Um grito pela vida!

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Criada em 1962, ano que marcou o início das reformas pastorais do Concílio Vaticano II, a Campanha da Fraternidade vem se consolidando como uma reflexão espiritual, catequética, bíblica e científica sobre as mais variadas questões pertinentes à população. O objetivo maior é conscientizar as pessoas endereçadas e, ao mesmo tempo, evangelizar os diversos setores da sociedade que têm menosprezado uma determinada área do País e por isso ferido a dignidade humana ao gerar um pecado social. Anualmente, após uma aprofundada análise de conjuntura por parte de peritos e especialistas, é escolhido uma matéria de maior enfoque para a Nação. Este ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) oferece como tema: “Fraternidade e Defesa da Vida”, e como lema: “Escolhe, pois, a Vida” (Dt 30,19). Esta já é a 45ª Campanha da Fraternidade. No entanto, vale ressaltar que ela não é promovida somente pela Igreja Católica Romana, mas também pelas Igrejas membros do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic). Cito a Igreja Cristã Reformada (ICR), Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (Ieab), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Igreja Síria Ortodoxa de Antioquia (ISO) e Igreja Presbiteriana Unida (IPU). Vinculadas pela fé, estas e outras instituições sociais buscam a defesa e a promoção da vida humana desde a concepção até a morte.

Diante de uma temática tão complexa, são inúmeras as abordagens que podemos emitir. Assim sendo, pela brevidade deste artigo e pela importância do debate, saliento algumas prerrogativas significativamente importantes para tomadas de decisões no presente, principalmente em relação ao crime do aborto. Destarte, há ainda um tripé existencial que deve ser levado em consideração pela ética do humano e pela moral do agir: na dignidade intrínseca da pessoa, no desejo de liberdade que é diferente de quaisquer correntes de independência ou autonomia e por fim na experiência da responsabilidade pela própria vida.

A palavra “aborto” é proveniente do latim aboriri que significa “perecer”. Logo, concluímos que tal prática é o próprio perecimento da vida, sinônima de infanticídio. Contudo, e além de etimologias, é no Brasil que uma das grandes ameaças à vida tem ocorrido: a clandestinidade do aborto, que hoje chega à margem de 300 por ano. O número não pára por aí; de acordo com o Sistema Único de Saúde (SUS), a quantidade de extenuações maternas, por conseqüência do aborto, tem atingido a proporção de 115 a 150 mortes anuais. Por conseguinte, essa situação gera uma dupla mortalidade, tanto do feto quanto da mãe, muitas vezes desprovida de informações e influenciada por pressões de outrem. Paulatinamente e obscurecida pela imprensa, a legalização do aborto tem conseguido muitos adeptos, influenciados por pseudo-informações, que dizem conter a mortalidade e a morbidade materna, o número de abortos e o gasto público com os investimentos na área da Saúde. Alguns nos deixam boquiabertos ao afirmar que o aborto é um “mal necessário” para a conquista da emancipação feminina. Desde quando matar é um direito? Seria uma inconseqüência social e um retardamento histórico a confusão entre a norma do direito e o crime do assassinato. Legalizar o aborto é voltar às origens primitivas da evolução histórica ao permitir que as forças não racionais decidam quem deve viver e quem deve morrer na disputa entre clãs.

Na mesma direção, não podemos nos esquecer que a legalização abortiva tem implicações jurídicas ao negar os direitos do nascituro, médicas ao matar o feto e possivelmente a mãe, éticas ao desprezar o valor da vida, científicas ao se colocar a serviço da morte de inocentes, sociais ao instituir a violência e o descontrole da natalidade, factuais ao não dignificar a mulher nem diminuir a quantidade de abortos, e religiosas ao agredir com veemência o fundamento de todas as religiões que defendem a vida como dom do Criador.

Muito pouco é noticiado, mas nas clínicas que comercializam embriões in vitro os fetos são tratados como cobaias humanas e torturados até a morte em vista de um falso desenvolvimento da Ciência, pois aquela que deveria gerar a vida, agora se torna a grande inquiridora da morte. Seriam mesmo científicas as investidas sanguinárias de empresas que reduzem o ser humano a um objeto de pesquisa descartável? Saibamos e defendamos que não se justifica um bem por um mal.
Hoje, precisamos escolher entre o caminho que conduz à vida e o caminho que leva à morte! Não nos isentamos em optar por Aquele que é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6) e que nos convida a viver em abundância (Jo 10, 10). Vejamos bem se não estamos criando para as futuras gerações uma sociedade obstinada pelos resultados terapêuticos como fuga da morte ou como longevidade industrial. Que Jesus de Nazaré, assassinado por se opor à lei escravista e ao Estado déspota, nos ensine a não violentar, mas, sobretudo, exaltar nossa humanidade tão dilacerada ao ser reconhecida como mera mercadoria.

Oxalá que os defensores do aborto possam pôr a mão na consciência e se silenciar diante do mistério da vida! O que seriam deles se também tivessem sido abortados por suas mães? O mesmo direito que eles tiveram de nascer deve ser estendido a todos! Àqueles que se ocupam da Saúde e que atuam em clínicas clandestinas vale a sentença: deixem de trair o juramento de suas profissões e assumam com honestidade social o encargo que lhes foi confiado em nome de Deus. Às mulheres violentadas, peço que a graça divina possa despertá-las para não reproduzir na vida de inocentes a violência que lhes foi sofrida por parte de agressores. Saibam que interromper a gestação não é nenhuma conquista ou superação do problema, mas pelo contrário, uma derrota e talvez a maior derrota de suas existências. Aos políticos, e de modo especial ao Legislativo, que as decisões em voga e tramitadas no Congresso não façam dos senhores promulgadores da morte e geradores de uma não-política, ao serem desacreditados pela sociedade civil. Depois da corrupção maquiavélica, só falta a legalização do aborto para deixarmos de acreditar que este País ainda tem motivos para crer em dias melhores. Por favor, não nos decepcionem! Fazei jus à fé de um povo sofredor e permiti o nascimento daqueles que não têm berço esplêndido para dormir e muito menos o direito de ver o céu formoso e límpido deste Brasil! Que o sofismo do chamado “Estado laico” não seja conseqüência de uma “nação desumana” ao instaurar o sacrifício dos inocentes, apedrejando-os até a morte!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Jesus Cristo é o Senhor!

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Atualmente vivemos submersos em uma sociedade em que há incontáveis quantidades de senhores. Falamos dos soberanos de empresas religiosas aqui e dos dominadores das consciências acolá. E assim, determinadas realidades vão sendo construídas nas quais as pessoas valem mais por aquilo que produzem e fazem do que pelo que são de fato. Na civilização do mercado, evidencia-se o detrimento constante em relação à verdade mais profunda do ser humano: sua dignidade, seus valores, sua história. No entanto, a tradição ultramoderna faz com que a pessoa seja deixada de lado, para que a primazia do poder possa se elevar sobre toda e qualquer realidade existencial importante. Quantas mentes são manipuladas pela chamada teologia da prosperidade, e, deste modo, vamos construindo uma cultura de títulos, em que até mesmo o título passa a denominar quem é a pessoa humana em sua totalidade? Conseqüentemente, para estes últimos, perder um título é perder uma identidade. Não possuir mais o título adquirido é permitir o esmaecimento da própria história. Sem título não há pessoa, é o que prega o atual sistema sociocultural e também neopentecostal, que somos convidados a transformar mediante a escola evangélica do serviço livre e desinteressado de Jesus de Nazaré.

Neste sentido, podemos falar do título primordial de Jesus como contestação a um conjunto de verdades inventadas pela lei do mercado neoliberal. Para tal, é a comunidade primitiva dos cristãos que nos orienta na proclamação de que Jesus é o único Senhor! Destarte, proclamar o senhorio de Jesus é, ao mesmo tempo, reconhecer sua condição divina emanada das trilhas históricas de Nazaré e, por conseguinte, entremostrar sua dimensão de serviço testemunhada no lava-pés. A partir de então, o Senhorio de Jesus torna-se uma verdade de fé, testemunhada até mesmo com o sangue dos mártires. Estes últimos entregavam a vida por não aceitarem o senhorio de outras divindades pagãs e muito menos do Imperador Romano. É nesta comunidade de fé que o Senhor se faz presente de modo místico e corpóreo em cada um dos fiéis.

No Senhorio de Jesus, a Igreja se faz povo novo e resgatado. A verdade de fé que imprime a marca indelével da comunidade cristã é a que todos os batizados são povo de Deus. O laicato, os religiosos, as religiosas, os bispos, os metropolitas, o colégio cardinalício e o Sumo Pontífice são povo de Deus, com ministérios diferentes, pois todos pertencem ao mesmo Senhor. Pela consagração batismal todos ensinam, todos governam, todos santificam, todos têm a responsabilidade de organizar a comunidade eclesial e, por fim, todos são separados e reservados para a missão específica da Igreja. Toda a vida cristã está fundamentada no Batismo. Por meio dele, somos incorporados à vida do Senhor. Pelo batismo formamos a comunidade de fé capaz de comungar de uma mesma carne e de um mesmo sangue para formar um só corpo. Justamente por isso que a Igreja pode ser chamada de escola de irmãos em que o poder ou o senhorio se transforma em serviço livre e desinteressado, tendo Jesus como o modelo Daquele que tirou o manto, “símbolo do poder”, cingiu a cintura para lavar e beijar com o próprio ser a história salvífica de seus discípulos e discípulas. Falaríamos hoje de beijar os pés de toda a humanidade sofrida e dilacerada pelo pecado social.

De fato, perde-se muito quando o Senhorio deixa de ser atribuído a Jesus de Nazaré e passa a ser associado a determinadas empresas religiosas, intituladas “igrejas” ou, então, a alguns membros destas instituições. Vale ainda ressaltar que, ao utilizar o Senhorio de Cristo como forma de alienação, estamos usurpando sua história. Evangelho que prega vida fácil, que fala de prosperidade o tempo todo não é Evangelho de Jesus Cristo. O Senhorio redentor nos faz assumir uma nova visão de Deus, na categoria de quem desce dos céus para nos encontrar, que vem do atemporal para o temporal, que surge do infinito para redimir o finito humano. Também nos faz descobrir um novo rosto de Igreja Católica, na qual os cristãos vão se apresentando como servos e não na condição de senhores. Por fim, o Senhorio nos faz compreender as novas e futuras relações na comunidade de fé e na sociedade em vista da implantação cotidiana do Reino de Deus.

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Use as coisas, não as pessoas!

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Vivemos no mundo mediatizado pela imagem, fruto da chamada indústria cultural. Hodiernamente, estamos defronte a um engenho capaz de gerar altas quantias em dinheiro para os seus aliciadores. Assim denominamos estes últimos, pelo fato de atraírem as pessoas a si por meio de promessas enganosas.

Na realidade pós-moderna, a imagem instrumentaliza e coisifica as relações humanas. Prestemos mais atenção no marketing das propagandas de cerveja, dos produtos de limpeza e da moda em geral, no intuito de verificarmos os meios utilizados para que a pessoa torne-se mercadoria junto ao produto por ela oferecido.

O neocapitalismo em muito contribuiu para deturpar o grande dom que Deus nos confiou, a saber: o amor. Hoje, o auto-erotismo tem marcado a vida de adolescentes e jovens, imprimindo em suas histórias o desejo da auto-satisfação imediata e compulsiva. Neste sistema, a sexualidade deixa de ser a força vivificante do humano, para apresentar-se como um produto rentável e puramente comercial. Deixa de enraizar-se no amor. E de tal modo as pessoas vão assumindo a configuração de meros objetos, que depois de utilizados tornam-se descartáveis para o mercado.

Na guerra dos magnatas em voga ganha a pessoa que tiver o corpo mais trabalhado. Tem valor aquele que se sacrifica em exercícios, não em vista da saúde, mas por puro exibicionismo. É importante aquele que ainda não sofreu com o peso da idade, que não conhece rugas e muito menos cabelos brancos. Justamente por isso, vem à tona o frenesi pelo culto ao corpo. Logo, a corporalidade não é enfocada como manifestação do sagrado, mas simplesmente, um meio para a celebração do hedonismo, no prazer pelo prazer. Por conseguinte, famílias dispersam-se, jovens ficam perdidos, adolescentes se repudiam dentro de uma sociedade que ficou doente ao fazer do sexo uma divindade. Nesta situação não há espaço para um genuíno exercício do amor.

Pouco se fala sobre isso; todavia, deveríamos estar atentos para a formação da consciência atual. Na verdade, as pessoas não estão aprendendo a conviver com os limites da idade, com as intempéries da vida, com os ocasos da ausência de saúde; pelo contrário, fazem o impossível para adiar o encontro com a experiência da finitude a partir da morte. E acabam se esquecendo de que na existência não há nenhuma fonte de juventude. Não se recordam que algumas perdas na vida são necessárias, inclusive a perda da beleza na terceira idade, pois nesta fase o que importa é a santa experiência acumulada pelos anos. O resultado final de todo este processo é a desumanização da sexualidade, e, conseqüentemente, do amor, a ponto de serem banalizados.

Até mesmo a realidade conjunta do amor na amizade, na ternura, na afeição, é corrompida. Muitas vezes e dos mais variados modos falamos de “amor” como sinônimo único e exclusivo de “sexo”. Na sexualidade há amor, mas não podemos restringi-lo somente a uma variante do humano, por mais importante que ela seja. No amor encontramos “a força que enriquece e faz crescer. Quando, pelo contrário, falta o sentido e o significado do dom do amor na sexualidade, acontece uma civilização das coisas e não das pessoas; uma civilização em que as pessoas se usam como se usassem coisas. Na civilização do desfrutamento, a mulher pode tornar-ser para o homem um objeto e os filhos um obstáculo para os pais” (Conselho Pontifício para a Família, sexualidade humana: verdade e significado, p.17).

Aqui vale uma análise clara e precisa do que é o Amor. Escrevo em maiúsculo, pois o remeto a Deus. Compreender limites, superar obstáculos, rever os erros, conviver com pessoas difíceis, procurar soluções para conflitos, optar eternamente por alguém ou por algum projeto divino faz parte da esfera do Amor. Nele e por ele somos introduzidos à vida em Deus e, por conseguinte, nos tornamos capazes de conhecer as manifestações divinas que atuam no mundo. No Amor, aprendemos a olhar para a obra da criação com sacralidade e sentimento de reverência. Na ótica do Amor também contemplamos as pessoas, não como objetos coisificados, mas, sobretudo, como filhas do Pai Eterno. Desta maneira, conseguimos perdoar mais, ficamos menos doentes espiritual e fisicamente, perdemos o medo de sorrir e ser feliz, e por fim, passamos a viver com mais autenticidade e integridade pessoal, sendo fiéis a Deus e a nós mesmos. Transformamo-nos em pessoas mais humanas e assertivas. No entanto, não podemos confundir o Amor com receitas prontas de felicidade encontradas nos manuais modernos de auto-ajuda. Além de todo psicologismo, o Amor nos convoca a uma existência mais concreta no hoje da história. Sem palavras metafóricas, sem magias, sem forças intramundanas, o Amor supõe a pedagogia da liberdade e do respeito pela sacralidade de si e dos demais. O que muitos chamam de amor não passa de auto-satisfação erótica e deturpada. É necessário ir à origem das coisas, para que na essência do humano possamos encontrar a presença amorosa de Deus e sermos para o mundo do Amor.

Respeitemos a nossa individualidade e não sejamos produtos baratos nas mãos daqueles que têm por deus o dinheiro. Na comercialização humana, propensa ao mal por natureza, devemos ser as primeiras testemunhas a proclamar que o humano está acima de toda e qualquer negociação, pois ele é parte de Deus! Que nenhuma pessoa seja confundida e muito menos associada a uma garrafa de cerveja nos bares da boa, presentes nas esquinas da vida. Se continuarmos a nos comercializar, mesmo que por imagem adjunta, também estaremos comercializando Deus, em vez de anunciá-lo!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Lutar contra a vida fútil!

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Atualmente vivemos em um sistema que se apóia tanto no individualismo quanto no consumismo para instaurar a legitimação da pessoa. Trata-se de uma conjuntura pensada e articulada para gerar a idolatria do eu e, ao mesmo tempo, a necessidade exagerada de consumir. Ambas as realidades acabam por se tornarem pura ilusão na medida em que se apresentam como uma pseudo-autonomia do sujeito.

Por individualismo compreende-se um conjunto sistematizado “de costumes, de sentimentos, de idéias e de instituições que organiza o indivíduo partindo de atitudes de isolamento e defesa” (Emmanuel Mounier). Trata-se de um ser, movido pelo falseação da verdade e sem nenhum tipo de vínculo social. O individualismo forma a pessoa na desconfiança com os outros, permeando-a em vontades exclusivistas, egocêntricas e cheias de reivindicações autoritárias. Uma das mais importantes tarefas do individualista é centrar atenção sobre si mesmo.

Na perspectiva humana e ética, vemos que o individualismo faz parte da chamada “ideologia moderna”. Por trás deste movimento de emancipação da pessoa, está a alienação paulatina daquilo que compreendemos por livre-arbítrio e autonomia. A liberdade passa a ser enfocada no fazer o que quer, quando quer e como quer. E assim o indivíduo se adota na condição de senhor de si, com a capacidade de se autodeterminar como bem entende. E sujeitos assim são aplaudidos em platéias de Gugu, Faustão e Big Brothers, quando afirmam isto em suas falas!

É a autonomia sem valores humanos morais que confere embasamento ao individualismo. A partir do momento que nos associamos ao império ególatra do eu, deixamos de lado o origem primeira do “viver em sociedade”. A concretude desta última afirmação pode ser averiguada quando exclamamos em alto e bom tom: “aquilo que não nos prejudica, não é problema nosso”.

No individualismo a pessoa se depara com a secularização de si e dos demais. Justamente por isso seu único objetivo é a busca da própria realização. No individualista encontramos a necessidade imperativa e a penúria de “protagonismo na insistência exagerada sobre o próprio bem-estar físico, psíquico e profissional; a preferência pelo trabalho independente e pelo trabalho de prestígio e de nome; a prioridade absoluta dada às próprias aspirações pessoais e ao próprio caminho individual, sem pensar nos outros e sem referências à comunidade” (Somalo).

No entanto, poucos se recordam que a vida em sociedade é contínua passagem do “Eu” ao “Nós”. Neste sentido, já não são mais coerentes determinadas afirmações como: o meu carro, o meu computador, a minha casa, a minha vida… Destituída de um espírito de partilha.

Enraizado ao individualismo, está o consumismo. É o mundo do ter pelo ter de forma imerecida, muitas vezes. Suas características são a busca de ascensão do conceito de vida, grande abundância de bens e mercadorias e a cultuação de propriedades. A lei de consumo faz com que a pessoa adquira o supérfluo hoje, para pagar no dia seguinte, até mesmo em prestações escravizantes. E o mercado continua a repetir: “Você é aquilo que consome.” A qualidade de vida passa a ser medida por aquilo que cada um tem e possui pela quantidade de consumo. É muito triste perceber que estes conceitos estão arraigados em muitas e muitas mentes.

Sejamos claros! Ter exageradamente não é nenhum triunfo. A posse que o mundo oferece não é uma conquista. Ao falar sobre o desenvolvimento da pessoa, não podemos nos confundir e muito menos nos fundamentar no acúmulo de posses desnecessárias. As propriedades, os bens, os atributos externos não são valores absolutos para aqueles que buscam uma existência mais humana, com maior sentido. Saibamos e nos convençamos: “Evangelho que prega vida fácil, que defende prosperidade sem limites, sem lutas e esforço pessoal, que compra as bênçãos de Deus não é Evangelho de Jesus Cristo! Na verdade, “a pessoa só se encontra quando se perde. A sua fortuna é o que lhe fica quando se despojou de tudo o que tinha – o que lhe fica à hora da morte” (Sung). Não nos é lícito assumir o caminho de escolhidos por Deus e abençoados pelo mercado. Pelo contrário, busquemos um coração mais simples e fundamentemos nossa esperança naquele Deus que, sendo rico, se fez pobre por amor de nós.

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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Educados para o amor

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Os cristãos hodiernos precisam renovar a paixão pela pessoa de Jesus de Nazaré. Muitas vezes a vida cristã se apresenta como um caminho de rugas e envelhecimento precoce, no qual esquecemos a jovialidade do amor e do evangelho. Quando estamos enamorados por alguém, procuramos sempre agradar, ser útil, para tal vestimos a melhor roupa, nunca chegamos atrasados, em hipótese alguma demonstramos raiva, concedemos o melhor de nós e até nos sacrificamos em função do (a) outro (a). É isso que acontece com os apaixonados. Da mesma forma, precisamos recuperar o “enamorar-se por Deus”, fazendo dEle a razão e o centro convergente da existência. Ao nos enamorarmos pela pessoa do Pai Eterno saímos de nós mesmos para irmos ao encontro do outro, aceitando-o em sua totalidade, não fazendo dele uma extensão de nós. Portanto, sem demagogias, a oração é cuidar do nosso caso de amor com Deus até nos transformarmos nAquele que amamos. “A meta de toda oração é a transformação do homem em Jesus Cristo. Qualquer relação com Deus que não conduz a esta meta é inconfundivelmente fuga alienante. Certamente a meta nunca se atinge. Mas a vida deverá ser um processo de transfiguração: a troca de uma figura por outra […]. Repetir outra vez em nós os sentimentos, atitudes, reações, reflexos mentais e vitais, a conduta geral de Jesus”(Inácio Larrañaga).

Todos os grandes místicos da Igreja, por meio da oração, descobriram o que é ser pessoa em Deus. A oração os tornou integrados, centrados, afetivos, sexualizados e não-assexuados. Na escola da oração, homens e mulheres santos aprenderam a resgatar sua respectiva masculinidade e feminilidade. E aqui falamos do segundo aprendizado na escola do amor, a saber: conversão. A conversão é lutar para ser aquilo que se é, ou seja, um retorno fiel e constante às verdadeiras raízes do existir. Conversão é tornar-se pessoa, é construir-se a partir dos próprios limites e feridas que a vida não nos poupou.

Atualmente é modismo permear a vida cristã de slogans teológicos, enfatizando, principalmente, as informações sobre a pessoa de Jesus. Só que o Cristianismo não vive somente de informações. A proposta de Jesus e de seu Evangelho vão muito além de informações, uma vez que está ligada ao campo da experiência. Destarte, no momento em que valorizamos demasiadamente as informações, nos esquecemos da experiência. Já é fato palpável nos determos com pessoas que anunciam com profetismo o nome do Senhor Jesus, que escrevem “sumas teológicas” sobre o Messias, que operam curas, milagres e prodígios e que, infelizmente, não conhecem a pessoa de Jesus de Nazaré.
Dessa forma, aqueles que assumem a conversão como um vir-a-ser na pessoa de Jesus acabam por deixar de lado os extremismos da fé, para equiprobabilizar a informação e a experiência. Precisamos da doutrina, das verdades da fé e do evangelho, da teologia, mas, sobretudo, precisamos também experimentar todos esses fatos na individualidade da experiência da fé.

Assim sendo, há algumas palavras-chaves e motoras no itinerário cristão, são elas: renovar-se, examinar-se à luz do amor e pedir perdão. Ao mesmo tempo, aparecem outras um tanto diferentes das supracitadas, como: queda, fracasso, descontentamento, injúria, ruína, derrota e, por fim, covardia. Esta última é o antônimo da conversão. Os covardes não conhecem o Reino de Deus, pois se fecharam dentro de si. Não possuem o endereço da casa do amor. Não sabem o que é conversão, uma vez que não conseguem ir ao encontro do outro para encontrar o próprio eu. Diante dos desafios da vida, eles cruzam os braços e atribuem todas as controvérsias a Deus: Ele é o culpado, Ele que castigou, que tirou a vida. E é da covardia que nasce a pergunta: o que eu fiz para merecer isso?

Na escola do amor não existem merecimentos nem retribuições. Tudo é benevolência! Valemos por aquilo que somos e não pelo que temos ou fazemos. Cada sujeito é pessoa e não um mero objeto. Educados ao amor aprendemos a amar, a perdoar a nós mesmos, a compreender a vida na ótica de Deus: isso é conversão! Contudo, enquanto nos mantermos atados às nossas mazelas e feridas continuaremos a reproduzir na vida do outro tudo aquilo que sofremos. O outro passa a ser a projeção daquilo que não aceitamos em nossa história de vida, e por isso ele incomoda tanto. Mas, na verdade, somos nós que não nos aceitamos e decidimos não assumir o itinerário da conversão, pois preferimos reproduzir os monstros que ainda existem dentro de nós. Precisamos encarar nossos monstros e fazer as pazes com eles, para cessar a guerrilha interior e entregar todas as nossas armas diante de Deus. Quantas pessoas estão em guerra dentro de si! Tristemente, em determinados acontecimentos, não permitimos que o amor visite os nossos corações, mas somente por hoje permitamos que Deus mesmo nos diga: “Homem, considera que fui Eu o primeiro a amar-te. Não estavas ainda no mundo e eu já te amava, mundo nem mesmo era. Amo-te desde que amei a mim mesmo. Amo-te desde que sou Deus” (Santo Afonso).

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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Amar é deixar-se amar!

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De Deus viemos. Nele somos e existimos e para Ele haveremos de voltar: Nossa vida precisa ser uma expressão de louvor ao Pai Eterno. Na finitude da nossa humanidade, somos convidados a olhar para o nosso interior, reconhecendo que o Deus do Cristianismo é Amor: Misericórdia na Gratuidade, Bondade no Perdão, Caridade no sofrimento… O que dizer desse Deus? Não será Ele muito relapso ou extremamente permissivo? Não parece que Ele tudo crê, tudo espera e tudo suporta? Tudo desculpa…? Tudo perdoa? Mas, em função de quê tanto amor? Para que criar um Deus que parece mais um pedinte? Um carente? Um necessitado de amor e afeto?! “Povo meu, que te fiz eu? Em que te contristei? Responde-me” (Mq 6,3). Na verdade, precisamos concordar que o Deus do Cristianismo é um mendigo que esmola o nosso coração… É um Deus pobre e frágil, necessitado e abandonado, louco e enamorado de amor pela humanidade até o ponto de se fazer um de nós: humano, “porque eterno é seu amor por nós” (Cf. Salmo 136).

E nós quem somos? Não somos nós relapsos e permissivos diante da vida e das pessoas? Mesmo com as dificuldades interiores e sociais, continuamos crendo, esperando, suportando, desculpando e perdoando em função do amor. Na realidade, acabamos concordando com as nossas petições e com as nossas carências afetivas. Quantas vezes saímos por aí mendigando o amor das pessoas? Será que as cobranças nas relações, o ciúme como medo de perder, a necessidade de ser visto e amado, a vontade de aparecer com plumas e paetês diante dos outros não são pedidos de amor?! E até quando vamos continuar exigindo o amor das pessoas e penhorando a nossa própria vida? Inclusive continuando a buscar em outras fontes aquilo que somente Deus pode nos conceder? Olhemos para a nossa vida e reconheçamos que:

É tudo uma questão de empatia, não de simbiose. Na relação experiencial com o Pai Eterno, a pessoa continua sendo pessoa, Deus continua sendo Deus. Nenhum adota o lugar do outro, pois, do contrário, estaríamos assumindo um personagem e servindo a um deus mascarado. Quando se fala em empatia, nos remetemos ao endereço do amor, ou seja, ao coração de Deus! Adentramos à escola do Evangelho para aprendermos a olhar tanto a vida quanto as pessoas com os olhos misericordiosos do Pai. Assim sendo, somos impulsionados a calçar as sandálias do céu para descobrir a escola do amor. Para amar e ser amor são necessários alguns requisitos que descobrimos, paulatinamente, através da oração.

São muitas as definições do que é orar. Alguns irão defini-lo como cumprir ritos, rezar fórmulas prescritas, reproduzir idéias de outrem, entre outras. Contudo, a oração se coloca acima de todas as pré-definições, uma vez que ela é experiência de encontro, não com Deus diretamente, mas conosco mesmo em Deus. Por meio da oração nos encontramos com o nosso próprio eu, segundo os critérios do Pai Eterno. Justamente por isso que a primeira ordem do amor nos motiva a perguntar: Quem sou eu? E como é difícil responder a tal questionamento! Somente os mais fracos são capazes de respondê-lo, pois aqueles que se dizem fortes se debandam para o caminho da fuga do próprio ser. Têm medo de se olhar no espelho da vida e descobrir o monstro com o qual estavam lutando a vida inteira. Não conseguem nem mesmo sentar na cadeira da consciência para averiguar quão corroboradas estão suas vidas. Portanto, não é de se estranhar que a ausência de oração supõe o vazio existencial. Quando deixamos a oração para o escanteio, ocamos a nossa razão de ser e de existir em Deus. Deixamos de amar! Fraudalamos o amor e acabamos falseando o caminho rumo a Deus. Seja cristã, budista, hinduísta, maometana ou judaica, a oração nunca pode perder a sua característica peculiar de encontro consigo mesmo no Coração de Deus.

Assim sendo, enganam-se os que defendem que o gênero humano é escravo do pecado. Nunca fomos nem o seremos. A nossa única e maior escravidão é fugir do amor e o meio mais concreto para não fugir é embrenhar-se no caminho do encontro da oração intrapessoal. Por que temer tirar as sandálias dos pés e pisar nas sendas fecundas da vida? Não é a história pessoal um solo sagrado cuja sarça é o próprio Deus? Por que fugir da oração se não é ela uma experiência na qual desobstruímos a própria vida, para imprimir nela as marcas do Deus comunhão no Amor? Oração é encontro consigo por meio do Deus-conosco! É ouvir tudo aquilo que preferimos manter em silêncio, é deixar rolar a pedra de todos os assuntos que abafamos ao longo da vida, é desnudar-se diante do amor e deixar-se amar!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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Até tu, Brasil?

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Nos últimos dias, ficamos boquiabertos ao nos informarmos sobre o caso da adolescente de 15 anos presa em uma cela com 20 homens no Pará. Tal problemática acabou criando uma ferida no coração da Justiça e da política brasileira. No entanto, não podemos ficar míopes, pois a situação vai muito além de alguns fatos como o supracitado. Na verdade, o caso da menor é apenas a ponta do iceberg de um sistema prisional em crise e sucessivamente injusto, lento e desumano. Sem generalizações, podemos afirmar que o aparelho carcerário vigorante está necessitando de atenção política e precisa ser renovado desde os seus fundamentos éticos. Mesmo assim, não devemos nos esquecer dos inúmeros juízes, desembargadores, promotores, delegados e policiais que se esforçam para fazer da Justiça uma prática séria e coerente em sua prédica e prática. Alguns chegam a arriscar a própria vida na tropa de elite do cotidiano.

No tocante à população carcerária, os números falam por si. Segundo a Agência Carta Maior, “em dois anos, 500 mil brasileiros deverão estar atrás das grades. Mantendo-se a tendência atual, seria preciso construir um novo presídio a cada 15 dias” (Marco Aurélio Weissheimer). Hoje, mais de 50% dos encarcerados possuem idade superior aos trinta anos, 95% deles, antes do delito, viviam à margem da pobreza (o que não justifica o crime), 95% são homens e 12 % compõem a massa de analfabetos sociais e educacionais. Entre os dolos mais acentuados está a prática do roubo, logo depois, vem o assassínio e o tráfico de drogas. Mas os números não param por aí. De acordo com o Censo Penitenciário Nacional, a estimativa da população carcerária é de 148. 760 aprisionados. O cálculo nos faz perceber que o sistema vive uma precária ocorrência de superpopulação, sendo que as vagas nos presídios estaduais são de 72.514 detentos. Parece ironia, mas as vagas são maiores que a demanda, não de empregos, mas de crimes.

Naquilo que se refere ao cumprimento da pena, apenas 61,4% dos delituosos chegam a cumpri-la nos presídios estaduais. O restante, 38,6%, fica aguardando a sentença em delegacias provisórias nos mais variados Estados do País. O mais impressionante acontece quando a tarefa do Estado é assumida pelo crime. Em vez dos detentos serem reeducados pelo Estado, agora, são formados pelos comparsas de cela. Ao término do estágio criminal, o Estado devolve para a sociedade pessoas de maior periculosidade que outrora. A função estatal era nos entregar pessoas reconciliadas com sua história, prontas para iniciar uma vida mais justa, e não indivíduos que têm no presídio um manual de criminalidade e uma fábrica de delitos.

Além disso, vemos um cenário efervescente de violência em um país que não consegue ressocializar seus detentos e uma população que fica à mercê do crime. A veracidade criminal protesta por soluções políticas efetivas. “A segurança, valor pela qual todos clamam, esvai-se na autoria não apurada, nas provas invalidadas do inquérito, no excesso de recursos, na liberalidade com que as punições são perdoadas. Proíbe-se, constitucionalmente, o trabalho do apenado que, quando o faz, está sendo ‘cortês’ com o contribuinte. Permite-se a visita íntima, sem a devida cautela quanto à gravidez, jogando-se o destino deste fruto às expensas da caridade pública. Tripudia-se a memória dos mortos ao permitir-se a apelação em liberdade do condenado em júri popular. As injustiças praticadas contra as vítimas são mais sutis e menos visíveis, mas não menos cruéis”(Luiz Fernando Oderich).

A segurança é um dos valores sociais mais negligenciados no País, podendo ser considerada como o adultério da boa convivência social. Contudo, a violação dos direitos humanos dos criminosos não é uma maneira salutar para resolver esta problemática. Violência gera violência! Sabemos muito bem que antecedente ao crime está a falta de emprego, a ausência de estudo, a falência da instituição familiar e a diversão de jovens opulentos nos ocasos noturnos de Brasília & Cia. Colocar fogo em pessoas tornou-se um hobby para desestressar jovens inaptos. A que ponto chegamos, meu Deus? São tantos crimes que, algumas vezes, nos tornamos indiferentes. No fim das contas, a legitimação da vida criminal só acontece quando nos acostumamos com ela. Será que o País não está se habituando ao crime? Até que ponto a Justiça fala mais alto que o dinheiro? Não seria a vida criminal uma forma concreta para chamar a atenção de algumas autoridades políticas, insensíveis ao amálgama social?

Assim sendo, estaríamos utilizando da omissão legislatória se não apresentássemos as razões dos inúmeros crimes que assolam o nosso Brasil. Iniciando na pobreza, passando pela classe média e alcançando o ápice nos freqüentes índices de corrupção do País, o crime tem se tornado a profissão emergente de alguns. Pessoas que assumiam cargos com idoneidade, agora, se deixam contaminar pelo lucro ilícito, sendo capazes de vender o juramento proclamado pelo seu próprio ofício. Tristemente, a situação vem se consolidando na sutileza do ilegal.

Por outro lado, também constatamos a falta de renda orçamentária para qualificar o sistema prisional brasileiro. Alguns falam de privatização, enquanto outros defendem o investimento empresarial nos presídios, com o intuito de profissionalizar os detentos. Atualmente, apenas 28% dos presos desempenham um trabalho, ao passo que 72% ficam na ociosidade. Na mesma via, seguem aqueles que colocam a agilidade no julgamento dos processos como uma forma de solucionar a superlotação das cadeias. Entre prós e contras, o que vale é a busca de soluções eficazes para educar humana e socialmente aqueles que se deixaram perder pelos caminhos tortuosos da delinqüência.

Sem pessimismos, mas analisando a conjetura vigente, não podemos esperar muito das autoridades. O que dizer de um país que, no dia 24 de maio, comemora o dia do preso? As grandes profissões como a Medicina, a Arquitetura, a Teologia e tantas outras acabam sendo igualadas com o crime à medida que se instaura um dia para exaltar a figura do presidiário. Meus irmãos, o crime não pode ser honrado! Deve separar bem as coisas.

Por fim, nos recordemos de Jack London (escritor americano) ao afirmar a atuação da miséria imerecida na vida do povo assolado pela criminalidade. A saber: “Os rejeitados e os inúteis! Os miseráveis, os humilhados, os esquecidos, todos morrendo no matadouro social. Os frutos da prostituição – prostituição de homens, mulheres e crianças, de carne, osso e fulgor de espírito; enfim, os frutos da prostituição do trabalho. Se isso é o melhor que a civilização pode fazer pelos humanos, então, nos dêem a selvageria nua e crua. Bem melhor ser um povo das vastidões e do deserto, das tocas e cavernas do que ser um povo da máquina e do abismo.”

Que não sejamos nós os próximos a conceder os pêsames e a celebrar a missa de sétimo dia para a Justiça e a política do Brasil!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

www.paieterno.com.br

Igreja “Plena”!

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No dia 29 de junho, por ocasião da Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, foi assinado no Vaticano, pelo papa Bento XVI, um documento que chama a atenção dos fiéis para que entendam a Igreja Católica como aquela que possui inteiramente a qualidade de promover, para o cristão, o caminho da salvação.

O título do documento é extenso justamente para oferecer um detalhamento sobre o que ele entende propor: “Respostas a quesitos relativos a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja”. O documento retoma alguns textos do Concilio Vaticano II, sendo curto e de fácil compreensão. Ratifica e esclarece ainda mais a missão da Igreja de oferecer aos fiéis os fundamentos mais concretos e favoráveis para viverem plenamente o cristianismo, desafio de todos nós que cremos. De outro lado, este texto poderá não ser muito bem aceito por aqueles que não comungam do pensamento da Igreja Católica e mesmo aqueles que poderão não compreender muito bem o teor daquilo que se apresenta no texto, fazendo abordagens e conclusões tendenciosas.

A Igreja tem o múnus e missão de ensinar seus fiéis e mostrar a todos o caminho seguro da fé e do aprofundamento da mesma através da prática cotidiana das virtudes evangélicas. Neste sentido, busca orientar os cristãos católicos para uma vida coerente com sua fé e aos não-católicos procura convidar e, algumas vezes, admoestar para que comecem um caminho que propicie estarem mais próximos daquilo que o Cristo ensinou.

De modo algum a Igreja pretende dizer que fora dela não há salvação. Num fragmento do texto temos a seguinte afirmação tirada do próprio Concílio Vaticano II: “… as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso ou sejam vazias de significado no mistério da salvação, já que o Espírito se não recusa a servir-se delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja católica” (Decr. Unitatis redintegratio).

A polêmica acontece porque existe uma certa “malícia” carregada de tendências anticatólicas e até mesmo proselitistas, em fazer entender que a Igreja acena aquilo que não acenou. Não existe erro ou exclusivismo em afirmar que ela possui os “elementos completos” do legado deixado por Cristo desde o início do cristianismo. A sucessão apostólica continua até os dias de hoje na Igreja Católica. O Papa é Pedro hoje! Sua missão continua a mesma e a Igreja foi experimentada ao longo dos séculos mantendo sua unidade, apesar das diversidades de tempos, pensamentos e culturas. Não creio, portanto, que haja brecha para críticas ou idéias de autoritarismo, exclusivismo ou fechamento como li por aí.

Os elementos essenciais para a salvação do homem se condensam numa única e dinâmica palavra: amar. Quem ama promove o bem, não deseja o mal do outro e possui o olhar amoroso e misericordioso do Pai sobre si mesmo. A Igreja entende muito bem que sua força e missão de promover uma compreensão adequada do verbo amar está arraigada em sua doutrina e pregação. Portanto, ela se vê completa nesta missão não impedindo nenhum diálogo sério e inteligente com outras formas de crer e viver o amor.

Ninguém é e nem pode se considerar igual a todos. Todos temos riquezas em vários níveis e sentidos. A unidade na diversidade da fé em Cristo ou no desejo de viver e promover plenamente o amor e a vida aqui na terra pode gerar para todos a salvação que vem de Deus.

Vivemos num mundo fragmentado por opiniões as mais diversas e formas de conduta complexas. Não é possível ficarmos com meias palavras. Podemos acabar ficando reféns ou escravos do relativismo e da insegurança. O tema do aborto, por exemplo, está em discussão no Congresso e poderá ser votado em breve. Para defender e aprovar este assunto encontra-se argumentos de todos os tipos. Um assunto como este merece nosso grito de indignação não somente como cristãos, mas como seres humanos que somos. A Igreja está empenhada profeticamente neste sentido em dizer que não se deve caminhar por esta estrada tenebrosa.

Realidades como esta e outras saltam aos nossos olhos nos tempos atuais e se tornam uma montanha de ensinamentos ditos “cristãos”, mas sem fundamento bíblico ou teológico que lhes sustentem. Dão-se “tiros” para todos os lados! Muitos resolvem pensar que são “bispos” ou “apóstolos” e criam denominações do nada. Outros pensam que Jesus foi desta ou daquela forma e saem por aí falando como se tivessem autoridade para tal. Uma verdadeira Babel! Não é brincadeira falar de Deus! Em meio a esta realidade é que a Igreja se apresenta, como um caminho seguro para viver o bem e eternizá-lo para a vida.

Percebe-se que no mais íntimo do ensinamento da maioria das outras igrejas cristãs o amor é o foco mais forte apresentado. A Igreja respeita e reconhece isso quando percebe a seriedade deste ou daquele seguimento. No referido texto da Congregação para a Doutrina da Fé ressalta-se sua autoridade em falar sobre o Caminho da Vida e da Salvação do ser humano.

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica do Divino Pai Eterno e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Quanto vale uma pessoa?

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Vivemos num mundo de consumo e mercadorias. Os bens de produção são manufaturados exageradamente, a saúde passa a ser negociada, a educação deixa de ser dever do Estado, a moradia é fantasiada pela opressão, e, por conseguinte, o trabalho passa a ter valor desonesto e resultado injusto. A situação fica ainda mais agressiva à medida que a própria pessoa torna-se produto cotado, lucrado e vendido pelo sistema neoliberal. Uns podem custar R$ 5 por dia; outros, R$ 380 por mês. Eis que se estabelece diante de nós a massa desumana daqueles que valem aquilo que o trabalho produz. São os chamados “filhos da pobreza”: fruto de miséria imerecida ocasionada pela desigualdade social.

Hoje o Brasil tem crescimento de 2,3% no Produto Interno Bruto (PIB), o que elevou para 130 mil o número de milionários que detêm o poder financeiro da nação. Segundo pesquisa da Fecomércio de São Paulo, feita a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a despesa total de algumas famílias do País é igual ou superior à despesa de toda a Região Norte, incluindo o Estado de Alagoas. São mais de 91 milhões mensais gastos com jóias, brinquedos e jogos, enquanto número espantoso de analfabetos e de subalimentados em termos quantitativos e qualitativos é privado do mínimo de dignidade humana e responsabilidade moral.

O clamor dos pobres precisa romper os tímpanos dos poderosos. Todos têm direito ao desenvolvimento econômico e político. Ninguém pode ser excluído do justo progresso social. Os emudecidos pela miséria não podem continuar sendo vítimas do sistema, uma vez que possuem a missão de agir como protagonistas da história. Sem ideologias, temos que combater todas as formas de realidades que desumanizam o valor incomensurável dos filhos de Deus! Esta importância Divina é totalmente distinta das cifras e lucros selvagens que violam a vida dos sofredores e lesam sua existência.

No coração dos excluídos há o sonho de ser liberto da pobreza, de possuir emprego que o valorize como pessoa e não como mercadoria, de trabalhar em condições dignas e de desenvolver-se social e intelectualmente. Não podemos falar só de desenvolvimento econômico, mas, sobretudo, de desenvolvimento integral, capaz de abranger todas as dimensões do humano, a saber: alma, corpo, mente e espírito. No entanto, são muitas as situações que coisificam a pessoa, fazendo com que ela se torne alienada e comerciável. O trabalho infantil e o comércio de prostitutas para o estrangeiro, ao lado do desemprego cruel e da exploração dos idosos, revelam a situação escandalosa em que a pessoa humana deixa de ser o princípio, o centro e o fim das instituições sociais (Cf. Const. Gaudim et Spes, nº. 25).

Para tal, não faltam os fatalistas pós-modernos que almejam justificar por meio de estatísticas e até mesmo biblicamente a diferença gritante entre ricos e pobres. A riqueza passa a ser interpretada como fruto da bênção prosperante de Deus. Assim sendo, não ter o que comer, onde morar ou o que vestir é sinal da maldição divina. Mas o que fizeram tantos pobres para merecerem tamanha maldição? Que tipo de pecado realizaram as criancinhas para serem torturadas e massacradas pela fome? Que expiação é essa, meu Deus, capaz de tirar o valor da pessoa humana, a ponto de transformá-la em um tipo de empecilho ao desenvolvimento dos ricos?

Na mesma direção aparecem outros que têm discursos superficiais, colocam o problema da pobreza no êxodo rural e na rápida urbanização das cidades em metrópoles. É problema da densidade demográfica. Mas a solução para que o valor do homem e da mulher seja resgatado não está no controle da natalidade e nem no aborto. Não se trata de matar vidas para salvar outras, mas de assumir histórias para promover pessoas. É opção existencial que se apresenta diante de nós: ou assumimos a comunidade fundamentada no valorativo da pessoa e no amor incondicional, ou escolhamos a sociedade maravilhada pelo êxito e pelo lucro à custa da morte dos pobres. Estamos entre a lei do amor e a da selva! Não sejamos como os Pilatos ou os Césares da história, prontos para lavar as mãos dizendo não ter nada a ver com isso. Solucionar a pobreza é missão que passa pelo Estado e se estende a todos nós!

Por isso, precisamos assumir a postura de testemunhas proféticas do Evangelho. Não podemos nos omitir frente à globalização transnacional, marcada pela injustiça no trabalho, em nível salarial e de direito. Não é lícito continuar assistindo “as pequenas empresas e os grandes negócios” em que até mesmo os funcionários são escolhidos graças às suas características físicas e não pelo monitoramento positivo na liderança ou por capacidade diretivo-intelectual. Aos patrões, chefes e empresários, cabe readquirir o valor dos seus trabalhadores na distribuição de salário que lhes conceda condições dignas de vida, para que ela se torne verdadeiramente humana! Que as situações cruéis de miséria, a opulência do sistema, o esplendor da riqueza em nossa consciência não nos façam réus perpétuos quando estivermos no tribunal da misericórdia, sendo valorizados pelo mais pobre dos pobres: Jesus de Nazaré!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Segurança é tudo na vida

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Segurança é tudo na vida! Parece óbvio falarmos assim. Mas é o óbvio mais complexo que desafia o ser humano em quase todos os seus limites do cotidiano. Ser e estar seguro enquanto pessoa faz depender uma série de possibilidades e sucessos na vida. Na verdade, nossa natureza tende normalmente ao outro lado: a insegurança. Todo ser humano carrega consigo grande carga de insegurança. Aqueles que fazem uso da palavra em público, mesmo o que aparenta saber muito bem do que fala e se porta com toda autoconfiança, é inseguro. Inseguro nos resultados de seu discurso e na conseqüência de sua decisão ou atitude. Quem manda e quem obedece, quem chefia e quem é subordinado, em tudo o que somos e fazemos acabamos por experimentar níveis maiores ou menores de insegurança. Não existe exceção a esta regra.

Por que somos assim? Por que a segurança depende do outro, do diferente; depende da reação. Foge definitivamente ao nosso controle. Ela não pode ser conquistada de forma definitiva, mas paulatina, temporária e situacional. Vamos nos tornando seguros. Vamos vencendo desafios, conquistando espaços, rompendo nossos limites. É uma luta constante que promove ou depõe uma pessoa.

Falando assim, poderia gerar uma impressão nostálgica da vida e da condição humana. Mas é isso mesmo! Na verdade, é preciso lutar constantemente contra a insegurança, através do autoconhecimento. Quem se conhece em seus valores, capacidades, possibilidades e desejos tem todas as armas que precisa para ser mais seguro. É uma atitude de dentro para fora, em primeiro lugar. Mesmo que dependamos das reações alheias e dos resultados exteriores para nos confirmar, é importante buscar a serenidade de estar pensando o melhor e inclinado para o bem de nós mesmos, do outro e da comunidade humana.

Existem pessoas, poucas, diga-se de passagem, que conseguem superar as barreiras da insegurança, passando adiante e se tornando verdadeiras promotoras de paradigmas. São homens e mulheres que sentem um impulso interior diferente de todas as opiniões dos outros. Conseguem ver mais longe, pensar adiante, enxergar melhor os resultados de suas atitudes e conduta de vida, mesmo que no momento todos reprovem. Enquanto os outros estão temerosos em atravessar um rio desconhecido e perigoso, esta pessoa aceita enfrentar o desafio de ir primeiro. Quando consegue, grita bem alto aos outros que ficaram: “Podem vir, não há perigo, é seguro!” Num primeiro momento, são vistas como loucas! Logo depois, seguem a sua trilha.

Na história, vemos uma boa quantidade de promotores de paradigmas: santos, profetas, cientistas, chefes de Estado, líderes, escritores, poetas, empresários, enfim, pessoas que mostraram novos modelos, novos rumos para que outros pudessem seguir. Enfrentaram seus próprios medos, superaram suas inseguranças, foram guiadas por uma força maior que potencializou suas vidas, deu-lhes asas e as fez enxergar além do horizonte. Venceram o limite do consenso das pessoas. Foram capazes de sair da mesmice. Tiveram coragem. Foram adiante.

Pessoas assim fizeram a diferença na história de seu tempo e continuam a existir nos dias de hoje. Muitas delas só serão reconhecidas realmente depois que forem ceifadas deste mundo. Estão por aí, entre nós ou aparecendo como verdadeiros monumentos de um novo jeito de ser, viver e atuar. Por não seguirem os padrões estabelecidos, são tantas vezes malvistas pelos seus “pares” e pelos “analistas críticos de plantão”. Quando atravessam o rio, convidando os outros a virem pelo mesmo caminho, escutam normalmente frases do tipo: “Eu já iria fazer isto” ou mesmo: “Quando eu quis atravessar a correnteza, estava muito mais alta” ou até mesmo: “O que ele fez qualquer um faria.” É o grande hino dos covardes!

O promotor de paradigma é uma pessoa motivada a ser alguém diferente e a fazer algo diferente. Sua motivação também é confirmada. Existem aqueles que o incentivam, que acreditam nas suas atitudes e no desenrolar de suas atitudes, que o reforçam para que continuem atravessando o rio perigoso e desconhecido que ninguém até então ousou tentar. Muitos foram e são motivados pela fé ou por pessoas de fé. Enfim, existe sempre um outro ou o Outro Absoluto que o impulsiona a arriscar e vencer suas inseguranças e tomar a grande decisão de começar algo diferente, inusitado.

Todos nós somos desafiados a vencer nossas inseguranças pessoais. Precisamos começar a fazer isso de dentro para fora, numa atitude de busca constante. Esta é a diferença que traz sentido para a vida. Confie mais em suas capacidades. Rodeie-se de pessoas que edificam a sua vida e lhe motivam a crescer e pensar oportunidades. Faça o mesmo, confirmando as boas idéias e os ideais nobres dos outros. Elogie à franquia! Critique para o bem real do outro, ajudando-o a crescer. Exercite-se no acolhimento e reconhecimento sincero daquilo que o outro tem de melhor. Confie na força de sua fé e dê saltos de qualidade, alçando vôos nunca antes imaginados e enxergando mais adiante. E… em tudo tenha Deus como meta maior a se chegar.

Pe. Robson de Oliveira Pereira
Missionário Redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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