem mesmo era. Amo-te desde que amei a mim mesmo. Amo-te desde que sou Deus” (Santo Afonso).

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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Amar é deixar-se amar!

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De Deus viemos. Nele somos e existimos e para Ele haveremos de voltar: Nossa vida precisa ser uma expressão de louvor ao Pai Eterno. Na finitude da nossa humanidade, somos convidados a olhar para o nosso interior, reconhecendo que o Deus do Cristianismo é Amor: Misericórdia na Gratuidade, Bondade no Perdão, Caridade no sofrimento… O que dizer desse Deus? Não será Ele muito relapso ou extremamente permissivo? Não parece que Ele tudo crê, tudo espera e tudo suporta? Tudo desculpa…? Tudo perdoa? Mas, em função de quê tanto amor? Para que criar um Deus que parece mais um pedinte? Um carente? Um necessitado de amor e afeto?! “Povo meu, que te fiz eu? Em que te contristei? Responde-me” (Mq 6,3). Na verdade, precisamos concordar que o Deus do Cristianismo é um mendigo que esmola o nosso coração… É um Deus pobre e frágil, necessitado e abandonado, louco e enamorado de amor pela humanidade até o ponto de se fazer um de nós: humano, “porque eterno é seu amor por nós” (Cf. Salmo 136).

E nós quem somos? Não somos nós relapsos e permissivos diante da vida e das pessoas? Mesmo com as dificuldades interiores e sociais, continuamos crendo, esperando, suportando, desculpando e perdoando em função do amor. Na realidade, acabamos concordando com as nossas petições e com as nossas carências afetivas. Quantas vezes saímos por aí mendigando o amor das pessoas? Será que as cobranças nas relações, o ciúme como medo de perder, a necessidade de ser visto e amado, a vontade de aparecer com plumas e paetês diante dos outros não são pedidos de amor?! E até quando vamos continuar exigindo o amor das pessoas e penhorando a nossa própria vida? Inclusive continuando a buscar em outras fontes aquilo que somente Deus pode nos conceder? Olhemos para a nossa vida e reconheçamos que:

É tudo uma questão de empatia, não de simbiose. Na relação experiencial com o Pai Eterno, a pessoa continua sendo pessoa, Deus continua sendo Deus. Nenhum adota o lugar do outro, pois, do contrário, estaríamos assumindo um personagem e servindo a um deus mascarado. Quando se fala em empatia, nos remetemos ao endereço do amor, ou seja, ao coração de Deus! Adentramos à escola do Evangelho para aprendermos a olhar tanto a vida quanto as pessoas com os olhos misericordiosos do Pai. Assim sendo, somos impulsionados a calçar as sandálias do céu para descobrir a escola do amor. Para amar e ser amor são necessários alguns requisitos que descobrimos, paulatinamente, através da oração.

São muitas as definições do que é orar. Alguns irão defini-lo como cumprir ritos, rezar fórmulas prescritas, reproduzir idéias de outrem, entre outras. Contudo, a oração se coloca acima de todas as pré-definições, uma vez que ela é experiência de encontro, não com Deus diretamente, mas conosco mesmo em Deus. Por meio da oração nos encontramos com o nosso próprio eu, segundo os critérios do Pai Eterno. Justamente por isso que a primeira ordem do amor nos motiva a perguntar: Quem sou eu? E como é difícil responder a tal questionamento! Somente os mais fracos são capazes de respondê-lo, pois aqueles que se dizem fortes se debandam para o caminho da fuga do próprio ser. Têm medo de se olhar no espelho da vida e descobrir o monstro com o qual estavam lutando a vida inteira. Não conseguem nem mesmo sentar na cadeira da consciência para averiguar quão corroboradas estão suas vidas. Portanto, não é de se estranhar que a ausência de oração supõe o vazio existencial. Quando deixamos a oração para o escanteio, ocamos a nossa razão de ser e de existir em Deus. Deixamos de amar! Fraudalamos o amor e acabamos falseando o caminho rumo a Deus. Seja cristã, budista, hinduísta, maometana ou judaica, a oração nunca pode perder a sua característica peculiar de encontro consigo mesmo no Coração de Deus.

Assim sendo, enganam-se os que defendem que o gênero humano é escravo do pecado. Nunca fomos nem o seremos. A nossa única e maior escravidão é fugir do amor e o meio mais concreto para não fugir é embrenhar-se no caminho do encontro da oração intrapessoal. Por que temer tirar as sandálias dos pés e pisar nas sendas fecundas da vida? Não é a história pessoal um solo sagrado cuja sarça é o próprio Deus? Por que fugir da oração se não é ela uma experiência na qual desobstruímos a própria vida, para imprimir nela as marcas do Deus comunhão no Amor? Oração é encontro consigo por meio do Deus-conosco! É ouvir tudo aquilo que preferimos manter em silêncio, é deixar rolar a pedra de todos os assuntos que abafamos ao longo da vida, é desnudar-se diante do amor e deixar-se amar!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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Até tu, Brasil?

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Nos últimos dias, ficamos boquiabertos ao nos informarmos sobre o caso da adolescente de 15 anos presa em uma cela com 20 homens no Pará. Tal problemática acabou criando uma ferida no coração da Justiça e da política brasileira. No entanto, não podemos ficar míopes, pois a situação vai muito além de alguns fatos como o supracitado. Na verdade, o caso da menor é apenas a ponta do iceberg de um sistema prisional em crise e sucessivamente injusto, lento e desumano. Sem generalizações, podemos afirmar que o aparelho carcerário vigorante está necessitando de atenção política e precisa ser renovado desde os seus fundamentos éticos. Mesmo assim, não devemos nos esquecer dos inúmeros juízes, desembargadores, promotores, delegados e policiais que se esforçam para fazer da Justiça uma prática séria e coerente em sua prédica e prática. Alguns chegam a arriscar a própria vida na tropa de elite do cotidiano.

No tocante à população carcerária, os números falam por si. Segundo a Agência Carta Maior, “em dois anos, 500 mil brasileiros deverão estar atrás das grades. Mantendo-se a tendência atual, seria preciso construir um novo presídio a cada 15 dias” (Marco Aurélio Weissheimer). Hoje, mais de 50% dos encarcerados possuem idade superior aos trinta anos, 95% deles, antes do delito, viviam à margem da pobreza (o que não justifica o crime), 95% são homens e 12 % compõem a massa de analfabetos sociais e educacionais. Entre os dolos mais acentuados está a prática do roubo, logo depois, vem o assassínio e o tráfico de drogas. Mas os números não param por aí. De acordo com o Censo Penitenciário Nacional, a estimativa da população carcerária é de 148. 760 aprisionados. O cálculo nos faz perceber que o sistema vive uma precária ocorrência de superpopulação, sendo que as vagas nos presídios estaduais são de 72.514 detentos. Parece ironia, mas as vagas são maiores que a demanda, não de empregos, mas de crimes.

Naquilo que se refere ao cumprimento da pena, apenas 61,4% dos delituosos chegam a cumpri-la nos presídios estaduais. O restante, 38,6%, fica aguardando a sentença em delegacias provisórias nos mais variados Estados do País. O mais impressionante acontece quando a tarefa do Estado é assumida pelo crime. Em vez dos detentos serem reeducados pelo Estado, agora, são formados pelos comparsas de cela. Ao término do estágio criminal, o Estado devolve para a sociedade pessoas de maior periculosidade que outrora. A função estatal era nos entregar pessoas reconciliadas com sua história, prontas para iniciar uma vida mais justa, e não indivíduos que têm no presídio um manual de criminalidade e uma fábrica de delitos.

Além disso, vemos um cenário efervescente de violência em um país que não consegue ressocializar seus detentos e uma população que fica à mercê do crime. A veracidade criminal protesta por soluções políticas efetivas. “A segurança, valor pela qual todos clamam, esvai-se na autoria não apurada, nas provas invalidadas do inquérito, no excesso de recursos, na liberalidade com que as punições são perdoadas. Proíbe-se, constitucionalmente, o trabalho do apenado que, quando o faz, está sendo ‘cortês’ com o contribuinte. Permite-se a visita íntima, sem a devida cautela quanto à gravidez, jogando-se o destino deste fruto às expensas da caridade pública. Tripudia-se a memória dos mortos ao permitir-se a apelação em liberdade do condenado em júri popular. As injustiças praticadas contra as vítimas são mais sutis e menos visíveis, mas não menos cruéis”(Luiz Fernando Oderich).

A segurança é um dos valores sociais mais negligenciados no País, podendo ser considerada como o adultério da boa convivência social. Contudo, a violação dos direitos humanos dos criminosos não é uma maneira salutar para resolver esta problemática. Violência gera violência! Sabemos muito bem que antecedente ao crime está a falta de emprego, a ausência de estudo, a falência da instituição familiar e a diversão de jovens opulentos nos ocasos noturnos de Brasília & Cia. Colocar fogo em pessoas tornou-se um hobby para desestressar jovens inaptos. A que ponto chegamos, meu Deus? São tantos crimes que, algumas vezes, nos tornamos indiferentes. No fim das contas, a legitimação da vida criminal só acontece quando nos acostumamos com ela. Será que o País não está se habituando ao crime? Até que ponto a Justiça fala mais alto que o dinheiro? Não seria a vida criminal uma forma concreta para chamar a atenção de algumas autoridades políticas, insensíveis ao amálgama social?

Assim sendo, estaríamos utilizando da omissão legislatória se não apresentássemos as razões dos inúmeros crimes que assolam o nosso Brasil. Iniciando na pobreza, passando pela classe média e alcançando o ápice nos freqüentes índices de corrupção do País, o crime tem se tornado a profissão emergente de alguns. Pessoas que assumiam cargos com idoneidade, agora, se deixam contaminar pelo lucro ilícito, sendo capazes de vender o juramento proclamado pelo seu próprio ofício. Tristemente, a situação vem se consolidando na sutileza do ilegal.

Por outro lado, também constatamos a falta de renda orçamentária para qualificar o sistema prisional brasileiro. Alguns falam de privatização, enquanto outros defendem o investimento empresarial nos presídios, com o intuito de profissionalizar os detentos. Atualmente, apenas 28% dos presos desempenham um trabalho, ao passo que 72% ficam na ociosidade. Na mesma via, seguem aqueles que colocam a agilidade no julgamento dos processos como uma forma de solucionar a superlotação das cadeias. Entre prós e contras, o que vale é a busca de soluções eficazes para educar humana e socialmente aqueles que se deixaram perder pelos caminhos tortuosos da delinqüência.

Sem pessimismos, mas analisando a conjetura vigente, não podemos esperar muito das autoridades. O que dizer de um país que, no dia 24 de maio, comemora o dia do preso? As grandes profissões como a Medicina, a Arquitetura, a Teologia e tantas outras acabam sendo igualadas com o crime à medida que se instaura um dia para exaltar a figura do presidiário. Meus irmãos, o crime não pode ser honrado! Deve separar bem as coisas.

Por fim, nos recordemos de Jack London (escritor americano) ao afirmar a atuação da miséria imerecida na vida do povo assolado pela criminalidade. A saber: “Os rejeitados e os inúteis! Os miseráveis, os humilhados, os esquecidos, todos morrendo no matadouro social. Os frutos da prostituição – prostituição de homens, mulheres e crianças, de carne, osso e fulgor de espírito; enfim, os frutos da prostituição do trabalho. Se isso é o melhor que a civilização pode fazer pelos humanos, então, nos dêem a selvageria nua e crua. Bem melhor ser um povo das vastidões e do deserto, das tocas e cavernas do que ser um povo da máquina e do abismo.”

Que não sejamos nós os próximos a conceder os pêsames e a celebrar a missa de sétimo dia para a Justiça e a política do Brasil!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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Igreja “Plena”!

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No dia 29 de junho, por ocasião da Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, foi assinado no Vaticano, pelo papa Bento XVI, um documento que chama a atenção dos fiéis para que entendam a Igreja Católica como aquela que possui inteiramente a qualidade de promover, para o cristão, o caminho da salvação.

O título do documento é extenso justamente para oferecer um detalhamento sobre o que ele entende propor: “Respostas a quesitos relativos a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja”. O documento retoma alguns textos do Concilio Vaticano II, sendo curto e de fácil compreensão. Ratifica e esclarece ainda mais a missão da Igreja de oferecer aos fiéis os fundamentos mais concretos e favoráveis para viverem plenamente o cristianismo, desafio de todos nós que cremos. De outro lado, este texto poderá não ser muito bem aceito por aqueles que não comungam do pensamento da Igreja Católica e mesmo aqueles que poderão não compreender muito bem o teor daquilo que se apresenta no texto, fazendo abordagens e conclusões tendenciosas.

A Igreja tem o múnus e missão de ensinar seus fiéis e mostrar a todos o caminho seguro da fé e do aprofundamento da mesma através da prática cotidiana das virtudes evangélicas. Neste sentido, busca orientar os cristãos católicos para uma vida coerente com sua fé e aos não-católicos procura convidar e, algumas vezes, admoestar para que comecem um caminho que propicie estarem mais próximos daquilo que o Cristo ensinou.

De modo algum a Igreja pretende dizer que fora dela não há salvação. Num fragmento do texto temos a seguinte afirmação tirada do próprio Concílio Vaticano II: “… as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso ou sejam vazias de significado no mistério da salvação, já que o Espírito se não recusa a servir-se delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja católica” (Decr. Unitatis redintegratio).

A polêmica acontece porque existe uma certa “malícia” carregada de tendências anticatólicas e até mesmo proselitistas, em fazer entender que a Igreja acena aquilo que não acenou. Não existe erro ou exclusivismo em afirmar que ela possui os “elementos completos” do legado deixado por Cristo desde o início do cristianismo. A sucessão apostólica continua até os dias de hoje na Igreja Católica. O Papa é Pedro hoje! Sua missão continua a mesma e a Igreja foi experimentada ao longo dos séculos mantendo sua unidade, apesar das diversidades de tempos, pensamentos e culturas. Não creio, portanto, que haja brecha para críticas ou idéias de autoritarismo, exclusivismo ou fechamento como li por aí.

Os elementos essenciais para a salvação do homem se condensam numa única e dinâmica palavra: amar. Quem ama promove o bem, não deseja o mal do outro e possui o olhar amoroso e misericordioso do Pai sobre si mesmo. A Igreja entende muito bem que sua força e missão de promover uma compreensão adequada do verbo amar está arraigada em sua doutrina e pregação. Portanto, ela se vê completa nesta missão não impedindo nenhum diálogo sério e inteligente com outras formas de crer e viver o amor.

Ninguém é e nem pode se considerar igual a todos. Todos temos riquezas em vários níveis e sentidos. A unidade na diversidade da fé em Cristo ou no desejo de viver e promover plenamente o amor e a vida aqui na terra pode gerar para todos a salvação que vem de Deus.

Vivemos num mundo fragmentado por opiniões as mais diversas e formas de conduta complexas. Não é possível ficarmos com meias palavras. Podemos acabar ficando reféns ou escravos do relativismo e da insegurança. O tema do aborto, por exemplo, está em discussão no Congresso e poderá ser votado em breve. Para defender e aprovar este assunto encontra-se argumentos de todos os tipos. Um assunto como este merece nosso grito de indignação não somente como cristãos, mas como seres humanos que somos. A Igreja está empenhada profeticamente neste sentido em dizer que não se deve caminhar por esta estrada tenebrosa.

Realidades como esta e outras saltam aos nossos olhos nos tempos atuais e se tornam uma montanha de ensinamentos ditos “cristãos”, mas sem fundamento bíblico ou teológico que lhes sustentem. Dão-se “tiros” para todos os lados! Muitos resolvem pensar que são “bispos” ou “apóstolos” e criam denominações do nada. Outros pensam que Jesus foi desta ou daquela forma e saem por aí falando como se tivessem autoridade para tal. Uma verdadeira Babel! Não é brincadeira falar de Deus! Em meio a esta realidade é que a Igreja se apresenta, como um caminho seguro para viver o bem e eternizá-lo para a vida.

Percebe-se que no mais íntimo do ensinamento da maioria das outras igrejas cristãs o amor é o foco mais forte apresentado. A Igreja respeita e reconhece isso quando percebe a seriedade deste ou daquele seguimento. No referido texto da Congregação para a Doutrina da Fé ressalta-se sua autoridade em falar sobre o Caminho da Vida e da Salvação do ser humano.

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica do Divino Pai Eterno e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Quanto vale uma pessoa?

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Vivemos num mundo de consumo e mercadorias. Os bens de produção são manufaturados exageradamente, a saúde passa a ser negociada, a educação deixa de ser dever do Estado, a moradia é fantasiada pela opressão, e, por conseguinte, o trabalho passa a ter valor desonesto e resultado injusto. A situação fica ainda mais agressiva à medida que a própria pessoa torna-se produto cotado, lucrado e vendido pelo sistema neoliberal. Uns podem custar R$ 5 por dia; outros, R$ 380 por mês. Eis que se estabelece diante de nós a massa desumana daqueles que valem aquilo que o trabalho produz. São os chamados “filhos da pobreza”: fruto de miséria imerecida ocasionada pela desigualdade social.

Hoje o Brasil tem crescimento de 2,3% no Produto Interno Bruto (PIB), o que elevou para 130 mil o número de milionários que detêm o poder financeiro da nação. Segundo pesquisa da Fecomércio de São Paulo, feita a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a despesa total de algumas famílias do País é igual ou superior à despesa de toda a Região Norte, incluindo o Estado de Alagoas. São mais de 91 milhões mensais gastos com jóias, brinquedos e jogos, enquanto número espantoso de analfabetos e de subalimentados em termos quantitativos e qualitativos é privado do mínimo de dignidade humana e responsabilidade moral.

O clamor dos pobres precisa romper os tímpanos dos poderosos. Todos têm direito ao desenvolvimento econômico e político. Ninguém pode ser excluído do justo progresso social. Os emudecidos pela miséria não podem continuar sendo vítimas do sistema, uma vez que possuem a missão de agir como protagonistas da história. Sem ideologias, temos que combater todas as formas de realidades que desumanizam o valor incomensurável dos filhos de Deus! Esta importância Divina é totalmente distinta das cifras e lucros selvagens que violam a vida dos sofredores e lesam sua existência.

No coração dos excluídos há o sonho de ser liberto da pobreza, de possuir emprego que o valorize como pessoa e não como mercadoria, de trabalhar em condições dignas e de desenvolver-se social e intelectualmente. Não podemos falar só de desenvolvimento econômico, mas, sobretudo, de desenvolvimento integral, capaz de abranger todas as dimensões do humano, a saber: alma, corpo, mente e espírito. No entanto, são muitas as situações que coisificam a pessoa, fazendo com que ela se torne alienada e comerciável. O trabalho infantil e o comércio de prostitutas para o estrangeiro, ao lado do desemprego cruel e da exploração dos idosos, revelam a situação escandalosa em que a pessoa humana deixa de ser o princípio, o centro e o fim das instituições sociais (Cf. Const. Gaudim et Spes, nº. 25).

Para tal, não faltam os fatalistas pós-modernos que almejam justificar por meio de estatísticas e até mesmo biblicamente a diferença gritante entre ricos e pobres. A riqueza passa a ser interpretada como fruto da bênção prosperante de Deus. Assim sendo, não ter o que comer, onde morar ou o que vestir é sinal da maldição divina. Mas o que fizeram tantos pobres para merecerem tamanha maldição? Que tipo de pecado realizaram as criancinhas para serem torturadas e massacradas pela fome? Que expiação é essa, meu Deus, capaz de tirar o valor da pessoa humana, a ponto de transformá-la em um tipo de empecilho ao desenvolvimento dos ricos?

Na mesma direção aparecem outros que têm discursos superficiais, colocam o problema da pobreza no êxodo rural e na rápida urbanização das cidades em metrópoles. É problema da densidade demográfica. Mas a solução para que o valor do homem e da mulher seja resgatado não está no controle da natalidade e nem no aborto. Não se trata de matar vidas para salvar outras, mas de assumir histórias para promover pessoas. É opção existencial que se apresenta diante de nós: ou assumimos a comunidade fundamentada no valorativo da pessoa e no amor incondicional, ou escolhamos a sociedade maravilhada pelo êxito e pelo lucro à custa da morte dos pobres. Estamos entre a lei do amor e a da selva! Não sejamos como os Pilatos ou os Césares da história, prontos para lavar as mãos dizendo não ter nada a ver com isso. Solucionar a pobreza é missão que passa pelo Estado e se estende a todos nós!

Por isso, precisamos assumir a postura de testemunhas proféticas do Evangelho. Não podemos nos omitir frente à globalização transnacional, marcada pela injustiça no trabalho, em nível salarial e de direito. Não é lícito continuar assistindo “as pequenas empresas e os grandes negócios” em que até mesmo os funcionários são escolhidos graças às suas características físicas e não pelo monitoramento positivo na liderança ou por capacidade diretivo-intelectual. Aos patrões, chefes e empresários, cabe readquirir o valor dos seus trabalhadores na distribuição de salário que lhes conceda condições dignas de vida, para que ela se torne verdadeiramente humana! Que as situações cruéis de miséria, a opulência do sistema, o esplendor da riqueza em nossa consciência não nos façam réus perpétuos quando estivermos no tribunal da misericórdia, sendo valorizados pelo mais pobre dos pobres: Jesus de Nazaré!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Segurança é tudo na vida

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Segurança é tudo na vida! Parece óbvio falarmos assim. Mas é o óbvio mais complexo que desafia o ser humano em quase todos os seus limites do cotidiano. Ser e estar seguro enquanto pessoa faz depender uma série de possibilidades e sucessos na vida. Na verdade, nossa natureza tende normalmente ao outro lado: a insegurança. Todo ser humano carrega consigo grande carga de insegurança. Aqueles que fazem uso da palavra em público, mesmo o que aparenta saber muito bem do que fala e se porta com toda autoconfiança, é inseguro. Inseguro nos resultados de seu discurso e na conseqüência de sua decisão ou atitude. Quem manda e quem obedece, quem chefia e quem é subordinado, em tudo o que somos e fazemos acabamos por experimentar níveis maiores ou menores de insegurança. Não existe exceção a esta regra.

Por que somos assim? Por que a segurança depende do outro, do diferente; depende da reação. Foge definitivamente ao nosso controle. Ela não pode ser conquistada de forma definitiva, mas paulatina, temporária e situacional. Vamos nos tornando seguros. Vamos vencendo desafios, conquistando espaços, rompendo nossos limites. É uma luta constante que promove ou depõe uma pessoa.

Falando assim, poderia gerar uma impressão nostálgica da vida e da condição humana. Mas é isso mesmo! Na verdade, é preciso lutar constantemente contra a insegurança, através do autoconhecimento. Quem se conhece em seus valores, capacidades, possibilidades e desejos tem todas as armas que precisa para ser mais seguro. É uma atitude de dentro para fora, em primeiro lugar. Mesmo que dependamos das reações alheias e dos resultados exteriores para nos confirmar, é importante buscar a serenidade de estar pensando o melhor e inclinado para o bem de nós mesmos, do outro e da comunidade humana.

Existem pessoas, poucas, diga-se de passagem, que conseguem superar as barreiras da insegurança, passando adiante e se tornando verdadeiras promotoras de paradigmas. São homens e mulheres que sentem um impulso interior diferente de todas as opiniões dos outros. Conseguem ver mais longe, pensar adiante, enxergar melhor os resultados de suas atitudes e conduta de vida, mesmo que no momento todos reprovem. Enquanto os outros estão temerosos em atravessar um rio desconhecido e perigoso, esta pessoa aceita enfrentar o desafio de ir primeiro. Quando consegue, grita bem alto aos outros que ficaram: “Podem vir, não há perigo, é seguro!” Num primeiro momento, são vistas como loucas! Logo depois, seguem a sua trilha.

Na história, vemos uma boa quantidade de promotores de paradigmas: santos, profetas, cientistas, chefes de Estado, líderes, escritores, poetas, empresários, enfim, pessoas que mostraram novos modelos, novos rumos para que outros pudessem seguir. Enfrentaram seus próprios medos, superaram suas inseguranças, foram guiadas por uma força maior que potencializou suas vidas, deu-lhes asas e as fez enxergar além do horizonte. Venceram o limite do consenso das pessoas. Foram capazes de sair da mesmice. Tiveram coragem. Foram adiante.

Pessoas assim fizeram a diferença na história de seu tempo e continuam a existir nos dias de hoje. Muitas delas só serão reconhecidas realmente depois que forem ceifadas deste mundo. Estão por aí, entre nós ou aparecendo como verdadeiros monumentos de um novo jeito de ser, viver e atuar. Por não seguirem os padrões estabelecidos, são tantas vezes malvistas pelos seus “pares” e pelos “analistas críticos de plantão”. Quando atravessam o rio, convidando os outros a virem pelo mesmo caminho, escutam normalmente frases do tipo: “Eu já iria fazer isto” ou mesmo: “Quando eu quis atravessar a correnteza, estava muito mais alta” ou até mesmo: “O que ele fez qualquer um faria.” É o grande hino dos covardes!

O promotor de paradigma é uma pessoa motivada a ser alguém diferente e a fazer algo diferente. Sua motivação também é confirmada. Existem aqueles que o incentivam, que acreditam nas suas atitudes e no desenrolar de suas atitudes, que o reforçam para que continuem atravessando o rio perigoso e desconhecido que ninguém até então ousou tentar. Muitos foram e são motivados pela fé ou por pessoas de fé. Enfim, existe sempre um outro ou o Outro Absoluto que o impulsiona a arriscar e vencer suas inseguranças e tomar a grande decisão de começar algo diferente, inusitado.

Todos nós somos desafiados a vencer nossas inseguranças pessoais. Precisamos começar a fazer isso de dentro para fora, numa atitude de busca constante. Esta é a diferença que traz sentido para a vida. Confie mais em suas capacidades. Rodeie-se de pessoas que edificam a sua vida e lhe motivam a crescer e pensar oportunidades. Faça o mesmo, confirmando as boas idéias e os ideais nobres dos outros. Elogie à franquia! Critique para o bem real do outro, ajudando-o a crescer. Exercite-se no acolhimento e reconhecimento sincero daquilo que o outro tem de melhor. Confie na força de sua fé e dê saltos de qualidade, alçando vôos nunca antes imaginados e enxergando mais adiante. E… em tudo tenha Deus como meta maior a se chegar.

Pe. Robson de Oliveira Pereira
Missionário Redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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UMA CULTURA DE MORTE CONTRA OS PEQUENINOS DE DEUS!

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A vida é dom do céu e participação efetiva no existir do próprio Deus! Viver é vocação suprema e absoluta da natureza do Pai Eterno em nós! Dele viemos, Nele somos, nos movemos e existimos (At 17,28). E para Ele haveremos de voltar. A verdade cristã da vida está tanto em sua origem divina quanto em seu fim último: o Coração de Deus. Portanto, ao falarmos da vida humana estamos, ao mesmo tempo, falando da vida de Deus! Cada grito pela existência se apresenta como o clamor da criatura pelo seu Criador. É assim que a vida torna-se a manifestação sagrada do amor do Pai por nós. Por outro lado, o assassinato de crianças inocentes é a manifestação mais clara e cruenta de que uma cultura de morte está se estabelecendo dia após dia em nossa sociedade. Vivemos em uma realidade que aborta o maior dom que Deus nos deu: a vida!

Muitos são aqueles que conspiram contra a vida e acabam se esquecendo de que a promoção, a defesa, a veneração e o amor pelo dom da existência é um serviço confiado a todos nós. Independente de nascida ou não, a vida da criança já é digna em si mesma, uma vez que foi plasmada no existir de Deus e do homem. Na vida em gestação está o encontro do divino com o humano e do humano com o divino. Não se trata de um trocadilho de palavras, mas, sobretudo, de uma fusão de amor entre o dom do céu e o dom da terra, entre a eternidade e o tempo. Justamente por isso, que a vida, germinada no coração de Deus, não pode ser assassinada pelos tiranos da história. Ficamos boquiabertos quando o aborto passa a ser defendido pelas pessoas que por ora tem a obrigação de salvar vidas, tal como se observa em alguns ex-profissionais da saúde ou, então, naqueles que compõem a Comissão Tripartite, criada pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Estamos diante de uma questão existencial em que legalizar o aborto é o mesmo que legalizar a morte.

As leis que autetificam o aborto são contra o bem comum e carecem de validade jurídica, pois esta última tem a função de defender a vida. Legalizar o aborto é deixar de acreditar na lei civil. É um crime que lei alguma pode legitimar como prática lícita e natural, pois a vida é o fundamento da sociedade e matá-la é ir contra a ordem social. A morte dos inocentes não pode ser sancionada pela lei.

O aborto provocado é um crime abominável aos olhos de Deus, autor e consumador da vida. Aceitar o aborto nas consciências, nas culturas ou nas leis é sinal de uma crise moral e social. O aborto é um homicídio, pois se trata de interromper a vida de alguém que pede uma chance para nascer e continuar a viver! Muitas são as técnicas utilizadas para o aborto, que vão desde a curetagem até o esquartejamento. Contudo, está se tornando algo tão natural que muitos fetos já estão sendo comercializados para empresas de sabonetes e cosméticos devido à gordura natural, muito utilizada para a confecção de tais produtos. Vejamos bem se não estamos construindo uma sociedade em que até mesmo a vida virou mercadoria e passou a ser comercializada pelos lobistas industriais.

Em um contexto de crise, em que o dom da existência passa a ser algo relativo, aparece a Igreja, Mãe e Mestra da vida. A Tradição e o Magistério católicos ao longo do tempo sempre condenaram a prática do aborto. No nosso tempo, essa realidade ficou mais evidente em dois documentos: Humanae Vitae (da vida humana) de Paulo VI e Evangelium Vitae (Evangelho da Vida) de João Paulo II. Ambos condenam a prática do aborto como “crime abominável” e afirmam que a vida é sagrada por natureza, uma vez que se apresenta como ação criadora de Deus. Por sua origem divina a vida deve ser valorizada desde a concepção até a morte natural.

Diante deste contexto não podemos ficar inertes ou insensíveis. Somos chamados a assumir nossa missão de servidores da vida e lutar pela dignidade de cada criança que anseia por uma existência mais humanizada em contraposição ao desumano aborto. O sentido genuíno da vida precisa ser resgatado e não penhorado por interesses escusos e sanguinários! Acima da legalização do aborto está a legalização da vida, já tutelada por Deus desde o momento que passamos a existir. E é o Deus da vida e o sangue dos inocentes que clamam por nós! Defender o dom da existência não é missão somente dos cristãos, mas envolve a todos os homens e mulheres de boa vontade. Não é uma questão de credo, mas uma profissão de fé no valor da vida como manifestação primária e absoluta do amor de Deus.

Que sejamos testemunhas da esperança nestes tempos em que a vida perde sua característica de sacralidade. Que neste domingo dedicando a família, possamos manter os olhos fixos no Cristo, para que a vida tenha um norte e a esperança tenha um sentido. No coração de Deus, santuário da vida, busquemos forças para ouvir os inocentes que continuam a bradar: Deixem-me nascer! Dêem-me uma chance para existir!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

www.paieterno.com.br

Um Deus com rosto de Pai!

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“Deus diz ao homem: – Olhe, eu fui o primeiro a amar você. Você não estava no mundo. O mundo não existia, e eu já o amava. Eu amo você desde que sou Deus. Amo você, e desde que amei a mim mesmo, amei também você” (Santo Afonso).

Deus é Pai! Esta é a grande verdade de fé trazida pelo Cristianismo e destinada a mim e a você! Muitas vezes e dos mais variados modos a vida, a natureza, as pessoas nos convidam a contemplar o rosto do Pai Eterno, para sermos neste mundo a face do Amor. Há todos os instantes somos amados, compreendidos, bem quistos, cuidados e guardados pelo Pai do céu, não obstante as dificuldades que permeiam o nosso cotidiano.

Mas o que vem à nossa memória quando chamamos Deus de Pai? Será que Ele é igual ao pai terreno? Será que fica próximo de nós quando o invocamos? Então onde estava Deus no campo de concentração de Auschwitz na Alemanha? Onde se encontrava o Deus Todo-Poderoso, quando a bomba-atômica destruiu as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki? Estaria ele passeando pelo Jardim no dia onze de setembro, no momento em que as torres gêmeas do World Trade Center foram atacadas por aviões, em comando de terroristas? Por onde estaria Deus no dia 17 de julho quando o avião da TAM derrapou nas pistas do aeroporto de Congonhas matando 199 pessoas? No céu? No vôo 3054 ou no sofrimento de cada vítima? Diante de tamanhas atrocidades, carnificinas, fome, miséria e acidentes sem proporções, vêm à tona as questões: De fato, Deus é Pai? Podemos ainda contar com o seu auxílio?

Somente ao adentramos na realidade da fé é que descobrimos o rosto amoroso do Pai Eterno. Sua presença nos envolve e nos acalenta. Do Pai viemos, Nele somos e existimos e para Ele haveremos de voltar. Nossa vida só tem sentido à medida que nos entregamos a Deus como “Aquele que nos ama”. No entanto, fomos criados dentro de uma cultura segundo a qual a imagem paterna passou por processos de declive. Por outro lado, também crescemos imaginando um Deus que tinha a obrigação de intervir em todos os momentos necessários. Às vezes a imagem criada parecia muito mais com um super-herói de Hollywood, do que o Deus que Jesus nos apresentou por meio de sua prática (vida) e prédica (palavras).

No Novo Testamento Jesus se relaciona e, por conseguinte anuncia um Deus totalmente diferente daquilo que já havia sido proclamado, chamando-O de Pai! (Cf. Mc 14,36). Dia após dia, por meio de atitudes e palavras, Jesus revela na Sua pessoa a face do Amor de Deus. Trata-se, de uma gratuidade amorosa, capaz de amar quem não merece, mas é digno de ser amado. Um Amor que se faz força no sofrimento e presença defronte as perguntas dolorosas da existência.

Muitos ainda não compreenderam quão grande é o amor do Pai Eterno. Basta olhar na atualidade e reconhecer nela o perene vazio existencial. Sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que no mais íntimo do coração humano existe um vazio, uma lacuna que nada nem ninguém pode preencher, exceto o Deus Pai e Amor! Justamente por isso, aumenta, de forma acelerada, o número de pessoas que sofrem de depressão, de doenças físicas e psíquicas, de problemas familiares e pessoais por que se encontram vazias de Deus e, obviamente, vazias de si.

Neste dia dos pais, somos convidados a acolher o presente que Deus nos confiou desde a eternidade! Deixemos de escutar um pouco as vozes do mercado, para ouvirmos, em primeiro lugar, a voz do Pai que continua a ressoar em nossos corações: “Eu amo você!” É um tratado de amor entre a terra e o céu! Um Amor que atua na sutileza da história e não em fatos mirabolantes. Deus continua agindo e curando a ferida do mundo. A minha e a sua também! Olhemos para os olhos do Pai e contemplemos Nele o fundamento da nossa vida. Permitamos que a existência se torne a expressão mais bela e fecunda do Amor de Deus por nós. Abramos o nosso coração para que o Pai firme morada em nosso ser. Não tenhamos medo de abrir as portas a Ele. Deus não nos tira nada, não nos obriga a fazer coisa alguma, pelo contrário, nos concede tudo àquilo que ora necessitamos: paz, alegria, fortaleza, bondade, paciência, humildade. O restante é acréscimo. No coração de Deus os problemas e as dificuldades do cotidiano se convertem em atos de fé, caridade e esperança, passando a fazer parte de uma única e mesma vida, ou seja, a nossa história na história do Pai Eterno e a história do Pai Eterno em nossa história!

Vale ainda ressaltar que tanto consciente quanto inconscientemente somos capazes de evitar o amor do Pai. Neste sentido, é possível dizer que a nossa maior escravidão não é e nunca foi o pecado. Nossa grande prisão está em negar o amor de Deus ao fugir de Alguém que faz tudo pela nossa felicidade. Distantes do rosto do Pai a vida perde valor e a existência perde sentido. Longe de Deus nada vale, nada serve. Não somos nada distantes do Pai! Portanto, voltemos à casa do Amor onde somos amados e tratados como! Um santo e feliz dia do Pai!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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