Minha “política” é o Evangelho!

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“Aqueles que não gostam da política são governados por aqueles que gostam.” Trata-se de um pensamento que expressa a realidade deturpada daquilo que chamamos de “política”. Palavras como corrupção, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, desvio de verbas públicas, cargos comissionados, nepotismo parecem estar associadas ao exercício do poder tantos são os escândalos que vemos todos os dias. No exercício da política, muitos são aqueles que trocam os interesses do povo pelos negócios escusos e sorrateiros dos partidos ou mesmo pessoais. Infelizmente, muitos daqueles que deveriam defender a causa dos pobres acabam traindo-os, quando afugentam dinheiro público em benefício próprio. Compram-se casas, adquirem-se carros, pagam-se viagens, constroem-se hospitais, aumentam-se alqueires de fazendas, inauguram-se contas no exterior “financiadas” por nós, contribuintes. De eleitores, nos transformamos em mantenedores do luxo, das frivolidades e da vida fácil na política, desde a federal à municipal. É triste avaliar, mas, em vários setores governamentais, a política tornou-se sinônimo de corrupção.

Assumir a verdadeira política é uma vocação humana e social visando o bem comum. Antes de pertencer a um determinado partido, muitos políticos deveriam pertencer ao povo que os confia e delega um mandato. Ele é outorgado pela população civil. A história comprova que não poucas vezes por detrás dos títulos de presidente, senador, governador, deputado, prefeito e vereador estão as histórias de tantos Joãos e Marias oprimidos pela fábula do poder, ludibriados pela esperança nas promessas feitas em palanques e massacrados pela pobreza cotidiana que perdura e cresce. Trair a estes pequeninos e se enriquecer às suas custas são o mesmo que ferir o coração do Pai Eterno.

O atual sistema tem feito os ricos cada vez mais ricos e os pobres infinitamente mais pobres, tanto é que, abaixo dos pobres, já existem os “miseráveis”, uma, por assim dizer, “sub-raça” de homens que matam a fome e acabam não vivendo como merecem: pessoas que não têm o que comer, o que vestir nem onde morar. Estes últimos são os filhos diretos da miséria imerecida e das doenças negligenciadas pelo poder público: dengue, febre amarela, cólera, leptospirose, diarréia, desnutrição e malária, capazes de matar 226 brasileiros por dia. Um total de 82,5 mil mortes por ano como conseqüência explícita do abandono e do descaso público em relação à saúde. Muitas das pessoas mais próximas de mim já contraíram dengue. Estou na fila dos que em breve vão começar a sentir estes sintomas do descaso público.

No exercício presbiteral, tenho sofrido com o sofrimento do povo. Pessoas acorrem ao Santuário e partilham suas experiências de dor e de indignação política. Candidatos que tiram o último centavo para fazer um concurso público já previamente definido antes mesmo das provas serem realizadas; usuários vexados com o descaso do transporte coletivo tanto na qualidade quanto na segurança; romeiros que pagam impostos e não têm direito a um ônibus direto para o Santuário; mães e pais de família que suam durante o dia para serem baleados após um dia de serviço. Onde está a segurança pública, a educação, a assistência social, a saúde de qualidade?

No meio disso tudo, me resta uma fresta de esperança. Que as pessoas pensem nas outras! Que o egoísmo seja deixado de lado! Que o bem comum seja colocado como centro das atenções do poder público! Que ninguém aproveite das oportunidades mais sutis para se colocar como “bonzinho” usando a imagem dos que lutam pelo bem comum!

Vamos rezar pelos nossos políticos. A tentação do poder que corrompe e não se traduz em serviço está na alma de todo ser que respira. Até o Cristo foi tentado pelo Diabo! Como não seria com aqueles que estão diante dos oásis financeiros das oportunidades de se enriquecerem facilmente?! Rezemos e não fiquemos calados diante deste mundo sem Deus! Digo com clareza que O EVANGELHO É A MINHA POLÍTICA!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Inferno: Castigo Divino?

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Conhecido por Sheol na cultura hebraica e por Hades na mitologia grega, o inferno tem sido tema de profundos questionamentos e contundentes distorções ao longo da história. Em alguns casos, por detrás da doutrina do inferno estão escondidas as maldades humanas projetadas em Deus, sendo resultado de: “agressões não trabalhadas ou não vencidas, supremacia do superego, fantasias sobre vingança e desejos de onipotência, tudo isso se deixa legitimar, recorrendo a interpretações fundamentalistas de textos bíblicos. Reações psicóticas de pânico e desejos de aniquilação se apresentam como causas macrocósmicas” (Herbert Vorgrimler).

Antes de condenar, Deus deseja salvar. Sua atuação é em vista da salvação e não da condenação eterna. Em vez de gerar a perdição, a atitude divina gera a sadia liberdade. Anterior à punição está o resgate da pessoa humana. Antes de ser juiz, Deus é Pai! Meus irmãos, estejamos convencidos de que a Mão que cria e salva, não pode ser a mesma que aniquila e castiga! E é o Evangelho que nos orienta em não conceber esta atitude divina como relapsa ou laxista: “Não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12,47). Mas então o que é o inferno? É um lugar ou um estado da alma? Vejamos, portanto, quais são as atuais considerações da Igreja em seu magistério e da teologia em sua racionalidade crítica sobre este “enigma” da caminhada rumo ao coração de Deus.

A partir da concepção grega do mundo e, por conseguinte, da Divina Comédia: poema narrativo de Dante Alighieri, a Idade Média formulou a visão tradicional do inferno. Em primeiro lugar, há o diabo e os seres inferiores, chamados demônios. Todos têm aparência grotesca e corpo avermelhado. Sabemos que na literatura a cor vermelha simboliza a traição. O diabo também possui tridente: um cetro de três dentes simbolizando o domínio que exerce. Há ainda outros símbolos como: enxofre, choro, caldeirão, mar de fogo, entre outros. Vale ainda ressaltar que quanto mais símbolos têm uma determinada realidade, menos conhecimento possuímos dela. O símbolo é ausência de conhecimento.

Partindo da fé bíblica podemos crer da seguinte forma:

1. O inferno é a total desolação da pessoa humana após a morte (clínica e real) e se consuma como a ausência de toda a graça e não-salvação;

2. Muitas vezes e das mais variadas formas, o inferno foi utilizado e, continua sendo, por algumas denominações “ditas cristãs”, somente para submeter e amedrontar;

3. Deus não quer e não envia ninguém para o inferno. Na verdade, este é o resultado da amargura eterna de não viver ao Seu lado. A maior dor da criatura é estar longe do Pai-Criador;

4. O inferno é conseqüência direta da “limitação ou maldade da própria liberdade: é porque nós escolhemos” (Queiruga);

5. Deus nos sonhou dentro de um projeto belo e de vida e não monstruoso e de morte, como se apresenta no inferno;

6. No inferno temos a associação da morte como uma experiência de encontro com as nossas misérias e a nossa limitação humana. O Pai Eterno, rico em bondade, faz a sua proposta de amor à pessoa, convidando à mudança de vida: “a aceitação dessa proposta exigirá conversão total de tudo aquilo que dentro da pessoa ainda é oposto ao amor de Deus. Teoricamente, é possível que alguém, até na morte, se negue a mudar” (Renold Blank). A negação de tamanho amor é uma escolha da pessoa e não uma opção de Deus. Justamente por isso, aquele que nega está se afastando totalmente do Amor e assumindo uma morte eterna e consciente – isso é o que se pode denominar “inferno”. Existe inferno pior que este? Acredito que não;

7. O inferno é a negação a Deus. É não aceitar Seu projeto! Nega-se em vida e agora se nega na morte ao amor de Alguém que faz tudo pela felicidade humana;

Por fim, vale ainda ressaltar que a maior esperança do Cristianismo é o próprio Cristo! Ele é a razão da nossa esperança tanto na vida quanto na morte!“Baseados nessa esperança, somos capazes não só de superar as nossas angústias, frente a uma possível situação de inferno: seremos capazes, também, de começar a superar toda e qualquer situação de inferno, aqui na terra. E a gente se pergunta se haverá pessoas no inferno. Não sabemos. É possível. Esperamos que não” (Renold Blank).

Por fim, não brinquemos com o inferno e nem fiquemos inculcando-o na vida das pessoas! Deus precisa de filhos e não de escravos! Ele é Pai e não um tirano do além! Quantas consciências já foram deformadas ao terem medo de Deus em vez de servi-lo por amor!? Estejamos atentos para não nos transformarmos em profetas de catástrofes na vida de um povo que vive na calamidade do cotidiano e no desastre da pobreza. Cuidado para não oprimirmos em vez de libertar! Aprendamos com Wittgenstein: “Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. O mesmo vale para os pregadores da possessão no neo-pentecostalismo: Daquilo que vocês não sabem, é melhor se calarem para não destruírem histórias e não criarem doenças psicológicas!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Vale a pena Amar!

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Vivemos na época dos mais variados tipos de messianismo. Uns prometem a felicidade perene, outros a vida fácil na ausência de problemas, outros ainda são mais imprudentes ao anunciar uma existência totalmente desprovida de sofrimentos. A ideologia da prosperidade não é algo presente só na história do Antigo Israel, mas também nos dias atuais. Infelizmente, uma grande parte das pessoas acaba se esquecendo de que o Evangelho de Jesus de Nazaré foi marcado pela cruz. Não falamos do sofrimento pelo sofrimento nem da dor pela dor. Contudo, não nos esqueçamos que a divina humanidade do Filho de Deus foi chagada pela tirania dos déspotas deste mundo. Por isso Evangelho que prega ausência de dificuldades não é Evangelho de Jesus Cristo!

Vamos voltar, num momento, nossa atenção para o Jesus Histórico, que viveu na cidade de Nazaré, morou em uma vila interiorana, considerada insignificante para o Império. Nosso olhar se detém na vida de um Deus que quis aprender a andar, a se alimentar, a chorar e a ser pessoa. Um Deus capaz de esvaziar de si mesmo para assumir a vivência de filho de Maria e José. Um Deus que não interpretou um personagem, mas assumiu uma profissão: carpir a madeira de sua terra para só depois lapidar os corações de seus seguidores. Jesus não falava as grandes línguas da época: o grego e o hebraico. Pronunciava um dialeto: o aramaico. Nasceu pobre, viveu como pobre e morreu pobre. No entanto, a pobreza de Jesus significou a riqueza da verdade e da graça de Deus. Justamente por isso, Ele teve grandes conflitos com as figuras pagãs e religiosas da época. Ser verdadeiro em uma sociedade fundamentada na mentira é criar complicações para si mesmo. Comportar-se com sinceridade absoluta em um mundo dominado pela prática falseadora da exploração é atrair problemas.

Jesus não era um político, nem um filósofo e muito menos um sábio do Oriente. Antes mesmo de ser considerado mestre ou guru de um grupo religioso, seu objetivo maior era fazer com que as pessoas pudessem participar de sua missão: ao abraçar o Amor do Pai e instaurar o Reino dos céus na concretude da história. Jesus era uma pessoa integrada à vida humana, mas com as raízes fincadas no coração de Deus. Sua pátria eram os desprezados e os abandonados da sociedade. A vida do Filho de Deus foi a expressão mais concreta de dizer que “fora dos pobres não há salvação”, pois Ele viera para os desvalidos deste mundo.

Se quisermos ser fiéis a Jesus precisamos existir para aqueles que Ele existiu: órfãos, crianças, viúvas, leprosos, mulheres, prostitutas e cobradores de impostos. Por meio de um olhar compassivo e de uma atitude misericordiosa, esses supracitados abandonavam o caminho errante para assumirem a vida de peregrinos-discípulos do Filho de Deus. Neste sentido, o converter-se não era somente a exclusão do pecado, mas, além disso, era a transformação da realidade mais profunda do humano.

Jesus não veio ao mundo para pregar uma doutrina, não trouxe uma revolução política ou uma reforma no sistema. Pelo contrário, sua pregação era o testemunho de vida: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Não possuía verdade a inculcar ou idéia a propor senão a existência de um Deus apaixonado pela pessoa humana: “porque Deus é amor!” (I Jo 4,8). Contagiava as pessoas pela simplicidade de sua palavra e vida. Qualquer um que passasse pelo Seu caminho acabava seguindo-o: “fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: ‘Vem e segue-me’” (Mc 10,21). Jesus de Nazaré atraía as pessoas para Deus e justamente por isso elas eram capazes de abandonar casa, pessoas e trabalho: “E, deixando logo as suas redes, o seguiram” (Mc 1,18). Os religiosos da época eram repressores, moralistas ao extremo e puritanos. Viviam da lei pela lei: “Eles colocam pesados fardos e com eles sobrecarregam os ombros dos homens. Fazem todas as suas ações para serem vistos” (Mt 23,4-5a). A única lei de Jesus é apresentada pelo Evangelho: “Mestre, qual é o maior mandamento da lei? Respondeu-lhe Jesus: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas’” (Mt 22,36-40).

Jesus foi e continua sendo um divisor de águas na história da humanidade. É respeitado e reverenciado pelas grandes religiões monoteístas: cristãos, judeus e muçulmanos. Infelizmente, muitos daqueles que falam de Jesus ainda não o conhecem de fato. Tantos são até capazes de elaborar bonitas pregações, de escrever esplêndidos textos sobre o Filho de Deus, de conceder as mais requintadas investigações referentes a Jesus e não O conhecerem em profundidade. A verdade é que existem muitas informações e pouquíssima experiência de fé em Jesus. Falamos demais de leis e corremos o risco de esquecermos da força redentora do amor. Não poucos são os que afirmam: “Se você segue a lei, será bem-sucedido. Se vive por amor, será um fracassado. É uma pena, mas é assim: no mundo, a lei tem êxito, o amor fracassa. Por outro lado, em Deus o amor tem êxito, a lei fracassa. Mas quem se preocupa com Deus?” (Osho Rajneesh).

É preciso renovar nosso compromisso com o Cristo que morreu por amor de nós e ressuscitou para nos salvar. Devemos experimentar esse amor encontrando ali o fundamento e sentido maior de nosso ser e existir nesse mundo. Devemos deixar o exemplo de Jesus tranformar nosso coração e nos fazer ainda mais criaturas solidárias, principalmente com os “pobres de Deus”, aqueles desprovidos de tudo e que não podem nos oferecer nada em troca de nossa ajuda e solidariedade.

Amar do jeito de Jesus vale a pena!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Vida nada “big” num mundo nada “brother”

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Um fenômeno de alcance mundial, em todas as classes e idades, tem sido os chamados reality shows. A maioria deles é produção estrangeira adaptada pela comédia da vida privada à moda brasileira. Pessoas, antes, anônimas e cidadãos comuns viram celebridades nacionais e em pouco tempo tornam-se devedores e acorrentados pelos tentáculos da mídia contraproducente. Uns são chamados de “ídolos”, outros passam pelas casas da “fama” e se autodenominam “artistas”, outros ainda assumem a “troca de família”, enquanto os demais competem violentamente, entre si, para se autoproclamarem “aprendizes” em um jogo nada justo por sinal. Todos acabamos conhecendo e sabendo do assunto, mesmo não sendo assíduos telespectadores destes programas. A mídia é muito forte e a polêmica sobre os fatos toma conta dos assuntos de roda e mesa e praticamente ninguém consegue se isentar.

A palavra fenômeno é originada do grego phainómenon e significa “coisa que aparece”. No entanto, os reality shows não só aparecem e fazem aparecer, mas, sobretudo, acabam ferindo a sacralidade da vida real, ao fazê-la um espetáculo de telespectadores ávidos pela indiscrição moral e ética. Não são poucos aqueles que acabam se projetando acima dos personagens oferecidos, a ponto de descartá-los como se faria com um objeto. Coloca-se em paredões e tira-se de cena os “rostinhos” e os “jeitinhos” que não agradam ao “gostinho” do público. Vidas são coisificadas, pessoas são instrumentalizadas, realidades viram fetiche de um mundo alienado pela vontade de controlar a existência de outrem.

O gênero do reality show possui fundamentação histórica datada de 1948, a partir do livro Mil novecentos e oitenta e quatro (1984), do escritor indiano Eric Artur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell. Nesta obra, o autor utiliza do futuro para narrar um romance pessimista sobrevindo na Inglaterra. A história tem o pontapé inicial com a formação de um megabloco oceânico, que na narrativa significa a junção de todos os países, com seus cabais oceanos, em um único grupo. O respectivo bloco vive imerso no regime totalitarista, no qual Winston Smith, um funcionário do partido IngSoc, assume as vezes de ator principal. Sua missão é verbalizar as experiências sofridas pelo totalitarismo fascista da Itália e nazista da Alemanha. Por outro lado, a função do governo é reprimir pelo medo a todos aqueles que se oponham ao sistema. Todos são vigiados pela “polícia do pensamento” através de uma teletela, isto é, um aparelho de massificação, capaz de captar em áudio e vídeo a vida dos cidadãos, no intuito de controlar suas consciências. Juntas, as pessoas são procuradas e entretidas por um ser onipresente das teletelas, apontado como o “Grande Irmão” (Big Brother). Vale ainda ressaltar que até mesmo o título do livro 1984 já é uma crítica invertida à tirania dos sistemas políticos de 1948. George Orwell faz da década de 84 um trocadilho de seu tempo na década de 48.

Vigiar a vida das pessoas é uma forma de controle déspota. Colocar câmeras sobre as individualidades é fazer dos partícipes produtos da nossa alienação fugaz. A necessidade de verificar a vida alheia é um meio bestial de construir uma sociedade que não respeita mais os limites do privado. Por conseguinte, expor a vida em um reality show, na obstinação por fama e dinheiro fáceis, demonstra a carência de nossas instituições sociais que não têm mais nada a oferecer senão um complexo vazio de inventividade e valores.

Passando pelos nossos supérfluos “ídolos” brasileiros ou estrangeiros, adentramos, por exemplo, a desusada Casa dos Artistas, para nos determos no “Casamento à Moda Antiga”, no “Circo do Faustão” e logo em seguida vermos a “Dança dos famosos” com ou sem gelo, e por último nos depararmos com a Supernany de uma vida fútil. Um jogo de prazeres proveniente do besteirol capitalista com seus: Americas Next Top Model (no Brasil “Batalha dos modelos”), Extreme Makeover: Home Edition (onde se constroem casas populistas em sete dias), Laguna Beach: The Real Orange County (semelhante ao “Na Terra dos Ricos” do canal Fox), Miami Ink (um estúdio de tatuagem com depoimentos dos clientes), Popstars (é o programa original dos Ídolos no SBT e do Fama na Rede Globo), Project Runway (uma competição eliminatória de estilistas desafiados pela escravização da beleza pela moda), The Apprentice (produzido e apresentado por Donal Trump. No Brasil é comandado pelo empresário Roberto Justus), The Real Wedding Crashers (inspirado no filme Penetras Bom de Bico), The Simple Life (programa norte-americano, no qual socialaites visitam o mundo da miséria imerecida dos pobres), e por fim, para não cansar a sua cabeça, o Survivor (adaptado no Brasil em dois programas: o primeiro que deixou de ser exibido No limite e o segundo com o nome de O Conquistador do Fim do Mundo).

Estas são algumas expressões televisivas da ausência de respeito pela inferência coletiva na individualização da pessoa humana. O ser humano não foi criado para servir de divertimento às massas deturpantes da realidade, mas, pelo contrário, para ser um agente da história na construção de um mundo melhor, no qual usam-se as coisas e não as pessoas.

A mídia está diante de nós. Cabe-nos, portanto, aprender a separar o “trigo do joio”, para viver humana e dignamente como filhos amados do Pai Eterno! Do oposto sejam todos bem-vindos aos reality shows: um mundo de ilusão e falsidades! Uma conjuntura marginalizante na qual as pessoas assumem máscaras e interpretam papéis com o objetivo de serem aprovadas pela opinião – desculpem a expressão– da “galera”!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Um ícone chamado Perpétuo Socorro

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Antes da leitura prévia deste artigo, paremos um pouco diante do ícone de Nossa Senhora da Paixão, mais conhecido pelo título de “Perpétuo Socorro”, tão venerado nas Igrejas de Goiânia e nos locais por onde passaram os Missionários Redentoristas. Deixemo-nos interpelar pelo olhar desta mulher que nos segura pelas mãos. Permitamos que Maria incite a nossa mente e o nosso coração para o Cristo. Aceitemos que ela mesma nos aponte o seu Filho como caminho para que a nossa vida tenha um norte e a esperança tenha sentido. Contemplemos na realidade mais profunda do nosso ser a presença simples daquela que invocamos como a “Mãe do Perpétuo Socorro”.

A palavra “perpétuo” é proveniente do latim “perpetuu” e significa: aquilo que dura para sempre, que é contínuo, sem interrupção, inalterável e eterno no Coração de Deus. Já a palavra “socorro” se aproxima de socorrer, derivada do latim “succurrere”. Esta última traz em seu sentido etimológico as seguintes expressões: defender com a própria vida, proteger um indivíduo, prestar auxílio a outrem, acudir nos momentos de dificuldades, prestar socorro em perigo de morte, remediar para prover do necessário, evitar o mal e, por fim, esmolar o favor de alguma pessoa. São títulos fortes que expressam a realidade espiritual e cristã da manifestação artística do Sagrado.

A arte dos ícones contradiz o fetiche capitalista e a existência mercantil ultramoderna, pois não é produzido pelas leis do mercado, todavia, pelas leis da fé. Antes de ser pintado, o ícone é rezado. Anterior à confecção está a contemplação. O discurso sagrado que fundamenta a feição dos ícones orientais é a teologia da encarnação. Neste sentido, é o próprio Deus quem se encarna nas formas artísticas para ser adorado e reconhecido como Deus e Senhor nosso.

Agora, detendo-nos mais precisamente no ícone do Perpétuo Socorro, visualizamos o quadro original, medindo 53 x 41,5 cm, com o rosto pobre e sofredor de uma mulher. Ela está no centro artístico, contudo, não é o centro teológico da obra. Por trás da consternação de Maria apresentam-se os símbolos da dor e da paixão que ora se aproximam do pequeno Jesus. Os olhos de Maria são grandes e pintados de forma exagerada para expressar sua atenção diligente por nossas necessidades. No entanto, os lábios são apoucados para demonstrar o silêncio e a reverência pelas dificuldades perenes de nossa história. Estamos defrontes à Mulher que há todos os instantes nos remete ao homem Jesus quando afirma: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).

Maria está vestida com uma túnica vermelha, roupa esta utilizada pelas virgens nos tempos de Nazaré. A cabeça e o restante do corpo são revestidos por um manto de cor azul com forro verde que significam a maternidade e a divindade de Maria, presente também em todas as Marias dos tempos hodiernos. Outras interpretações vão afirmar que as cores azul, vermelha e verde eram distintivas da realeza e só utilizadas pelas Imperatrizes do passado. No manto azul, robustecido com traços dourados, há uma estrela de oito pontas que pode ter sido acrescentada por um artista posterior no intuito de demonstrar que Maria é a estrela que reflete o sol da justiça. Trata-se de uma teologia oriental que apresenta mais Maria da fé do que a Maria histórica que viveu ocultamente em Nazaré. No entanto, ambas as realidades, fé e história, vão conceder força e vigor para aquilo que chamamos de “Perpétuo Socorro”.

Além da figura mariana, verifica-se mais adiante a presença substancial de dois arcanjos. Seus nomes são denotados pelas letras gregas sob suas cabeças que diz: Miguel e Gabriel. Estes dois, antes mesmo de serem apresentados como emissários da glória majestosa de Deus, como bem se percebe na doutrina angelical tomista (de São Tomás de Aquino), são colocados como mensageiros da paixão. Eles não trazem nem trombeta apocalíptica nem a harpa angélica, mas sim os instrumentos da dor e da agonia de Jesus de Nazaré: a cruz e as lanças. No ícone também se inverte o relato evangélico da anunciação de Maria. Em vez de anunciar o nascimento do Filho do Homem, o anjo prediz a morte do Filho de Deus.

No colo de Maria está uma figura trêmula e frágil, um Deus que parece mais humano que Divino. Estamos diante da Criança que tem medo da paixão e, por conseguinte, da morte: fruto de sua opção pelo Reino do Pai em vista dos pobres e abandonados. É um Menino que, contemplando os instrumentos da paixão, corre tão velozmente para os braços da Mãe que deixa as sandálias perder do pé. No simbolismo da sandália está a insegurança de alguém com a vida sob o pêndulo. Na narrativa bíblica, os pés são lavados e beijados, enquanto que no ícone ficam desprotegidos. Perder a sandália é não conseguir andar por muito tempo nos caminhos pedregosos da existência. É prefiguração da morte. Ficar sem sandálias é despojar-se de si mesmo para assumir a ferida do humano. Não possuir sandálias nos pés é adentrar o caminho da mais absoluta entrega por meio da encarnação, paixão e ressurreição.

Adentrar o caminho iconográfico do Perpétuo Socorro é por fim tornar-se “perpétuos socorros” para o mundo que tem fome e sede de Deus. Ser cristão é assumir a missão de agir como socorro perpétuo em vista do amor e da consagração da vida. Vale ainda ressaltar que o “Perpétuo Socorro” nos faz assumir uma nova visão de Deus debaixo para cima, do temporal para atemporal, do finito para infinito. Também nos faz descobrir um novo rosto de vida cristã, entendendo-a como serva e não como senhora. Por fim, a amorização da vida nos faz compreender as novas e futuras relações na Igreja e na sociedade em vista da implantação cotidiana do “Perpétuo Socorro” de Deus em nós e por nós!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Um grito pela vida!

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Criada em 1962, ano que marcou o início das reformas pastorais do Concílio Vaticano II, a Campanha da Fraternidade vem se consolidando como uma reflexão espiritual, catequética, bíblica e científica sobre as mais variadas questões pertinentes à população. O objetivo maior é conscientizar as pessoas endereçadas e, ao mesmo tempo, evangelizar os diversos setores da sociedade que têm menosprezado uma determinada área do País e por isso ferido a dignidade humana ao gerar um pecado social. Anualmente, após uma aprofundada análise de conjuntura por parte de peritos e especialistas, é escolhido uma matéria de maior enfoque para a Nação. Este ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) oferece como tema: “Fraternidade e Defesa da Vida”, e como lema: “Escolhe, pois, a Vida” (Dt 30,19). Esta já é a 45ª Campanha da Fraternidade. No entanto, vale ressaltar que ela não é promovida somente pela Igreja Católica Romana, mas também pelas Igrejas membros do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic). Cito a Igreja Cristã Reformada (ICR), Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (Ieab), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Igreja Síria Ortodoxa de Antioquia (ISO) e Igreja Presbiteriana Unida (IPU). Vinculadas pela fé, estas e outras instituições sociais buscam a defesa e a promoção da vida humana desde a concepção até a morte.

Diante de uma temática tão complexa, são inúmeras as abordagens que podemos emitir. Assim sendo, pela brevidade deste artigo e pela importância do debate, saliento algumas prerrogativas significativamente importantes para tomadas de decisões no presente, principalmente em relação ao crime do aborto. Destarte, há ainda um tripé existencial que deve ser levado em consideração pela ética do humano e pela moral do agir: na dignidade intrínseca da pessoa, no desejo de liberdade que é diferente de quaisquer correntes de independência ou autonomia e por fim na experiência da responsabilidade pela própria vida.

A palavra “aborto” é proveniente do latim aboriri que significa “perecer”. Logo, concluímos que tal prática é o próprio perecimento da vida, sinônima de infanticídio. Contudo, e além de etimologias, é no Brasil que uma das grandes ameaças à vida tem ocorrido: a clandestinidade do aborto, que hoje chega à margem de 300 por ano. O número não pára por aí; de acordo com o Sistema Único de Saúde (SUS), a quantidade de extenuações maternas, por conseqüência do aborto, tem atingido a proporção de 115 a 150 mortes anuais. Por conseguinte, essa situação gera uma dupla mortalidade, tanto do feto quanto da mãe, muitas vezes desprovida de informações e influenciada por pressões de outrem. Paulatinamente e obscurecida pela imprensa, a legalização do aborto tem conseguido muitos adeptos, influenciados por pseudo-informações, que dizem conter a mortalidade e a morbidade materna, o número de abortos e o gasto público com os investimentos na área da Saúde. Alguns nos deixam boquiabertos ao afirmar que o aborto é um “mal necessário” para a conquista da emancipação feminina. Desde quando matar é um direito? Seria uma inconseqüência social e um retardamento histórico a confusão entre a norma do direito e o crime do assassinato. Legalizar o aborto é voltar às origens primitivas da evolução histórica ao permitir que as forças não racionais decidam quem deve viver e quem deve morrer na disputa entre clãs.

Na mesma direção, não podemos nos esquecer que a legalização abortiva tem implicações jurídicas ao negar os direitos do nascituro, médicas ao matar o feto e possivelmente a mãe, éticas ao desprezar o valor da vida, científicas ao se colocar a serviço da morte de inocentes, sociais ao instituir a violência e o descontrole da natalidade, factuais ao não dignificar a mulher nem diminuir a quantidade de abortos, e religiosas ao agredir com veemência o fundamento de todas as religiões que defendem a vida como dom do Criador.

Muito pouco é noticiado, mas nas clínicas que comercializam embriões in vitro os fetos são tratados como cobaias humanas e torturados até a morte em vista de um falso desenvolvimento da Ciência, pois aquela que deveria gerar a vida, agora se torna a grande inquiridora da morte. Seriam mesmo científicas as investidas sanguinárias de empresas que reduzem o ser humano a um objeto de pesquisa descartável? Saibamos e defendamos que não se justifica um bem por um mal.
Hoje, precisamos escolher entre o caminho que conduz à vida e o caminho que leva à morte! Não nos isentamos em optar por Aquele que é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6) e que nos convida a viver em abundância (Jo 10, 10). Vejamos bem se não estamos criando para as futuras gerações uma sociedade obstinada pelos resultados terapêuticos como fuga da morte ou como longevidade industrial. Que Jesus de Nazaré, assassinado por se opor à lei escravista e ao Estado déspota, nos ensine a não violentar, mas, sobretudo, exaltar nossa humanidade tão dilacerada ao ser reconhecida como mera mercadoria.

Oxalá que os defensores do aborto possam pôr a mão na consciência e se silenciar diante do mistério da vida! O que seriam deles se também tivessem sido abortados por suas mães? O mesmo direito que eles tiveram de nascer deve ser estendido a todos! Àqueles que se ocupam da Saúde e que atuam em clínicas clandestinas vale a sentença: deixem de trair o juramento de suas profissões e assumam com honestidade social o encargo que lhes foi confiado em nome de Deus. Às mulheres violentadas, peço que a graça divina possa despertá-las para não reproduzir na vida de inocentes a violência que lhes foi sofrida por parte de agressores. Saibam que interromper a gestação não é nenhuma conquista ou superação do problema, mas pelo contrário, uma derrota e talvez a maior derrota de suas existências. Aos políticos, e de modo especial ao Legislativo, que as decisões em voga e tramitadas no Congresso não façam dos senhores promulgadores da morte e geradores de uma não-política, ao serem desacreditados pela sociedade civil. Depois da corrupção maquiavélica, só falta a legalização do aborto para deixarmos de acreditar que este País ainda tem motivos para crer em dias melhores. Por favor, não nos decepcionem! Fazei jus à fé de um povo sofredor e permiti o nascimento daqueles que não têm berço esplêndido para dormir e muito menos o direito de ver o céu formoso e límpido deste Brasil! Que o sofismo do chamado “Estado laico” não seja conseqüência de uma “nação desumana” ao instaurar o sacrifício dos inocentes, apedrejando-os até a morte!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Jesus Cristo é o Senhor!

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Atualmente vivemos submersos em uma sociedade em que há incontáveis quantidades de senhores. Falamos dos soberanos de empresas religiosas aqui e dos dominadores das consciências acolá. E assim, determinadas realidades vão sendo construídas nas quais as pessoas valem mais por aquilo que produzem e fazem do que pelo que são de fato. Na civilização do mercado, evidencia-se o detrimento constante em relação à verdade mais profunda do ser humano: sua dignidade, seus valores, sua história. No entanto, a tradição ultramoderna faz com que a pessoa seja deixada de lado, para que a primazia do poder possa se elevar sobre toda e qualquer realidade existencial importante. Quantas mentes são manipuladas pela chamada teologia da prosperidade, e, deste modo, vamos construindo uma cultura de títulos, em que até mesmo o título passa a denominar quem é a pessoa humana em sua totalidade? Conseqüentemente, para estes últimos, perder um título é perder uma identidade. Não possuir mais o título adquirido é permitir o esmaecimento da própria história. Sem título não há pessoa, é o que prega o atual sistema sociocultural e também neopentecostal, que somos convidados a transformar mediante a escola evangélica do serviço livre e desinteressado de Jesus de Nazaré.

Neste sentido, podemos falar do título primordial de Jesus como contestação a um conjunto de verdades inventadas pela lei do mercado neoliberal. Para tal, é a comunidade primitiva dos cristãos que nos orienta na proclamação de que Jesus é o único Senhor! Destarte, proclamar o senhorio de Jesus é, ao mesmo tempo, reconhecer sua condição divina emanada das trilhas históricas de Nazaré e, por conseguinte, entremostrar sua dimensão de serviço testemunhada no lava-pés. A partir de então, o Senhorio de Jesus torna-se uma verdade de fé, testemunhada até mesmo com o sangue dos mártires. Estes últimos entregavam a vida por não aceitarem o senhorio de outras divindades pagãs e muito menos do Imperador Romano. É nesta comunidade de fé que o Senhor se faz presente de modo místico e corpóreo em cada um dos fiéis.

No Senhorio de Jesus, a Igreja se faz povo novo e resgatado. A verdade de fé que imprime a marca indelével da comunidade cristã é a que todos os batizados são povo de Deus. O laicato, os religiosos, as religiosas, os bispos, os metropolitas, o colégio cardinalício e o Sumo Pontífice são povo de Deus, com ministérios diferentes, pois todos pertencem ao mesmo Senhor. Pela consagração batismal todos ensinam, todos governam, todos santificam, todos têm a responsabilidade de organizar a comunidade eclesial e, por fim, todos são separados e reservados para a missão específica da Igreja. Toda a vida cristã está fundamentada no Batismo. Por meio dele, somos incorporados à vida do Senhor. Pelo batismo formamos a comunidade de fé capaz de comungar de uma mesma carne e de um mesmo sangue para formar um só corpo. Justamente por isso que a Igreja pode ser chamada de escola de irmãos em que o poder ou o senhorio se transforma em serviço livre e desinteressado, tendo Jesus como o modelo Daquele que tirou o manto, “símbolo do poder”, cingiu a cintura para lavar e beijar com o próprio ser a história salvífica de seus discípulos e discípulas. Falaríamos hoje de beijar os pés de toda a humanidade sofrida e dilacerada pelo pecado social.

De fato, perde-se muito quando o Senhorio deixa de ser atribuído a Jesus de Nazaré e passa a ser associado a determinadas empresas religiosas, intituladas “igrejas” ou, então, a alguns membros destas instituições. Vale ainda ressaltar que, ao utilizar o Senhorio de Cristo como forma de alienação, estamos usurpando sua história. Evangelho que prega vida fácil, que fala de prosperidade o tempo todo não é Evangelho de Jesus Cristo. O Senhorio redentor nos faz assumir uma nova visão de Deus, na categoria de quem desce dos céus para nos encontrar, que vem do atemporal para o temporal, que surge do infinito para redimir o finito humano. Também nos faz descobrir um novo rosto de Igreja Católica, na qual os cristãos vão se apresentando como servos e não na condição de senhores. Por fim, o Senhorio nos faz compreender as novas e futuras relações na comunidade de fé e na sociedade em vista da implantação cotidiana do Reino de Deus.

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Use as coisas, não as pessoas!

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Vivemos no mundo mediatizado pela imagem, fruto da chamada indústria cultural. Hodiernamente, estamos defronte a um engenho capaz de gerar altas quantias em dinheiro para os seus aliciadores. Assim denominamos estes últimos, pelo fato de atraírem as pessoas a si por meio de promessas enganosas.

Na realidade pós-moderna, a imagem instrumentaliza e coisifica as relações humanas. Prestemos mais atenção no marketing das propagandas de cerveja, dos produtos de limpeza e da moda em geral, no intuito de verificarmos os meios utilizados para que a pessoa torne-se mercadoria junto ao produto por ela oferecido.

O neocapitalismo em muito contribuiu para deturpar o grande dom que Deus nos confiou, a saber: o amor. Hoje, o auto-erotismo tem marcado a vida de adolescentes e jovens, imprimindo em suas histórias o desejo da auto-satisfação imediata e compulsiva. Neste sistema, a sexualidade deixa de ser a força vivificante do humano, para apresentar-se como um produto rentável e puramente comercial. Deixa de enraizar-se no amor. E de tal modo as pessoas vão assumindo a configuração de meros objetos, que depois de utilizados tornam-se descartáveis para o mercado.

Na guerra dos magnatas em voga ganha a pessoa que tiver o corpo mais trabalhado. Tem valor aquele que se sacrifica em exercícios, não em vista da saúde, mas por puro exibicionismo. É importante aquele que ainda não sofreu com o peso da idade, que não conhece rugas e muito menos cabelos brancos. Justamente por isso, vem à tona o frenesi pelo culto ao corpo. Logo, a corporalidade não é enfocada como manifestação do sagrado, mas simplesmente, um meio para a celebração do hedonismo, no prazer pelo prazer. Por conseguinte, famílias dispersam-se, jovens ficam perdidos, adolescentes se repudiam dentro de uma sociedade que ficou doente ao fazer do sexo uma divindade. Nesta situação não há espaço para um genuíno exercício do amor.

Pouco se fala sobre isso; todavia, deveríamos estar atentos para a formação da consciência atual. Na verdade, as pessoas não estão aprendendo a conviver com os limites da idade, com as intempéries da vida, com os ocasos da ausência de saúde; pelo contrário, fazem o impossível para adiar o encontro com a experiência da finitude a partir da morte. E acabam se esquecendo de que na existência não há nenhuma fonte de juventude. Não se recordam que algumas perdas na vida são necessárias, inclusive a perda da beleza na terceira idade, pois nesta fase o que importa é a santa experiência acumulada pelos anos. O resultado final de todo este processo é a desumanização da sexualidade, e, conseqüentemente, do amor, a ponto de serem banalizados.

Até mesmo a realidade conjunta do amor na amizade, na ternura, na afeição, é corrompida. Muitas vezes e dos mais variados modos falamos de “amor” como sinônimo único e exclusivo de “sexo”. Na sexualidade há amor, mas não podemos restringi-lo somente a uma variante do humano, por mais importante que ela seja. No amor encontramos “a força que enriquece e faz crescer. Quando, pelo contrário, falta o sentido e o significado do dom do amor na sexualidade, acontece uma civilização das coisas e não das pessoas; uma civilização em que as pessoas se usam como se usassem coisas. Na civilização do desfrutamento, a mulher pode tornar-ser para o homem um objeto e os filhos um obstáculo para os pais” (Conselho Pontifício para a Família, sexualidade humana: verdade e significado, p.17).

Aqui vale uma análise clara e precisa do que é o Amor. Escrevo em maiúsculo, pois o remeto a Deus. Compreender limites, superar obstáculos, rever os erros, conviver com pessoas difíceis, procurar soluções para conflitos, optar eternamente por alguém ou por algum projeto divino faz parte da esfera do Amor. Nele e por ele somos introduzidos à vida em Deus e, por conseguinte, nos tornamos capazes de conhecer as manifestações divinas que atuam no mundo. No Amor, aprendemos a olhar para a obra da criação com sacralidade e sentimento de reverência. Na ótica do Amor também contemplamos as pessoas, não como objetos coisificados, mas, sobretudo, como filhas do Pai Eterno. Desta maneira, conseguimos perdoar mais, ficamos menos doentes espiritual e fisicamente, perdemos o medo de sorrir e ser feliz, e por fim, passamos a viver com mais autenticidade e integridade pessoal, sendo fiéis a Deus e a nós mesmos. Transformamo-nos em pessoas mais humanas e assertivas. No entanto, não podemos confundir o Amor com receitas prontas de felicidade encontradas nos manuais modernos de auto-ajuda. Além de todo psicologismo, o Amor nos convoca a uma existência mais concreta no hoje da história. Sem palavras metafóricas, sem magias, sem forças intramundanas, o Amor supõe a pedagogia da liberdade e do respeito pela sacralidade de si e dos demais. O que muitos chamam de amor não passa de auto-satisfação erótica e deturpada. É necessário ir à origem das coisas, para que na essência do humano possamos encontrar a presença amorosa de Deus e sermos para o mundo do Amor.

Respeitemos a nossa individualidade e não sejamos produtos baratos nas mãos daqueles que têm por deus o dinheiro. Na comercialização humana, propensa ao mal por natureza, devemos ser as primeiras testemunhas a proclamar que o humano está acima de toda e qualquer negociação, pois ele é parte de Deus! Que nenhuma pessoa seja confundida e muito menos associada a uma garrafa de cerveja nos bares da boa, presentes nas esquinas da vida. Se continuarmos a nos comercializar, mesmo que por imagem adjunta, também estaremos comercializando Deus, em vez de anunciá-lo!

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Lutar contra a vida fútil!

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Atualmente vivemos em um sistema que se apóia tanto no individualismo quanto no consumismo para instaurar a legitimação da pessoa. Trata-se de uma conjuntura pensada e articulada para gerar a idolatria do eu e, ao mesmo tempo, a necessidade exagerada de consumir. Ambas as realidades acabam por se tornarem pura ilusão na medida em que se apresentam como uma pseudo-autonomia do sujeito.

Por individualismo compreende-se um conjunto sistematizado “de costumes, de sentimentos, de idéias e de instituições que organiza o indivíduo partindo de atitudes de isolamento e defesa” (Emmanuel Mounier). Trata-se de um ser, movido pelo falseação da verdade e sem nenhum tipo de vínculo social. O individualismo forma a pessoa na desconfiança com os outros, permeando-a em vontades exclusivistas, egocêntricas e cheias de reivindicações autoritárias. Uma das mais importantes tarefas do individualista é centrar atenção sobre si mesmo.

Na perspectiva humana e ética, vemos que o individualismo faz parte da chamada “ideologia moderna”. Por trás deste movimento de emancipação da pessoa, está a alienação paulatina daquilo que compreendemos por livre-arbítrio e autonomia. A liberdade passa a ser enfocada no fazer o que quer, quando quer e como quer. E assim o indivíduo se adota na condição de senhor de si, com a capacidade de se autodeterminar como bem entende. E sujeitos assim são aplaudidos em platéias de Gugu, Faustão e Big Brothers, quando afirmam isto em suas falas!

É a autonomia sem valores humanos morais que confere embasamento ao individualismo. A partir do momento que nos associamos ao império ególatra do eu, deixamos de lado o origem primeira do “viver em sociedade”. A concretude desta última afirmação pode ser averiguada quando exclamamos em alto e bom tom: “aquilo que não nos prejudica, não é problema nosso”.

No individualismo a pessoa se depara com a secularização de si e dos demais. Justamente por isso seu único objetivo é a busca da própria realização. No individualista encontramos a necessidade imperativa e a penúria de “protagonismo na insistência exagerada sobre o próprio bem-estar físico, psíquico e profissional; a preferência pelo trabalho independente e pelo trabalho de prestígio e de nome; a prioridade absoluta dada às próprias aspirações pessoais e ao próprio caminho individual, sem pensar nos outros e sem referências à comunidade” (Somalo).

No entanto, poucos se recordam que a vida em sociedade é contínua passagem do “Eu” ao “Nós”. Neste sentido, já não são mais coerentes determinadas afirmações como: o meu carro, o meu computador, a minha casa, a minha vida… Destituída de um espírito de partilha.

Enraizado ao individualismo, está o consumismo. É o mundo do ter pelo ter de forma imerecida, muitas vezes. Suas características são a busca de ascensão do conceito de vida, grande abundância de bens e mercadorias e a cultuação de propriedades. A lei de consumo faz com que a pessoa adquira o supérfluo hoje, para pagar no dia seguinte, até mesmo em prestações escravizantes. E o mercado continua a repetir: “Você é aquilo que consome.” A qualidade de vida passa a ser medida por aquilo que cada um tem e possui pela quantidade de consumo. É muito triste perceber que estes conceitos estão arraigados em muitas e muitas mentes.

Sejamos claros! Ter exageradamente não é nenhum triunfo. A posse que o mundo oferece não é uma conquista. Ao falar sobre o desenvolvimento da pessoa, não podemos nos confundir e muito menos nos fundamentar no acúmulo de posses desnecessárias. As propriedades, os bens, os atributos externos não são valores absolutos para aqueles que buscam uma existência mais humana, com maior sentido. Saibamos e nos convençamos: “Evangelho que prega vida fácil, que defende prosperidade sem limites, sem lutas e esforço pessoal, que compra as bênçãos de Deus não é Evangelho de Jesus Cristo! Na verdade, “a pessoa só se encontra quando se perde. A sua fortuna é o que lhe fica quando se despojou de tudo o que tinha – o que lhe fica à hora da morte” (Sung). Não nos é lícito assumir o caminho de escolhidos por Deus e abençoados pelo mercado. Pelo contrário, busquemos um coração mais simples e fundamentemos nossa esperança naquele Deus que, sendo rico, se fez pobre por amor de nós.

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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Educados para o amor

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Os cristãos hodiernos precisam renovar a paixão pela pessoa de Jesus de Nazaré. Muitas vezes a vida cristã se apresenta como um caminho de rugas e envelhecimento precoce, no qual esquecemos a jovialidade do amor e do evangelho. Quando estamos enamorados por alguém, procuramos sempre agradar, ser útil, para tal vestimos a melhor roupa, nunca chegamos atrasados, em hipótese alguma demonstramos raiva, concedemos o melhor de nós e até nos sacrificamos em função do (a) outro (a). É isso que acontece com os apaixonados. Da mesma forma, precisamos recuperar o “enamorar-se por Deus”, fazendo dEle a razão e o centro convergente da existência. Ao nos enamorarmos pela pessoa do Pai Eterno saímos de nós mesmos para irmos ao encontro do outro, aceitando-o em sua totalidade, não fazendo dele uma extensão de nós. Portanto, sem demagogias, a oração é cuidar do nosso caso de amor com Deus até nos transformarmos nAquele que amamos. “A meta de toda oração é a transformação do homem em Jesus Cristo. Qualquer relação com Deus que não conduz a esta meta é inconfundivelmente fuga alienante. Certamente a meta nunca se atinge. Mas a vida deverá ser um processo de transfiguração: a troca de uma figura por outra […]. Repetir outra vez em nós os sentimentos, atitudes, reações, reflexos mentais e vitais, a conduta geral de Jesus”(Inácio Larrañaga).

Todos os grandes místicos da Igreja, por meio da oração, descobriram o que é ser pessoa em Deus. A oração os tornou integrados, centrados, afetivos, sexualizados e não-assexuados. Na escola da oração, homens e mulheres santos aprenderam a resgatar sua respectiva masculinidade e feminilidade. E aqui falamos do segundo aprendizado na escola do amor, a saber: conversão. A conversão é lutar para ser aquilo que se é, ou seja, um retorno fiel e constante às verdadeiras raízes do existir. Conversão é tornar-se pessoa, é construir-se a partir dos próprios limites e feridas que a vida não nos poupou.

Atualmente é modismo permear a vida cristã de slogans teológicos, enfatizando, principalmente, as informações sobre a pessoa de Jesus. Só que o Cristianismo não vive somente de informações. A proposta de Jesus e de seu Evangelho vão muito além de informações, uma vez que está ligada ao campo da experiência. Destarte, no momento em que valorizamos demasiadamente as informações, nos esquecemos da experiência. Já é fato palpável nos determos com pessoas que anunciam com profetismo o nome do Senhor Jesus, que escrevem “sumas teológicas” sobre o Messias, que operam curas, milagres e prodígios e que, infelizmente, não conhecem a pessoa de Jesus de Nazaré.
Dessa forma, aqueles que assumem a conversão como um vir-a-ser na pessoa de Jesus acabam por deixar de lado os extremismos da fé, para equiprobabilizar a informação e a experiência. Precisamos da doutrina, das verdades da fé e do evangelho, da teologia, mas, sobretudo, precisamos também experimentar todos esses fatos na individualidade da experiência da fé.

Assim sendo, há algumas palavras-chaves e motoras no itinerário cristão, são elas: renovar-se, examinar-se à luz do amor e pedir perdão. Ao mesmo tempo, aparecem outras um tanto diferentes das supracitadas, como: queda, fracasso, descontentamento, injúria, ruína, derrota e, por fim, covardia. Esta última é o antônimo da conversão. Os covardes não conhecem o Reino de Deus, pois se fecharam dentro de si. Não possuem o endereço da casa do amor. Não sabem o que é conversão, uma vez que não conseguem ir ao encontro do outro para encontrar o próprio eu. Diante dos desafios da vida, eles cruzam os braços e atribuem todas as controvérsias a Deus: Ele é o culpado, Ele que castigou, que tirou a vida. E é da covardia que nasce a pergunta: o que eu fiz para merecer isso?

Na escola do amor não existem merecimentos nem retribuições. Tudo é benevolência! Valemos por aquilo que somos e não pelo que temos ou fazemos. Cada sujeito é pessoa e não um mero objeto. Educados ao amor aprendemos a amar, a perdoar a nós mesmos, a compreender a vida na ótica de Deus: isso é conversão! Contudo, enquanto nos mantermos atados às nossas mazelas e feridas continuaremos a reproduzir na vida do outro tudo aquilo que sofremos. O outro passa a ser a projeção daquilo que não aceitamos em nossa história de vida, e por isso ele incomoda tanto. Mas, na verdade, somos nós que não nos aceitamos e decidimos não assumir o itinerário da conversão, pois preferimos reproduzir os monstros que ainda existem dentro de nós. Precisamos encarar nossos monstros e fazer as pazes com eles, para cessar a guerrilha interior e entregar todas as nossas armas diante de Deus. Quantas pessoas estão em guerra dentro de si! Tristemente, em determinados acontecimentos, não permitimos que o amor visite os nossos corações, mas somente por hoje permitamos que Deus mesmo nos diga: “Homem, considera que fui Eu o primeiro a amar-te. Não estavas ainda no mundo e eu já te amava, mundo nem mesmo era. Amo-te desde que amei a mim mesmo. Amo-te desde que sou Deus” (Santo Afonso).

Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário redentorista, reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

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